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Cena da primeira temporada da série "The Girl Before" Divulgação

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Roslyn Sulcas
Bristol
The New York Times

Na tomada de abertura de "The Girl Before", minissérie da HBO Max que recebe o nome "Quem era Ela" em português, a câmera se aproxima, pelo alto, da fachada reluzente de uma casa revestida de madeira e penetra em seu interior elegantemente minimalista. Janelas altas deixam entrar a luz externa; uma mesa de pedra e cadeiras de madeira se destacam como esculturas no centro de um ambiente enquadrado por paredes lisas de concreto e vidro.

"Eu realmente queria que o espaço parecesse calmo e seguro como um santuário e, em dados momentos, quase como uma prisão", disse Jon Henson, o designer de produção da série, conduzindo os visitantes em uma turnê pela casa futurista que serve como locação da série em quatro episódios, que estreou no início de fevereiro, uma adaptação do romance homônimo de JP Delaney, publicado em 2017.

Henson, que disse que foi influenciado pelo estúdio de arquitetura japonês Gosize e pelo arquiteto belga Vincent Van Duysen, abriu uma das gavetas da cozinha. "Nós encomendamos gavetas customizadas nas quais cada faca e cada implemento tem um compartimento próprio", ele disse.

A trama de "The Girl Before" tem por centro uma casa no afluente subúrbio londrino de Hampstead, projetada pelo rigoroso arquiteto Edward Monkford. Interpretado por David Oyelowo com charme controlado e liso, Edward aluga a baixo preço a casa na rua Folgate, número 1, a um grupo seleto de inquilinos que concordem em respeitar suas muitas, muitas regras ("mais de 200", explica um corretor de imóveis em uma das cenas).

Entre elas: nada de animais, nada de crianças, nada de bagunça, nada de objetos pessoais. E os ocupantes também precisam se submeter a interrogatórios aleatórios feitos pelo sistema operacional da casa, conhecido como Housekeeper, que monitora seu comportamento cotidiano como o Big Brother de George Orwell.

"A verdadeira estrela da série é a casa", disse Gugu Mbatha-Raw, que interpreta Jane, uma executiva de relações públicas que busca refúgio naquele ambiente monástico depois de perder um filho, natimorto. "Ela quer um santuário para apagar aquela recordação", disse Mbatha-Raw em uma entrevista por vídeo. "É um lugar de purificação para que ela recalibre seu senso de eu".

Mas Jane, que inicia um relacionamento com Edward, não demora a perceber que a inquilina anterior, Emma (Jessica Plummer), não só se parecia com ela, mas também esteve envolvida com Edward e morreu na casa, em circunstâncias ambíguas. Quando Jane tenta descobrir o que aconteceu com Emma, cujo ex-namorado, Simon (Ben Hardy), continua de luto por sua morte, a casa se torna uma incubadora de medo e de perigo.

Quando Delaney (pseudônimo de Tony Strong, o autor do livro) estava escrevendo o romance, o interesse dele era tomar a tradição da literatura gótica inglesa e suas velhas mansões apavorantes e "transformá-la em algo austero e moderno em que os fantasmas residem na cabeça das pessoas", ele disse em uma entrevista por vídeo.

"A maioria das casas construídas por encomenda são uma colaboração entre o arquiteto e o cliente, mas, no caso do minimalismo, o cliente aceita a visão do arquiteto", acrescentou Delaney. "É uma forma psicológica de arquitetura já desde o primeiro passo".

Oyelowo disse que tinha se deixado atrair imediatamente pelo papel de Edward quando Mbatha-Raw, uma das produtoras associadas da série, lhe enviou um email a respeito. "Eu não sabia bem como interpretá-lo", ele disse em uma entrevista por vídeo. "Como encontrar o ponto de equilíbrio para retratar um cara tanto atraente quanto repelente?"

Emma e Jane, ele disse, veem Edward como "um refúgio, um salvador, por conta de terem perdido o controle sobre suas vidas e de ele oferecer uma fortaleza na qual elas podem se esconder das coisas ruins do mundo. Mas será que a maneira pela qual ele toma o controle, o que é algo que elas desejam que aconteça, tem algo de maligno?"

