Candace Bushnell, em Nova York

Candace Bushnell, em Nova York Celeste Sloman/NYT

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Alexis Soloski
Nova York
The New York Times

Preciso primeiro contar que, depois de um dia inteiro de ensaios com saltos de 12 centímetros e uma sessão de fotografias na qual ela posou de várias formas sobre um sofá angular, Candace Bushnell, 62, a mulher que transformou o cosmopolitan no drinque mais famoso de Nova York antes do ano 2000, se acomodou em uma cadeira na galeria do Hotel Carlyle e pediu um nada glamoroso chá Earl Grey. Com fatias de limão para acalmar sua garganta dolorida.

Bushnell começou a fazer sucesso na metade da década de 1990 como colunista de sexo e relacionamentos do jornal New York Observer, e centrava suas colunas em uma personagem chamada Carrie Bradshaw, uma substituta chique para a autora.

Ela reuniu as colunas em um livro aguçado, "Sex and the City" (1996), um trabalho de autoficção antes que essa forma literária se tornasse moda. A HBO adaptou o livro como série, dois anos mais tarde. A série durou seis temporadas e foi seguida por dois filmes, e por fragrâncias licenciadas, excursões turísticas pelos cenários nova-iorquinos da história e até por uma linha de confeitos.

A vida de Bushnell é diferente da vida de Carrie. Ela dedicou seus talentos à ficção. O casamento dela com o bailarino Charles Askegard, a quem ela apelidou de Mr. Bigger, terminou em divórcio. Depois de trocar Manhattan pelos Hamptons e de desistir de namorar, ela escreveu um novo livro, "Is There Still Sex in the City?"

Não consegui resistir à curiosidade: O seu espetáculo solo, portanto, é uma adaptação do novo romance para o teatro? Sim, foi exatamente isso que ela fez. Em "Is There Still Sex in the City?", que iniciou uma temporada prévia no Daryl Roth Theater no dia 13 de novembro, Bushnell estreia no palco, falando sobre sua vida –como um gráfico elegante de altos e baixos, traçado em batom cor-de-rosa–, de sua infância em Connecticut ao auge de seu período festivo, passando por casamento, divórcio e mais. Estamos falando de ficção, autoficção, autobiografia?

"Não estou tentando interpretar uma personagem", ela me disse, "mas tenho a sensação de que sou uma personagem. Mais ou menos naturalmente".

Bushnell chegou ao Carlyle, que fica a alguns quarteirões de seu apartamento no Upper East Side, usando um vestido cinzento discreto e um par novinho de sapatos absolutamente insensatos –Manolo Blahniks de cetim vermelho, ostentando fivelas decoradas com pedras brilhantes— mas com os quais ela caminhava com facilidade impossível. (Uma linha de texto que ouvi durante um ensaio do espetáculo, mais cedo naquele dia, dizia: "Se eu sou obcecada por sapatos como Carrie Bradshaw? Não. Carrie Bradshaw é obcecada por sapatos por minha causa".) Em pessoa, ela tem olhos bem separados e a postura rigorosa de uma estatueta Meissen, e sua conversa é tão reluzente quanto a prataria do Carlyle.

Quando criança, em Glastonbury, Connecticut, Bushnell trabalhou em algumas peças de teatro, ainda que passasse a maior parte de seu tempo escrevendo histórias e andando a cavalo. Quando se mudou para Nova York, aos 19 anos –"selvagem e cheia de filosofias", ela disse—, Bushnell flertou com a ideia de atuar (é esse o verbo provocativo que ela usa), e estudou no HB Studio. "Não acho que eu fosse muito boa naquilo, o que é algo que eu provavelmente não deveria dizer", ela disse.

Além disso, ela nunca amou atuar da mesma maneira que amava escrever. "Meu sentimento era o de que eu precisava ser escritora, ou morreria", ela disse. E por isso Bushnell se concentrou em escrever, e negociou os direitos de adaptação teatral de cada um de seus livros. Mas alguns anos atrás, ao decidir sobre os direitos de adaptação de "Is There Still Sex in the City?", ela decidiu que os reteria.

Mas não estava certa sobre o que fazer com eles. No entanto, foi apresentada a um empresário de artistas, Marc Johnson, no Carlyle, que Bushnell parece tratar como uma extensão de sua sala de visitas. Ele tinha ajudado na criação de um espetáculo solo para um cliente, o compositor e astro acidental de reality show David Foster. E achava que poderia fazer o mesmo por Bushnell.

E, com isso, ela voltou a escrever, dessa vez em forma de monólogo, reaproveitando histórias de seus livros, de sua vida e de suas palestras. O primeiro rascunho tinha cerca de 200 páginas. Para organizar o texto, Johnston e sua colega de produção, Robyn Goodman, apresentaram Bushnell à coreógrafa e diretora Lorin Latarro.

