Colo de Mãe
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Cansada de quem nega a pandemia; só minhas filhas me movem

Status materno: cansada

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Agora

Eu estou cansada. Cansada, cansada e cansada. O ano de 2021 mal começou, eu tirei férias no mês de janeiro, quando ainda vivíamos momentos em que dava para respirar em meio à pandemia, mas já estou cansada.

Eu tenho “três filhos”, e eles dão trabalho. Laura, 8 anos, Luiza, 14, e o jornalismo, 20, desacreditado por um grupo, mas que é capaz de mudar o mundo e é o que tem salvado vidas. Dão trabalho, mas fazem a diferença.

Eu tenho duas filhas, o jornalismo e duas enteadas lindas, simpáticas e inteligentes. Não são elas —nem o jornalismo— que estão me cansando. Eu estou cansada da situação em que vivemos. “Você e o resto do Brasil”, costumava ouvir de minha irmã no passado. Hoje, sei que eu e o resto do mundo estamos exaustos.

Eu estou cansada de negacionistas, cansada de violência, cansada de mais de 2.000 mortes por dia. Estou cansada da falta de leitos, de decência, de consciência e de humanização na área da saúde. Estou cansada de tratamentos que não funcionam, de gente que usa máscara no queixo, de quem aglomera e de quem viaja.

Estou cansada de quem, nas redes sociais, faz papel de isolado ou isolada, mas na vida real, aglomera com a família, no churrasco com piscina, na festa de aniversário, no almoço com o vô e a vó sem que se use máscara. Estou cansada de quem vai a lugares paradisíacos, espalhando o coronavírus por aí, rindo na nossa cara sem o mínimo de pudor.

Estou cansada de quem cansou do isolamento e, por isso, sai, vai para a balada, marca encontro, lotava bares e restaurantes, faz tatuagem e “mete o louco”, como gostam de dizer por aí.

Estou extremamente cansada de gente que critica jornalista e o jornalismo, que acha que fazer “detox” de notícia, deixando de ler ou ver TV, alienando-se vai fazer com que as pessoas parem de morrer de coronavírus.

Estou cansada de mulheres que escolheram ser donas de casa, já estavam exaustas antes da pandemia e, hoje, querem ver as mulheres que tinham escolhido o mercado de trabalho serem sugadas pela crise. Cansei dessa rixa.

Estou cansada de gente que não valoriza o estudo nem a leitura. Cansei de gente que diz que diploma não serve, mas não é legal com o porteiro, só é mal-educada mesmo, sem empatia social e sem formação institucional que permita enxergar além.

Estou cansada de quem não entende o que é ser mãe, o quanto a pandemia está nos matando, seja por excesso de trabalho, por machismo estrutural, por aula online, por falta de perspectiva no mercado de trabalho ou por desemprego. Cansei da violência física e emocional que muitas sofrem.

Cansei de quem aliena assistindo BBB, de quem debate a vida dos outros, de quem não se indigna com a política, de quem apertou o número errado na urna ou passou a mão na cabeça de parente mal-intencionado ou de amigo “isentão” e nos trouxe até este fundo de poço escuro.

Mas, embora eu esteja exausta, nunca estou cansada demais de ser mãe. Minhas filhas são meu bálsamo e minha alegria. São meus motivos e minhas motivações. São as razões pelas quais sonho, as bússolas que me orientam a querer buscar o melhor.

Minhas meninas são minha melhor versão e, ao mesmo tempo, os seres humanos mais autênticos que eu poderia colocar no mundo. São a escolha mais acertada que fiz e as parceiras mais bacanas que eu podia ter nessa jornada pandêmica da história mundial.

Colo de Mãe

Cristiane Gercina, 41, é mãe de Luiza, 13, e Laura, 8. É apaixonada pelas filhas e por literatura. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é coordenadora-assistente de Grana do jornal Agora, empresa do Grupo Folha. Quer ver o desenho do seu filho publicado na coluna? Envie-o para o e-mail colodemae@grupofolha.com.br com nome completo e idade da criança, nome e celular do responsável.

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