Zapping - Cristina Padiglione
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Ali Kamel homenageia José Hamilton Ribeiro em sua despedida da Globo

'Contribuição inestimável ao jornalismo brasileiro', diz diretor da emissora

O jornalista José Hamilton Ribeiro (jornalista) no lançamento do livro "Cásper Líbero, jornalista que fez escola", na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, em dezembro de 2019 - Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress
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Diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel costuma se despedir de grandes talentos da emissora com mensagens generosas, a fim de agradecer aos serviços prestados por esses profissionais à emissora. Agora, diante da saída de José Hamilton Ribeiro, 86, da Globo, após 41 anos, o texto de despedida enviado pelo diretor a todos os jornalistas da casa ocorre assumidamente em tom de homenagem, a começar pelo título.

O encerramento do contrato de "Zé Hamilton", como é conhecido, foi acordado entre as duas partes e estava previsto para ocorrer no ano passado, mas foi adiado em função da pandemia. Premiado jornalista que cobriu a guerra do Vietnã, ele se dedicou sobretudo ao Globo Rural nessas mais de quatro décadas de Globo, tendo atuado também no Globo Repórter ocasionalmente.

A carta de Kamel enumera alguns dos grande feitos de José Hamilton não apenas à emissora, mas ao jornalismo, de modo geral, como uma "contribuição inestimável" à profissão.

Kamel conta ainda que José Hamilton foi convencido a ser homenageado pelo programa em uma despedida que irá ao ar no início de 2022.

"Lucas [Bataglin, editor do Globo Rural] e nossos colegas do Globo Rural tiveram uma ideia muito bonita, que Zé Hamilton, sempre acanhado, acabou aceitando", diz o chefe. "Por alguns momentos vai deixar de ser o repórter para ser o entrevistado numa reportagem-homenagem que vai ao ar em fevereiro. Imperdível."

Confira abaixo a íntegra da mensagem de Ali Kamel enviada aos jornalistas da Globo:

"José Hamilton Ribeiro, nosso decano. Uma homenagem

Quando entrou na Globo, há mais de 40 anos, José Hamilton Ribeiro ou Zé Hamilton ou simplesmente Zé, já tinha uma carreira brilhante na imprensa escrita. Naquela época, um preconceito imperava: será que vai dar certo, será que um ícone de revista e jornal vai ter êxito na televisão? E José Hamilton ajudou a quebrar essa ideia, essa bobagem. Jornalista, mesmo, se adapta a qualquer linguagem, a todo tipo de narrativa. E Zé é jornalista, sempre foi. Chegou a se formar em Direito por desejo da mãe, mas nunca exerceu a profissão. Trabalhou no jornal 'A Tarde', na 'Folha de S.Paulo', 'Jornal da Tarde', revistas 'Quatro Rodas', 'Veja', e 'Realidade', esta, um marco no jornalismo brasileiro. E foi numa reportagem de 'Realidade' que aconteceu uma tragédia. Zé foi enviado para cobrir a guerra do Vietnã. No último dia de trabalho, acompanhando um grupo de soldados, pisou numa mina e perdeu uma perna. A reportagem virou capa da revista, com a foto do Zé ferido logo após o acidente. Isso poderia desanimar muita gente, mas não o Zé, que assumiu o caso com humor. Nas suas inúmeras palestras pelo Brasil, sempre lhe perguntavam se não era difícil ser repórter com uma perna só. E a reposta, madura e irônica, era que sim, mas era mais fácil do que ser repórter com quatro...

Essa era a bagagem que o Zé trazia pra TV e pra Globo. Num curto período no Globo Repórter, já encarou o desafio de mostrar o inferno de Serra Pelada no auge da mineração. Em seguida, vestiu o Globo Rural como uma luva, como me diz sempre Lucas Battaglin, editor do programa (Lucas me ajudou muito nessa homenagem que presto ao Zé, pelo seu conhecimento próximo, por seu carinho e por sua admiração). O pai de Zé foi pequeno produtor rural em Santa Rosa do Viterbo, município paulista onde nasceu. Não foi advogado pela vontade da mãe, mas se ligou em definitivo às histórias do campo pela índole do pai. Fez reportagens memoráveis como a dos ninhais do Pantanal ou a reconstituição de uma caçada de onça – bom frisar que a onça desse documentário saiu vivinha pra liberdade. Mostrou para o povo do campo e da cidade como vivem muitos bichos que são símbolo da nossa fauna como o tuiuiú, o raro tatu-canastra, os tamanduás brasileiros. Revelou a beleza da música sertaneja de raiz, a chamada música caipira, com campeões de venda de disco como Tinoco, da dupla Tonico e Tinoco, as irmãs Galvão, Mário Zan e recentemente, Almir Sater, o autor da trilha original do Globo Rural.

Um jornalista como Zé Hamilton só podia ganhar muitos, mas muitos prêmios na carreira. Arnon Gomes, autor de uma biografia sobre ele, deu um nome ao livro: "O jornalista mais premiado do Brasil". Pode ser ou não verdade. Mas expressa uma carreira brilhante. No Globo Rural, a imagem do Zé se consagrou em cada canto do país. Ele conta que as pessoas vêm lhe dar parabéns até por reportagens que não são suas. E a reportagem foi a função que ele mais abraçou em mais de 60 anos de jornalismo. Exerceu a vocação apregoada por um patrono do jornalismo brasileiro, João do Rio: a notícia está na rua. E uma qualidade de José Hamilton é saber conversar. Com gente pobre ou gente rica, com velho ou criança, com homens e mulheres, com pessoas. Pra contar sua infinidade de histórias, usou tudo quanto é meio de transporte: carro, avião, barco, caminhão, carroça, lombo de cavalo ou de burro, a pé.

Dentro da redação, José Hamilton é insistente, Lucas me conta. Sempre quer fazer o melhor. Numa de suas reportagens mais recentes para o Globo Rural, propôs – como sempre – uma pauta que só ele enxergava: a profusão de pássaros em uma mata do Instituto Butantã, o mesmo das vacinas contra a Covid ou dos soros contra picada de cobra. Tudo dentro de São Paulo, a maior metrópole do país. Foram dias e dias de trabalho. Quando perguntavam "e aí, Zé, acabou?", ele dizia que precisava de mais um dia, que se prolongava semana afora. Ele dizia que "ainda faltava gravar um passarinho". Ou dois... Tudo isso deixa o Lucas encantado e eu, que ouço essas histórias e as conto aqui, ainda mais.

Há alguns anos, as conversas com Zé Hamilton sobre parar vinham acontecendo. E nesse fim de novembro chegaram a termo. Lucas e nossos colegas do Globo Rural, porém, tiveram uma ideia muito bonita, que Zé Hamilton, sempre acanhado, acabou aceitando. Por alguns momentos vai deixar de ser o repórter para ser o entrevistado numa reportagem-homenagem que vai ao ar em fevereiro. Imperdível.

Em meu nome, em nome da Globo, em nome de seus colegas aqui e, digo sem medo, em nome dos jornalistas brasileiros, eu agradeço a Zé Hamilton por seus anos de trabalho. Uma contribuição inestimável ao jornalismo brasileiro.

Obrigado,

Ali"

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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