Tony Goes

Com patrocínio e muita bebedeira, lives de sertanejos dão mau exemplo

Artistas agem como se estivessem em festas privadas na internet

Gusttavo Lima cozinha durante live
Gusttavo Lima cozinha durante live - Reprodução

Um novo formato de espetáculo se consolida nesses tempos de confinamento: as lives transmitidas pela internet. A evolução do gênero vem sendo rápida. Um mês atrás, uma live era pouco mais do que um artista no aconchego de seu lar, cantando em frente à câmera de seu computador. O acompanhamento costumava ser um único instrumento acústico ou, no máximo, um arranjo pré-gravado tocando em playback.

Essas performances intimistas já são coisa do passado. Muito graças aos sertanejos, as lives agora contam com produção elaborada, câmeras em drones e patrocínio de marcas famosas. Ao mesmo tempo, não perderam de todo o clima espontâneo do início. Ainda fazem um contraste gritante com os shows cheios de luzes e coreografias.

Os números são de impressionar. A começar pela duração: a live de Marília Mendonça ficou três horas e meia no ar. A segunda edição do “Buteco em Casa” de Gusttavo Lima, quase sete horas e meia. Depois, quando disponíveis no YouTube, ambas ultrapassaram os cinquenta milhões de visualizações.

Mas o que repercute mesmo nas redes sociais é, digamos, a descontração dos sertanejos. Todos bebem sem parar, a ponto de ficarem bêbados e protagonizar pequenos vexames. Gusttavo Lima chegou a abrir sua live com um letreiro convocando os cachaceiros, em três idiomas diferentes. Depois, já devidamente alcoolizado, não terminava nunca de preparar um arroz de carreteiro, em uma curiosa ação de merchandising.

Há também um aspecto altruísta. Essas grandes lives vêm arrecadando fundos e equipamentos para hospitais e instituições de caridade. Também vem servindo para conscientizar o público da necessidade de ficar em casa. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez aparições pré-gravadas nas lives de Marília Mendonça e na da dupla Jorge e Mateus.

Mesmo assim, não deixa de ser irônico ver esses grandes nomes beberem até quase cair. Por um lado, o espectador tem uma visão privilegiada da intimidade de seu ídolo, que age como se estivesse em uma festinha particular. Por outro, chega a ser desrespeitoso à plateia este ídolo interromper a apresentação e avisar que “precisa mijar”. Mais do que queríamos saber!

As lives viraram uma grande oportunidade de marketing para as bebidas alcoólicas, uma categoria que sofre muitas restrições para anunciar na mídia convencional. Nelas, os artistas podem aparecer consumindo cerveja e uísque, algo que é proibido nos comerciais.

Nada contra. Mas, também aqui, vale a recomendação do Ministério da Saúde: beba com moderação. O alcoolismo mata, por ano, muito mais brasileiros do que todas as drogas ilícitas juntas. E os artistas, se não precisam posar de vestais, pelo menos não deveriam dar um exemplo tão negativo.

De qualquer forma, as lives vieram para ficar. Elas já provaram seu poder de mobilização –e também o de faturamento. A grana dos patrocínios vai toda para o bolso dos sertanejos, sem passar por nenhum canal de TV.

Não é por outra razão que a Globo está planejando sua própria live. De olho no sucesso do formato, a emissora estuda realizar em breve uma transmissão ao vivo, com grandes nomes da música brasileira, cada um em sua casa. E, claro, com muitos anunciantes.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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