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Cena da série "And Just Like That" Divulgacao

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Alexis Soloski
The New York Times

Quando vimos pela última vez as damas de "Sex and the City", série de TV e cinema inovadora e inspiradora da HBO, Miranda tinha começado a trabalhar em um novo escritório de advocacia, Samantha conseguiu um orgasmo no capô de um utilitário esportivo Mercedes Classe G, Charlotte estava recebendo convidados para uma festa de aniversário infantil e Carrie e Big estavam acomodados no sofá diante da TV assistindo a um filme em branco e preto: todos felizes para sempre.

Foi dessa maneira pacífica que terminou "Sex and the City 2" (2010), um filme forçado que despacha suas protagonistas em uma viagem ao Oriente Médio e ofereceu aos críticos uma oportunidade sem paralelos de expressar desdém. (Um exemplo é a resenha relativamente amena publicada por A.O. Scott no The New York Times: "O relógio talvez informe que menos de 150 minutos se passaram, mas o choque é o quanto você se sente mais velho quando a coisa toda acaba".) Como uma bolsa "baguette" Fendi, a série parece ter simplesmente saído de moda.

Mas a década de 1990 está muito na moda agora, e as mulheres de "Sex and the City" (bem, a maioria delas, pelo menos) voltaram para mais um desfile na passarela da TV a cabo. "And Just Like That", uma série limitada de dez episódios, estreou na HBO Max no último dia 9. Mas não é uma versão "reboot"! (Afinal, as personagens raramente usavam botas.)

Como a original, a nova série acompanha a escritora Carrie (Sarah Jessica Parker), a advogada Miranda (Cynthia Nixon) e a ex-galerista e atual dona de casa Charlotte (Kristin Davis). Mas em lugar da libertina Samantha (Kim Cattrall), há quatro atrizes novas: Sarita Choudhury, Nicole Ari Parker, Karen Pittman e Sara Ramírez. A presença delas remedia a brancura quase ofuscante do original, embora, se os materiais promocionais servem como indicação, o glamour aperitivo e o privilégio despreocupado pareçam continuar os mesmos.

Por isso, lá vai uma pergunta para Carrie: será que uma série pode se adaptar a personagens mudados em uma era mudada e ao mesmo tempo oferecer aquilo que os fãs amavam no original?

Em uma pausa de gravações no Steiner Studios, em Brooklyn, Michael Patrick King, produtor executivo de "Sex and the City" e showrunner de "And Just Like That", tinha uma resposta entusiástica: "É perigoso! E empolgante. É um desafio", ele disse, inclinado sobre um sofá em seu escritório. "Não é só um caça-níqueis nem uma tentativa de extrair ainda mais lucro". Além disso, de que outro modo seria possível aprovar uma série estrelada por mulheres de meia-idade?

"Não acho que qualquer pessoa aceitaria um projeto estrelado por mulheres de 55 anos de idade sem prova de que as pessoas vão querer assistir", ele disse. O que significa que as damas podem ter caminhos novos a percorrer se é que conseguirão fazê-lo usando saltos altos.

O "Sex and the City" original sempre foi dois programas: um era uma comédia filosófica inquieta sobre mulheres solteiras e bem-sucedidas que não precisavam de homens para completar suas vidas. Ou talvez sim? E o quer dizer "completar", de qualquer modo? O outro era o programa na maneira pela qual os fãs o recebiam –uma comédia romântica de produção refinada e um desfile de moda permanente.

Ou você acha que são as crises existenciais das personagens que fazem com as locações da série tenham virado pontos turísticos?

O segundo programa chegou à sua conclusão há muito tempo. Porque, em uma comédia romântica, quando a garota conquista o rapaz –ou, no caso de Samantha, os muitos rapazes—, para onde a história pode ir, na verdade? Esse obstáculo estrutural explica a derrapagem do segundo filme. (Uma derrapagem que envolveu camelos, algo que King agora lamenta em alguma medida.) Assim, a série parecia destinada a persistir apenas em forma de reprises, nostalgia e contas de Instagram dedicadas às roupas das personagens.