Em junho, o espetáculo foi testado no Bucks County Playhouse, em New Hope, Pensilvânia. O cenário é uma quase réplica da sala de estar de Bushnell, com seu sofá de verdade, seu tapete de verdade e seus poodles de verdade. O espetáculo corre como uma noite de conversa entre amigas.

Mas embora Bushnell seja uma anfitriã experimentada, as primeiras apresentações foram enervantes. "Eu passava o tempo todo preocupada com se estava mesmo atuando", disse Bushnell. O texto foi gradualmente encurtado, e Bushnell conseguiu relaxar e melhorar. "Ela é verdadeiramente milagrosa", disse Goodman em uma entrevista por telefone. "Estava determinada a entender como os atores trabalham, e conseguiu".

Compreender envolveu contratar um professor de atuação e um professor de voz, e fazer três sessões semanais de pilates para ganhar força para o espetáculo. O que significa que Bushnell encara o trabalho de ensaiar e de se apresentar no palco com seriedade –isso explica o Earl Grey vespertino—, e compara o processo aos exercícios de equitação que fazia quando menina, repetindo os mesmos pequenos movimentos inúmeras vezes até aprendê-los perfeitamente.

"Minha personalidade tem um lado que me leva a dedicar horas e horas a alguma coisa para tentar fazê-la cada vez melhor", ela disse.

A HBO está ocupada criando uma nova série protagonizada por Carrie Bradshaw, "And Just Like That...", que acompanha a maioria do elenco original de "Sex and the City" em sua jornada pela casa dos 50 anos, mas Bushnell não está envolvida. Em diversos momentos do espetáculo, ela enfatiza as diferenças entre Bushnell e Carrie, mas essas diferenças se referem a homens e moda, não a ideologia ou temperamento. Carrie é avoada; Bushnell tem os pés firmemente plantados no chão, mesmo que esteja usando saltos altíssimos. Embora a história de Carrie tenha por fim se transformado em um romance, Bushnell é extremamente ambivalente sobre relacionamentos românticos.

Seu feminismo, que nunca é expressado com firmeza nos livros, emerge de forma coerente e franca na conversa. Ela fala convincentemente sobre os efeitos deformantes do poder patriarcal e sobre a necessidade de, em suas palavras, "uma igualdade de cérebro, corpo e poder aquisitivo" –o que representa uma surpresa agradável vinda de uma mulher que no passado subia na mesa do Da Silvano para dançar.

Bushnell é muito querida das colunas de fofocas, e nunca recebeu muito crédito por sua posição política, sua inteligência evidente, sua acuidade psicológica. (Permitam-me dizer que, ao ler algumas páginas de seu livro mais recente, encontrei passagens que descreviam com tanta perfeição meu casamento fracassado que encaminhei os trechos a diversas amigas pelo celular e depois me deitei para descansar um pouco.) E isso é algo que ela faz só ligeiramente de propósito.

Bushnell recorda que, quando criança, ela vivia zangada com a desigualdade entre os sexos, e o pai dela um dia a chamou para conversar e disse que, embora ela tivesse ideias que as pessoas precisavam ouvir, ninguém ia querer ouvi-las se ela gritasse o tempo todo. "Por isso, aprendi muito cedo a recobrir a mensagem com uma camada de açúcar colorido. Porque é assim que você faz com que a sociedade avance".

Latarro concordou, em uma conversa pré-ensaio. "Ela escreve sobre feminismo de uma maneira que é palatável para muitas mulheres que incorporaram a misoginia, e para muitos homens que acham que as mulheres todas parecem ótimas, em seus vestidos sexies".

O espetáculo, repleto de tiradas e de trechos de canções pop, também é colorido e doce –um martíni de chocolate com açúcar na borda. Bushnell é reconhecível como ela mesma, ao menos nos 60 minutos de ensaio que vi, mas retocada e produzida: uma pessoa reaproveitada em forma de uma personagem fabulosa. Perguntei se ela tinha tentado algo mais aguçado, mais amargo. Ela respondeu que os primeiros rascunhos tinham elementos mais sombrios. Mas foram cortados.

"A mensagem que estou transmitindo provavelmente já é arriscada demais, na forma atual. Sento lá para declarar que não sou casada, não tenho filhos, e sou grata por isso". Não que ela deseje incomodar a audiência com mensagens demais, o que provavelmente é um dos motivos para que os produtores tenham criado um bar, o Candi Bar, no porão do teatro Daryl Roth. "Cosmopolitans a noite toda!", disse Johnston em uma entrevista por telefone.

Bebendo seu chá, Bushnell expressou a situação de modo mais prático: "As pessoas querem se sentir bem, e eu quero lhes dar bons momentos", ela disse.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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