Issa Rae Instagram/issarae

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Salamishah Tillet
The New York Times

"Insecure" começa sua temporada final com um olhar retrospectivo. No primeiro episódio da temporada, que estreou no último final de semana na HBO, as melhores amigas Issa Dee (Issa Rae) e Molly Carter (Yvonne Orji) se encontram na reunião de 10 anos de sua turma universitária, em Stanford, depois de passarem quase toda a temporada passada brigadas e distantes. Em um final de semana movimentado, elas recordam as origens de seu relacionamento e assumem o compromisso de seguir em frente juntas, de novo apoiando firmemente uma à outra.

Isso indica que, em sua reta final, "Insecure" está voltando àquilo que tornou a série tão atraente, especialmente para espectadores negros, e tão inovadora entre os programas dos canais premium de TV a cabo: um foco consistente nos altos e baixos das amizades entre mulheres negras.

Criada por Rae (na época conhecida por "The Misadventures of Awkward Black Girl", série que ela fez para a web), e pelo veterano "showrunner" e comediante Larry Wilmore, "Insecure", ao estrear em 2016, era só a segunda série criada e estrelada por uma mulher negra. (A primeira, "Wanda at Large", de Wanda Sykes, estreou em 2003 na rede Fox.)

A exibição de "Insecure" coincidiu por algum tempo com a de "Girls", que acabou em 2017, na HBO. As duas séries são descendentes de "Sex and the City", um dos grandes sucessos da rede, mas substituíram os sapatos Blahnik e bolsas Birkin pelo desajeito e angústia da geração milênio.

"Insecure" se contrapõe à homogeneidade racial de suas predecessoras passadas em Nova York, mas também contrastava com outras séries e filmes cuja locação é Los Angeles. Bairros como Baldwin Hills, Windsor Hills e View Park (onde Rae cresceu) raramente são vistos nas telas. Se a região sul de Los Angeles era mostrada, tendia a ser em filmes como "Os Donos da Rua" e "Perigo para a Sociedade", que mostram comunidades predominantemente negras, a exemplo de Watts e Inglewood (onde o pai de Rae tinha seu consultório como dentista), mas as retratam como regiões assoladas por gangues e conflitos armados violentos. Rae disse que seu objetivo era fazer com que os bairros em que a história se passa parecessem tão sexy quanto qualquer outro lugar da cidade.

Parte desse aspecto sexy vem da aparência e do som do mundo da série. Melina Matsoukas, que quando a série estreou era mais conhecida como diretora de "Formation", um vídeo de Beyoncé, estabeleceu o tom visual, como diretora e produtora executiva. A cantora de R&B experimental Solange Knowles trabalhou como consultora musical. (E Raphael Saadiq, uma lenda do soul moderno, também compôs música para a trilha sonora.)

Outro aspecto importante era a moda —o guarda-roupa de trabalho "fashion" de Molly, as camisetas políticas chiques de Issa— e a variedade deslumbrante de cortes naturais de cabelo. A estética servia como um pano de fundo elegante e convidativo para o elenco inovador da série, que trazia duas mulheres negras de pele escura como estrelas e figuras românticas centrais.

Mas o aspecto mais revolucionário de "Insecure" era a abundância de momentos nada sexy –quando Issa e seus amigos erram, se machucam, magoam os outros, cometem erros e tomam as más decisões que quase todos nós tomamos quando jovens adultos.

"A verdadeira representação é a capacidade de mostrar sua vulnerabilidade, e poder afirmar que não, você não tem tudo sob controle, exatamente como as pessoas brancas não têm tudo sob controle", disse Rae recentemente. "Acho que a série deu às pessoas negras permissão para também dizer que sim, nós somos inseguros".

Como Rae e Matsoukas, a maior parte da equipe de criação da série estava ocupando postos novos ou assumindo responsabilidades superiores às do passado, quando a série estreou. Prentice Penny, o "showrunner", e a produtora executiva Amy Aniobi não tinham exercido essas funções no passado. Interpretar Molly foi o primeiro papel dramático importante de Orji, que é comediante stand-up. Cinco anos mais tarde, eles são um grupo muito unido de veteranos, orgulhosos do trabalho que criaram juntos.

Para uma entrevista em vídeo sobre o final de "Insecure", Rae e Orji falaram juntas de Miami; Jay Ellis, que interpreta Lawrence, o par romântico intermitente de Issa, falou do aeroporto daquela cidade; Aniobi estava em Nova York; e Matsoukas e Penny estavam em Los Angeles. Apesar de estarem muito dispersos, a intimidade entre eles parecia genuína. Houve muita zombaria –o boné gigante do Green Bay Packers que Penny estava usando e a recepção péssima do celular de Ellis foram dois dos temas–, mas depois de cada provocação sempre surgia uma reflexão sobre o talento ou as ideias perceptivas do colega. Abaixo, trechos editados da conversa.