Mas no começo do lockdown que a pandemia gerou em Nova York, King e Parker começaram a conversar sobre a possibilidade de produzir um podcast contando histórias sobre os bastidores da série. Em dado momento, essas conversas ganharam um tom mais criativo e se transformaram em especulações sobre como seriam as vidas dos personagens agora.

Como disse Parker, falando por telefone do set de outra continuação, "Abracadabra 2", eles começaram a se perguntar "por que não estamos pensando sobre aqueles assunto de que tratamos tantas vezes, ou seja, ainda existem histórias novas a contar?"

Depois de vermos resolvidas as dúvidas das personagens sobre casamento, parceria e filhos durante a série original –King sustenta que essas não eram questões relevantes na série, mas praticamente toda a trama girava em torno delas—, a nova série pretende observar outros aspectos, e a vida interior dos personagens, como a original fazia em suas primeiras temporadas.

Parker mencionou algumas das interrogações atuais: "Quem sou eu? O que a mudança vai fazer comigo? Sou capaz de mudar? Como é que eu reagiria a uma grande mudança?"

A série passou por mudanças, grandes e pequenas –algumas temáticas, algumas estéticas e muitas estruturais. King recorda que, no original, ele sentia a necessidade de amarrar cada episódio com um laço de fita como uma concessão a audiências que talvez não viessem a assisti-los na sequência pretendida. "E agora, com o streaming, acabaram os laços de fita", ele disse. "Vamos desamarrar".

Isso não significa que "And Just Like That" abarque muita desordem. Durante minha visita ao Steiner Studios, onde minha sensação era a de estar extremamente mal vestida, King me mostrou diversos dos sets, todos imaculados. A casa de Miranda em Brooklyn e o palácio de Charlotte na Park Avenue foram retocados e ganharam ainda mais luxo. O velho apartamento de Carrie agora tem paredes lilás e é acentuado com papel de parede. E eu closet? Sublime.

O que quer dizer que Carrie continua a ter dois apartamentos, mas "And Just Like That" já não se centra em suas experiências. A nova série dispensa quase completamente a narração em off feita por ela e abre espaço para diálogos entre as quatro novas personagens: a corretora de imóveis interpretada por Choudhury, a documentarista interpretada por Ari Parker, a professora universitária interpretada por Pittman e a apresentadora de podcasts interpretada por Ramirez.

Por que a série não tinha muitos personagens não brancos no passado? "Era uma série cuja base era material muito fiel à sua época", disse Parker diplomaticamente, se referindo às colunas de Candace Bushnell para o jornal New York Observer.

Embora Nixon tenha decidido continuar a fazer parte da franquia, ela disse que a falta de diversidade racial na versão original a "horrorizava". Como Parker e Davis, ela disse ter insistido em que as personagens introduzidas na nova versão não servissem apenas como acessório de moda para o elenco original.

"A fim de atrair grandes atores para esses papéis, seus personagens não poderiam ser apenas coadjuvantes", disse Nixon. E isso também significou garantir que a equipe de roteiristas contasse com mulheres não brancas e que as histórias acompanhassem o que acontece às novas personagens mesmo nos momentos em que Carrie, Miranda e Charlotte não estão na tela.

"Cada episódio tem por volta de 43 minutos a esta altura", disse King. "Porque temos sete personagens completos em cada um deles".

No dia em que visitei o estúdio, assisti a uma das cenas de Ari Parker. Extremamente bem vestida, ela estava fazendo uma cena de briga com seu marido na série, interpretado por Christopher Jackson. Poucos dias depois, no telefone, perguntei se ela tinha assistido à série original –ela respondeu que sim– e se a completa brancura do elenco a tinha incomodado.

"Um pouquinho", ela disse. "Mas eu não esperava que ‘Sex and the City’ fosse realista". Estávamos conversando enquanto ela procurava sapatos na Nordstrom, o que parecia bem adequado para a uma personagem da série.