A história é narrada em duas linhas do tempo sobrepostas e por isso vemos cenas alternadas de Emma e de Jane visitando a casa, se candidatando a morar lá por meio de um questionário longo e invasivo e por fim se envolvendo com Edward.

"A coisa mais difícil era traduzir a estrutura narrativa do livro, que salta para frente e para trás no tempo", disse Delaney. "Eu queria evitar que uma das linhas do tempo fosse um flashback da outra e por isso a duração e ênfase de cada uma é igual. Isso cria uma espécie de dança entre as histórias".

Vemos Edward fazendo o mesmo discurso diante de Emma e de Jane, o que inclui frases como "pessoas e edificações não são assim tão diferentes", e "como seria ter um relacionamento completamente livre de convenções para você?" As duas mulheres por fim descobrem que são muito parecidas com a mulher morta de Edward.

Edward sofre de uma compulsão à repetição, disse Oyelowo, um termo freudiano para a necessidade de reencenar um trauma do passado a fim de encontrar um novo desfecho. "Ele não está apenas tendo um relacionamento com essas mulheres; está tentando transpor sua mulher para elas e se curar para poder retomar a vida do ponto em que ela parou", diz o ator.

A casa é a personificação de Edward, e Simon se sente instintivamente ameaçado quando vai morar com Emma, disse Hardy. "A casa é controladora, com sua tecnologia que liga e desliga as luzes quando ela acha que é hora de você ir dormir", disse o ator. E Simon, acrescenta Hardy, começa a sentir que está perdendo o controle.

Controle é um tema importante para os três personagens principais que tentam cada qual controlar os choques emocionais causados por seus problemas passados. Jane lamenta o bebê que perdeu e Emma, traumatizada por um assalto e agressão sexual, "deseja desesperadamente controlar tudo, o que causa uma espiral de descontrole", disse Plummer. "Para ela, a casa é uma fortaleza que será capaz de protegê-la".

Oyelowo disse que para se preparar para o papel conversou com seu amigo, o arquiteto David Adjaye, britânico de origem ganesa, "em parte porque ele é negro, em parte por que ele é um astro da arquitetura".

"Imaginei se arquitetos acham que são deuses", disse Oyelowo. "A ideias deles estão lá em forma tangível, expressas indelevelmente em edificações; o que será que isso causa psicologicamente?" Ele acrescentou que, embora "The Girl Before" ostensivamente não trate de questões de raça, desejava fazer tudo que pudesse para conseguir que seu personagem parecesse tridimensional.

"Para ser honesto, não conheço muitos arquitetos negros a não ser David", ele disse. "Queria deixar claro que Edward é um unicórnio que, para ele, fracassar tem um preço mais alto do que para outros". É uma posição que Oyelowo reconhece. "Sinto o mesmo como ator; sei que a concorrência é desigual".

Lisa Brühlmann, diretora e produtora executiva da série, disse que a produção inicialmente procurou Mbatha-Raw para convidá-la para o papel de Jane ou para o papel de Emma. (A atriz declarou que, porque naturalmente se sente "mais parecida com Emma", preferiu interpretar Jane já que assim o desafio seria maior.)

"O autor não especifica raças e quando Gugu aceitou o convite e sugeriu procurarmos David, a ideia pareceu empolgante", disse Brühlmann. "E aí precisávamos de outra atriz parecida com Gugu, mas com uma energia diferente, o que foi complicado até descobrirmos Jessica".

As duas personagens femininas, disse Brühlmann, querem ser recriadas por seu novo ambiente. "Considerei essa premissa interessante demais", ela acrescentou. "Será que aquilo que nos cerca pode nos mudar?"

Essa questão teve uma ressonância curiosa na vida real, disse Mbatha-Raw, enquanto eles realizavam reuniões e ensaios para a série via Zoom durante o lockdown rigoroso do começo de 2021. "Os paralelos não me escaparam", ela disse. "Havia um thriller psicológico sombrio acontecendo tanto no mundo real quanto em nossa história".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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