Tony Goes

Felipe Neto, um novo líder politico brasileiro

Ação na Bienal do Livro do RJ levou youtuber para um outro patamar

Felipe Neto, em 2017
Felipe Neto, em 2017 - Eduardo Knapp/Folhapress

O começo desta década presenciou um fenômeno que não foi previsto por nenhum analista: a ascensão dos influenciadores digitais, também conhecidos como vlogueiros (blogueiros em vídeo) ou youtubers (por insistência do próprio YouTube, a plataforma favorita desses novos comunicadores).

A onda varreu o planeta inteiro, e é claro que o Brasil não ficou de fora. Nomes como Christian Figueiredo ou Kéfera Buchmann logo se tornaram ídolos de crianças e adolescentes, mesmo sem aparecer na TV. Entre tantas caras novas, uma se destacou: Felipe Neto, o primeiro vlogueiro brasileiro a conquistar um milhão de assinantes para seu canal no YouTube.

Hoje Felipe tem mais de 34 milhões de seguidores, muito mais do que seus colegas de ofício. Também é sócio de empresas ligadas ao setores de entretenimento e tecnologia. E começa a demonstrar um poder surpreendente para os adultos (entre os quais me incluo) que não acompanharam sua trajetória com o devido interesse: a capacidade de influenciar o debate político.

Não foi agora que Felipe Neto começou a incomodar os poderosos. Em 2017, o vlogueiro atacou o pastor evangélico Silas Malafaia, que convocou um fracassado boicote à Disney por causa de um beijo gay em um desenho animado produzido pela empresa.

A treta entre os dois escalou, e Malafaia entrou com um processo na Justiça. Propôs uma conciliação: Felipe tiraria do ar os vídeos em que denuncia esquemas fraudulentos em que o pastor estaria envolvido e pediria desculpas, e não se falaria mais nisso. Sem se deixar intimidar, o youtuber se recusou.

Essa e outras polêmicas em que Felipe Neto se envolveu costumam se restringir ao mundo virtual. Entretanto, no sábado (7) passado, o rapaz usou seu dinheiro e seu poder de mobilização para realizar uma ação concreta, de enorme repercussão no mundo real.

Em uma reação épica à atabalhoada tentativa de censura do prefeito Marcelo Crivella a uma graphic novel da Marvel à venda na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Felipe comprou 14 mil livros de temática LGBT, embalou-os em plástico preto e distribuiu-os gratuitamente na própria Bienal.

Os volumes esgotaram-se rapidamente. Mais tarde, no mesmo dia e já desembalados, foram empunhados por manifestantes indignados com a insistência do alcaide em devolver o Brasil à Idade das Trevas.

A extrema-direita tentou desqualificar Felipe Neto. Desencavaram um vídeo antigo em que o vlogueiro critica o movimento gay. Não funcionou: ele mesmo esclareceu que mudou de ideia por que – ta-dá! – leu muitos livros e abriu a cabeça.

Inconformados, os reacionários ainda levantaram hashtags no Twitter como #PaisContraFelipeNeto e #FelipeNetoLixo. Tampouco deu certo: os apoiadores de Felipe se apossaram delas, e os tuítes positivos ultrapassaram os negativos.

Enquanto isso, a mídia tradicional se surpreendeu com a firmeza e o alcance de Felipe Neto. O vlogueiro agora também é um autêntico líder político, capaz de dar voz aos anseios de uma geração e de apontar novos caminhos.

Felipe faz parte de uma nova leva de atores políticos, que inclui nomes como a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) e os integrantes do MBL (que também vêm demonstrando amadurecimento em suas últimas declarações).

Mas ele irá se candidatar a algum cargo público? Tomara que não: Felipe Neto atinge muito mais gente –e afronta melhor seus adversários– de seu púlpito na internet. Convém prestar atenção aos seus próximos passos.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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