Tony Goes

Documentário mostra como George Harrison criou sua produtora por querer tanto ver um filme

Trajetória do estúdio do ex-Beatle será exibida neste domingo (12)

Cena do filme "A Vida de Brian"
Cena do filme "A Vida de Brian" - Divulgação

Em 1978, o Monty Python se preparava para rodar “A Vida de Brian”, seu terceiro longa-metragem. Àquela altura, o grupo de comediantes britânicos já estava consagrado: seu programa de TV era um sucesso internacional, e o segundo filme da trupe, “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”, havia tido boas bilheterias.

A trama do novo trabalho se passava em Jerusalém, nos tempos de Jesus Cristo. Cenários suntuosos estavam sendo construídos na Tunísia. Até que um executivo da EMI Films leu o roteiro com atenção e achou o material blasfemo. A produção foi abortada, poucos dias antes do início das filmagens.

George Harrison era fã ardoroso do grupo e amigo pessoal de alguns de seus membros. Inconformado com o cancelamento de “A Vida de Brian” e dono de uma imensa fortuna, ele resolveu ajudar com dinheiro.

O ex-Beatle desembolsou US$ 4 milhões (cerca de R$ 15,8 milhões) para concluir o filme que tanto queria ver. “Foi o ingresso mais caro de todos os tempos”, disse Eric Idle, que fazia parte do Python.

A brincadeira teve uma consequência positiva. Mordido pelo bicho do cinema, Harrison fundou com seu sócio Dennis O’Brien a produtora independente HandMade Films. Ao longo da década seguinte, a dupla seria responsável por alguns dos melhores filmes britânicos jamais feitos.

Esta história é contada através de depoimentos antigos e recentes, além de imagens dos próprios filmes, no documentário “An Accidental Studio” (“Um Estúdio Acidental”), que o canal pago AMC exibe neste domingo (12), às 22h30.

Quase todos os Pythons dão seus testemunhos, além de diretores como Terry Gilliam e estrelas como Helen Mirren ou o falecido Bob Hoskins. Mas o mais interessante é o próprio Harrison, que não hesita em tirar sarro de si mesmo.

Hoje são muitos os títulos produzidos pela HandMade considerados clássicos, como “Caçada na Noite” (1981), “Os Bandidos do Tempo” (1981) e “Meu Reino por Um Leitão” (1984). “An Accidental Studio” traz histórias saborosas dos bastidores dessas produções.

Enquanto se limitou a dois ou três longas por ano, sempre de baixo orçamento, a HandMade colecionou sucessos, boas críticas e até alguns prêmios.

A coisa mudou de figura a partir de 1986, com “Surpresa em Shanghai”: uma comédia de época estrelada por Madonna e Sean Penn, então casados, que custou uma fortuna e não rendeu quase nada nas bilheterias. Hoje o filme costuma aparecer nas listas dos piores de todos os tempos.

Os anos seguintes alternaram êxitos como “Mona Lisa” com diversos fracassos. Em 1994, meio estremecidos, Harrison e O’Brien passaram a HandMade adiante. “An Accidental Studio” termina aí.

O documentário não conta que o ex-Beatle morreu em 2001, em meio a uma briga judicial com o antigo sócio. Já a HandMade Films existe até hoje, mas não produz nada desde 2010.

Este epílogo faz falta a “An Accidental Studio”, mas a mensagem do filme é bastante clara. Foi o que me disse o ex-Monty Python Michael Palin, com quem eu conversei por telefone.

Sagrado Cavaleiro do Império Britânico pela Rainha Elizabeth 2ª, Sir Michael hoje dirige documentários ao redor do mundo. E resume com verve a trajetória da produtora com que trabalhou várias vezes.

“Enquanto a HandMade fez filmes pequenos e originais, guiada pelo gosto pessoal de George Harrison, ela se deu muito bem. Na hora em que os sócios resolveram faturar alto, com astros famosos e superproduções internacionais, o desastre veio a galope”.
 

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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