Tony Goes

Com histórico de omissões, os Grammys lutam por relevância 

Kendrick Lamar, que tem sete indicações no Grammy
Kendrick Lamar, que tem sete indicações no Grammy - Paras Griffin/Getty Images/AFP

Na noite deste domingo (28), acontece em Nova York, nos EUA, mais uma cerimônia de entrega dos Grammys, a mais importante premiação da indústria musical americana. Um detalhe vem chamando a atenção: dos cinco indicados ("Awaken, My Love!", de Childish Gambino, "4:44", de Jay-Z, "DAMN.", Kendrick Lamar, "Melodrama", de Lorde, "24K Magic", de Bruno Mars) ao principal troféu, Álbum do Ano, quatro são de artistas negros.

Seria uma reação à avalanche de críticas do ano passado, depois que "25", da branca Adele, desbancou o favorito "Lemonade", da negra Beyoncé? A própria vencedora se declarou indigna do prêmio, que dedicou à concorrente.

Algo parecido aconteceu com os Oscars. Dois anos atrás, não havia um único ator não-branco entre os 20 indicados nas quatro categorias de atuação. A chiadeira foi tamanha que a Academia de Hollywood, no ano seguinte, não só deu um jeito de incluir negros e outras minorias em muitas categorias, como deu o Oscar de melhor filme a "Moonlight - Sob a Luz do Luar", um drama independente sobre um jovem negro e gay.

Acontece que a folha corrida do Oscar é bem menos polêmica que a dos Grammys. Podemos discordar muitas vezes, e as injustiças são frequentes e gritantes na premiação do cinema. Mas a da música comete tamanhas barbaridades que às vezes parece ser de outro planeta.

Nomes fundamentais para a história do rock e do pop jamais ganharam um Grammy competitivo. É o caso da banda Queen, que teve apenas quatro indicações ao longo de quase 20 anos de carreira —e que finalmente receberá o Lifetime Achievement Award, pelo conjunto da obra, na cerimônia deste domingo.

Björk, Snoop Dogg ou mesmo Katy Perry, apesar de terem sido indicados várias vezes e influenciado outros artistas e/ou vendido muitos discos, tampouco têm Grammys nas prateleiras.

O The Who, tão influente e seminal, só tem prêmios honorários. David Bowie tinha um único prêmio, pelo vídeo de "Blue Jean" em 1994, até receber quatro Grammys póstumos por seu derradeiro álbum, "Blackstar".

A própria Madonna só venceu seu primeiro Grammy em 1998, depois que sua fase áurea de sucesso dos anos 1980 já tinha passado. E o que dizer dos Beatles, que até faturaram uns Grammys na década de 1960, mas nem de longe em quantidade proporcional à importância do grupo para a cultura?

Enquanto isto, artistas irrelevantes sempre foram agraciados, por pressão das gravadoras e pelo próprio gosto conservador dos votantes, a maioria executivos do ramo fonográfico. O caso mais escandaloso foi o da dupla Milli Vanilli, eleita como a Revelação do Ano de 1990. Na verdade, eram dois modelos que não cantavam nada, só apareciam nos clipes e posavam para as fotos. Os discos eram gravados por vocalistas profissionais, sem glamour.

Os Grammys viveram seu auge nos anos 1980, quando pareciam finalmente ter entrado em compasso com o espírito do tempo. Naquela época, foram premiados não só medalhões como Michael Jackson e Lionel Ritchie, mas também a vanguarda inglesa da época, como Culture Club ou Sade.

O melhor: os prêmios revertiam em vendas. Aliás, um prêmio só pode ser considerado importante se afetar a vida do premiado —em geral, se conseguir torná-lo mais rico e famoso.

Este é o desafio do Grammy em 2018. Com a cultura pop fragmentada em nichos e com uma oferta avassaladora de conteúdo pelos mais diferentes canais, um prêmio muda alguma coisa? Ainda significa alguma coisa?

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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