"De vez em quando eu ficava um pouco triste por eles", ela disse. "Se eles tivessem uma namorada negra, não teriam aquele tipo de problema". Mas ela aprecia a complexidade da personagem criada para ela e o fato de que não é a única personagem não branca. "Eles entendem que não basta a presença de um amigo negro no elenco", ela disse.

No entanto, a nova série não deve ser vista como repúdio ao original ou mesmo como um esforço para corrigir tudo aquilo que "Sex and the City" desconsiderou –bem, pelo menos algumas das coisas que a série desconsiderou. Parker sabe que nem todo mundo gostava das personagens originais, especialmente de Carrie. Mas a nova série não busca corrigi-las.

"Não tentamos mostrar deliberadamente que elas amadureceram, que elas se tornaram pessoas melhores ou mais inteligentes. Ou que elas lamentam as coisas de que alguns espectadores não gostavam", ela disse. "Não acho que essa teria sido a melhor abordagem".

E apesar das ocasionais saias de bailarina, "And Just Like That" tampouco foi concebida como um serviço aos fãs. A série não finge que as vidas das mulheres não avançaram nos anos transcorridos desde o original. Quando as primeiras fotos de estúdio e um trailer emergiram, a mídia social teve um breve momento de interesse intenso pelas roupas das mulheres e pelas intervenções cosméticas que elas podem ou não ter recebido.

"And Just Like That" tem diversas cenas em que essas questões são discutidas diretamente, King imitou uma cena em que a Miranda de Nixon discute com seu pescoço. A série quer contar histórias tão ricas e complicadas, se bem que não tão sensuais, sobre as mulheres de 50 e poucos anos quanto as que contava sobre as protagonistas originais quando elas tinham 30. (Mesma cidade. Menos sexo.) O que significa que a série está buscando um pouquinho mais de nuança do que "As Super Gatas".

"Sou uma mulher de 50 e poucos anos e por isso estou bem ciente de que a vida não acaba quando você encontra um homem ou uma mulher, quando você tem filhos ou não, certo?", disse Davis. "Somos testemunhas do fato de que não acaba e não se torna entediante. Por isso, nunca tive dúvidas de que haveria histórias interessantes para contar".

Mas quais seriam essas histórias é um assunto sobre o qual nenhum dos envolvidos fala. Fãs ávidos analisaram o trailer de 30 segundos com o rigor usualmente reservado à exegese de hieróglifos antigos. E eis o que descobri: Big (Chris Noth) não está morto. Samantha não está morta, ainda que a ausência de Catrall signifique que ela não aparece na tela. "Ninguém morreu", disse King. Ninguém? "Ninguém".

Mas Willie Garson, que interpretava Stanford Blatch, o melhor amigo gay de Carrie, morreu durante a filmagem de "And Just Like That", um triste lembrete da passagem do tempo e da dor que isso pode trazer. A morte dele não foi incluída na série. "Porque não foi algo charmoso", disse King. "E eu sabia que a audiência perceberia".

O que "And Just Like That" deseja é encantar. Não se trata da primeira comédia sobre mulheres de meia-idade. Depois que "Sex and the City" acabou, a televisão ofereceu "Cougartown", "Hot in Cleveland", "Younger". Setembro trouxe "On the Verge", de Julie Delpy. Mas apesar de algumas peças finas de joalheria, nenhuma dessas séries jamais teve o glamour de "Sex and the City", e nenhuma foi tão revolucionária –na franqueza com que o sexo era discutido, na insistência quanto à subjetividade feminina, na defesa das mulheres solteiras– embora quase todo o elenco terminasse casado.

Será que "And Just Like That" exercerá a mesma influência sobre a cultura e moda, mesmo em um mundo obcecado pela juventude e superlotado de conteúdo? King, previsível, mas também razoavelmente, argumenta que pode ser que sim. "Se a série original tratava das aspirações dos espectadores –aspirações quanto a roupas, apartamentos, pessoas—, a nova continua a fazê-lo", ele disse.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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