Issa, quando "Insecure" estreou, você a descreveu como uma série que não era exclusivamente sobre as dificuldades de ser negro, mas sim sobre "pessoas negras comuns vivendo suas vidas". Em retrospecto, a série confirma essa descrição?
Rae: Acho que confirma totalmente. O objetivo era elevar as pessoas negras comuns e fazer com que parecêssemos bonitos da maneira mais humana possível, em nossa vida normal. E acho que conseguimos isso.

Penny: Um dos problemas que mostramos é que as pessoas negras enfrentam microagressões raciais aleatórias. Um exemplo é o terceiro episódio da primeira temporada, quando Issa Dee percebe que seus colegas de trabalho branco não a incluem em seus emails. Nem todo mundo é morto a tiros pela polícia, mas todo mundo sabe qual é a sensação de sentir que as pessoas brancas estão falando de nós pelas costas. São coisas que acontecem a todos nós, certo? Ou, como é a vida normal de uma pessoa negra em uma dada terça-feira? Um dia com nada de especial, completamente regular. Era o que queríamos mostrar.

Rae: E quando incluímos a história de Lawrence ser parado pela polícia, um momento de alta tensão que sabemos que termina de modo fatal para muitos homens e mulheres de nossa comunidade, perguntamos a nós mesmos "como é que esses acontecimentos afetam o que ocorre na vida da pessoa no dia seguinte?" Lidamos com esse tipo de coisa o tempo todo e não temos a oportunidade de parar para refletir. Em lugar disso, as pessoas negras enfrentam microagressões e racismo e continuam funcionando. Você às vezes vai embora para casa furioso e briga com seu parceiro, ou talvez escreva alguma coisa em seu diário. "Insecure" se interessa bastante por esses momentos e sobre a maneira pela qual eles afetam a vida cotidiana.

Penny: Em determinado momento, Issa disse aos roteiristas que "quando você é branco, o racismo é um ponto final. Tipo, isso é errado, isso precisa parar, ponto final. Mas quando você é negro, o racismo é uma vírgula". Funciona assim: algo racista me acontece, está bem, mas eu continuo a ter de pagar minhas contas, a pegar meu carro e voltar para casa, brincar com meus filhos. Sim, aquilo aconteceu, mas de que maneira você vai lidar com o ocorrido?

"Insecure" e "Atlanta" inovaram, como comédias sobre pessoas negras da geração milênio. Vocês sentiram alguma pressão por estarem falando em nome de sua geração?
Matsoukas: Jamais senti o peso de ter de falar por toda uma geração de pessoas. A tarefa que sentíamos ter de realizar era a de mostrar aqueles personagens e seu ambiente de maneira autêntica. Isso queria dizer filmar de fato nos bairros em que aqueles personagens vivem, conversar com as pessoas que vivem lá e incorporá-las à nossa história, e usar relacionamentos fortes entre amigas e todas as coisas que são autênticas em uma comunidade vibrante, no mundo de onde Issa Dee vem.

Representar pessoas negras de diferentes classes sociais é parte dessa honestidade? Issa e Lawrence, por exemplo, são personagens que vivem no Dunes, um condomínio de moradores negros de classe trabalhadora, embora eles tenham estudado em Stanford e Georgetown.
Rae: Para reforçar o que Melina disse, era tudo questão de autenticidade. Eu me formei em Stanford mas não tinha emprego, e por isso voltei a morar em Los Angeles na casa de meus pais, e o primeiro lugar para o qual me mudei depois disso foi um condomínio bem parecido com o Dunes, onde moram pessoas de classes sociais diferentes.

Penny: "Há essa expectativa de que temos de ser perfeitos e excelentes o tempo todo. Lembro-me de que quando propusemos a série com o título "Insecure", houve uma reação negativa, porque insegurança não é algo que costume ser associado às pessoas negras. Foi um momento importante para Issa, Melina e eu, e me fez perceber que "não, isso é ainda mais motivo para que a gente queira que a série tenha esse nome".

Orji: Mas nos diziam que nós éramos perfeitos, brilhantes, tão...

Penny: O máximo, vocês são o máximo.

Matsoukas: Isso está me deixando literalmente desconfortável e insegura.

Orji: Essa conversa está me deixando insegura.

