Tony Goes

Mensagens patrióticas revelam a cabeça antiquada de Silvio Santos

Além de subserviente, campanha ufanista exibida pelo SBT é retrógrada

Frame de vinheta nacionalista do SBT
Frame de vinheta nacionalista do SBT - Reprodução

São Paulo

O SBT surpreendeu seus espectadores na tarde desta terça (6). Durante um intervalo do programa “Fofocalizando”, a emissora exibiu um vídeo de 15 segundos com imagens de diferentes pontos do Brasil, ao som do Hino Nacional. No final, ao invés da assinatura de um anunciante ou de quem quer que estivesse por trás da mensagem, apenas um slogan que se tornou tristemente célebre durante a ditadura militar: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”.

Outros spots de teor semelhante se sucederam ao longo do dia. Um deles tem como trilha “Eu Te Amo, Meu Brasil”, da dupla Don e Ravel, talvez a canção mais ufanista jamais composta por aqui e adotada como hino informal pelo governo Médici (1969-1974).

A internet reagiu na hora. Alguns viram na campanha apócrifa uma tentativa de unir o país, apelando para o patriotismo. Mas a imensa maioria reclamou do resgate de frases e músicas que marcaram a ditadura. E criticou duramente Silvio Santos.

O dono do SBT, de fato, foi quem ordenou a produção e a veiculação dessas mensagens. Não explicitou qual seria o objetivo, mas este ficou claríssimo para quem acompanha a carreira do apresentador e empresário: puxar o saco do presidente eleito Jair Bolsonaro.

O próprio Silvio já declarou inúmeras vezes que será sempre a favor do governo, qualquer governo. O ótimo livro “Topa Tudo por Dinheiro” (ed. Todavia, 256 págs.), do colunista da Folha Mauricio Stycer, enumera várias ocasiões em que SS se esmerou em bajular o mandatário de plantão, e até a recomendar a seu departamento de jornalismo que evitasse críticas e só fizesse elogios aos poderosos (o que, é óbvio, descaracteriza completamente o jornalismo).

Stycer estressa a subserviência de Silvio Santos ao general João Baptista Figueiredo, último presidente do regime militar e responsável pela concessão dos canais de TV que formariam o SBT. O autor também relembra o infame quadro “A Semana do Presidente”, que Silvio exibiu dentro de seu próprio programa entre 1981 e 1996. Segundo o colunista Fernando Fefito Oliveira, do F5, SS estaria cogitando a volta do quadro, também para agradar a Bolsonaro.

Surpreendido pela reação negativa, Silvio já mandou que um dos spots de sua nova campanha saísse do ar: justamente o que traz “Ame-o ou Deixe-o!”. A emissora soltou um comunicado, dizendo que cometeu um “equívoco”.

A frase em questão foi adaptada do slogan americano “America: Love It or Leave It”, usada pelos apoiadores da presidência de Richard Nixon (1969-1974) contra os críticos à Guerra do Vietnã. E ganhou uma conotação apavorante no Brasil, ao ser veiculada numa época em que dissidentes políticos eram presos, torturados, exilados e até mortos pelo governo.

Mas o que mais me chamou a atenção nesse imbróglio todo não foi o notório puxa-saquismo de Silvio Santos. Foi a cabeça do apresentador, estacionada em algum momento do início da década de 1980. SS ainda acha que precisa se desdobrar em salamaleques diante do Poder Executivo para manter a maior joia de sua coroa, a concessão do SBT. Nem mesmo a Record, vista por muitos como privilegiada por Bolsonaro, se curva tão baixo.

Este atraso mental é visível em outras áreas. O SBT, por exemplo, é a única das quatro grandes redes brasileiras que não tem nenhum outro canal, pago ou aberto (já houve conversas sobre a criação de algo semelhante ao Viva, com reprises de programas da emissora, mas a ideia não vingou). Silvio Santos jamais se aventurou para longe de sua zona de conforto.

A presença do SBT na internet também fica atrás da concorrência. Conteúdos da emissora batem recordes de visualização no YouTube, mas ela ainda não conta com uma plataforma de streaming como a Globoplay ou a Play Plus (da Record). E a própria programação não costuma trazer novidades.

É esta mentalidade retrógrada que Silvio exibe no final da segunda década do século 21, quando as maneiras de produzir e consumir TV passam por uma revolução. Mas talvez ele não esteja de todo errado: afinal, o próximo presidente já declarou que pretende fazer o Brasil voltar 50 anos atrás.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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