Tony Goes

Sem saber se reinventar, Pânico só repercute quando trata mal seus convidados

Restrito ao rádio e à web, programa insiste num estilo de humor agressivo e ultrapassado

Emilio Surita no Pânico, da rádio Jovem Pan
Emilio Surita no Pânico, da rádio Jovem Pan - @Pânico no Instagram
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Na primeira década deste século, houve um momento em que o Pânico foi o humorístico mais importante do Brasil. Surgido no rádio e transplantado para a televisão, o programa criou personagens memoráveis, inculcou bordões na linguagem cotidiana e se tornou a maior audiência da RedeTV!. Também lançou ou amplificou a carreira de muitos talentos que brilham até hoje, como Eduardo Sterblitch, Sabrina Sato e Wellington "Ceará" Muniz.

Mas, assim como Emilio Surita e sua turma suplantaram o Casseta & Planeta, que ocupava o pódio do riso na virada do século, não demorou para que eles também fossem ultrapassados. O surgimento do Porta dos Fundos, em 2012, marcou o início de uma nova era no humor brasileiro. Começamos a rir mais do opressor do que do oprimido, com mulheres, negros e homossexuais passando de alvos a protagonistas.

A mudança de ares não foi uma unanimidade. Muitos se queixaram de uma suposta ditadura do politicamente correto e continuaram a fazer piada ao jeito antigo, como Danilo Gentili ou Rafinha Bastos. Mas mesmo estes vêm se adequando aos tempos que correm. Só o Pânico continua igual ao que sempre foi: basicamente, um bando de "bullies" brancos, héteros e privilegiados, que acham engraçado tirar sarro de quem não é igual a eles.

Esse estilo velho e agressivo não tem encontrado mais espaço na TV aberta. Depois de uma passagem pela Band, o Pânico hoje só subsiste na rádio Jovem Pan, onde começou em 1993, e em seu canal no YouTube. A audiência é boa para o horário, mas foi-se o tempo em que as piadas surgidas lá caíam na boca do povo. Hoje em dia, o programa só repercute quando trata mal seus convidados –o que vem se tornando um hábito.

Na semana passada, isto aconteceu duas vezes. A primeira foi na terça (14) e a vítima foi Mario Junior, o brasileiro que mora em Londres e se tornou um fenômeno no TikTok com seus vídeos em que aparece paquerando uma menina que não é vista em cena. São memes em movimento, e pode ser que sejam esquecidos daqui a pouco tempo. Mas pode ser também que Mario, que tem Marcelo Adnet como ídolo, esteja apenas começando uma carreira de sucesso.

A galera do Pânico não levou isto em consideração. Apesar de Mario Junior vir recebendo convites para outras mídias, ele foi tratado como um moleque insignificante, já caído no ostracismo. O economista Samy Dana (que, sabe-se lá como, foi parar na bancada do Pânico) recomendou que Mario estude –um conselho óbvio, válido para qualquer pessoa. O rapaz ouviu tudo calado, com cara de constrangido, e não pôde nem se despedir.

Mais grave foi o que aconteceu com a influenciadora e ex-BBB Bianca Andrade, a Boca Rosa, na sexta (17). Sua participação no Pânico se converteu numa aula de machismo estrutural. Bianca foi tão interrompida que chegou a reclamar. Também se queixou dos integrantes do programa –todos homens– lançarem mão da velha acusação de que as mulheres são "inimigas" umas das outras.

"Quando uma mulher fala de machismo, nenhum homem pode devolver falando mal de mulher, ou falar que uma mulher fala mal da outra. Porque já é foda a gente quebrar isso entre a gente", disse ela. "Um conselho que dou para vocês: quando uma mulher falar de feminismo, se coloca no lugar de ouvinte e tenta entender o por quê. Porque o que a gente está falando não é à toa."

As duas entrevistas geraram comoção nas redes sociais. Famosos e anônimos criticaram a atitude de Surita e cia., e suscitaram uma contrarreação. No programa desta segunda (20), veio a chorumela habitual: "não existe humor do bem, humor tem que ser incisivo, abaixo a 'cultura do cancelamento', mimimimi, etc. etc."

Mas existe humor velho. O Pânico envelheceu, e mal. Claro que ainda existe quem curta esse tipo de gracinha datada. No Brasil de hoje, o que não falta é macho branco se sentindo violado em seu direito de desrespeitar os demais. E o Pânico de hoje é só isso: um programa feito por este grupo, para este grupo. O único que ainda não percebeu que o mundo está mudando.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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