Ellis: Essa é parte da razão para que jamais tenha parecido um peso interpretar esses personagens. Porque o peso está em ser excelente o tempo todo. O peso está na expectativa de que todo homem ou mulher negro que estude em Princeton ou Stanford precisa ser perfeito, ou na situação que Molly enfrenta no escritório de advocacia branco. Mas quando pudemos fazer a série da maneira que Issa, Prentice, Melina e Amy queriam, não tivemos de usar máscaras diante de ninguém, ou viver à altura das expectativas de qualquer pessoa. Era essa a verdadeira liberdade.

Para a maioria de vocês, foi a primeira ocasião em que lideraram um projeto desse calibre. Como é que vocês recordam esse risco agora?
Aniobi: Lembro de nossa primeira reunião de produção, quando alguém fez uma pergunta realmente boa. E aí percebi que era eu que tinha de responder. É mais ou menos como trabalhar em um hospital-escola. Estávamos todos aprendendo juntos, em nossa primeira vez. Isso contribuiu para todos apoiassem uns aos outros com tamanha firmeza.

Penny: Estávamos tentando criar um espaço seguro para poder falhar. A ideia era manter a porta o mais aberta que pudéssemos, para permitir a entrada do maior número possível de pessoas, e criar um espaço de trabalho seguro e criativo para os profissionais negros.

Orji: Para mim, o que Issa começou foi uma reação em cadeia. Em meus especiais ou futuros projetos, vou recorrer a pessoas que já estão fazendo coisas maravilhosas mas ainda não tiveram uma grande oportunidade. Vou lhes dar uma chance. As pessoas brancas têm direito a fazer isso por seus amigos.

Aniobi: Se você quer ficar com raiva, leia o verbete da Wikipedia sobre "Seinfeld". Eu mal consegui acreditar no número de oportunidades que eles tiveram.

Penny: E eu trabalhei com roteiristas de "Seinfeld" e "Friends", depois do final dessas séries, e eles continuam a conseguir contratos longos o tempo todo. São séries com mais de 20 anos. Mas o mercado ainda acredita que "essas pessoas brancas têm algo a dizer".

A série de vocês está na HBO, mas a sensação muitas vezes era a de que foi escrita para uma audiência negra. Personagens como Issa e Molly começam a história tendo de trabalhar fora de sua cultura, em escritórios brancos, mas depois pedem demissão. O mundo delas e da série começou a ficar mais e mais...
Aniobi: Negro.

Rae: No caso do trabalho de Issa na We Got Y’all, nós simplesmente nos cansamos de contar histórias daquele tipo. Há uma pressão para que roteiristas negros escrevam sobre a experiência negra em um contexto branco. Na primeira temporada, nos encorajaram por por algum tempo a assumir o ponto de vista de Frieda [a colega branca de Issa na organização sem fins lucrativos, interpretada por Lisa Joyce]. Para que faríamos isso?

Orji: Lá pela temporada quatro, Issa tinha saído daquele ambiente e Molly começou a trabalhar em um escritório de advocacia negro. E quando você coloca os personagens em um espaço negro, você também conta uma história realista do que aquele espaço parece. Quando Molly troca o escritório branco pelo negro, não é como se ela estivesse dizendo "agora vou trabalhar com o meu povo". É mais algo como "bem, naquele outro lugar, isso era feito de outro jeito". E e resposta deles é "está bem, então volte para lá". Mas ao mesmo tempo, ela sente que o que quer que tenha perdido na troca, as coisas que ela ganhou não têm preço.

Matsoukas: Essas linhas de narrativa na verdade funcionam em paralelo com o que estava acontecendo conosco dentro do ramo do entretenimento. Nós todos nos unimos, e vínhamos de um espaço onde éramos "os outros", onde éramos as únicas pessoas negras trabalhando em espaços brancos. E assim, gravitamos naturalmente na direção uns dos outros e desfrutamos da liberdade que surge quando você trabalha com pessoas parecidas, que falam a mesma língua, e não é preciso adotar o código de uma outra cultura. Agora todo mundo segue o mesmo código.

Rae: Agora nós somos o código.

Fazer de uma amizade complicada entre duas mulheres negras de pele escura, Molly e Issa, a peça central da série continua a parecer raro, ainda hoje.
Orji: Foi realmente refrescante ver a escalação do elenco e perceber que era de mim que estavam falando.

Rae: Isso se baseia em uma amizade real minha. Por isso eu não estava interessada no clichê de uma amiga de pele mais clara e outra de pele mais escura. Estava mais interessada em me manter fiel àquela amizade autêntica, e não é comum ter dois papéis principais para mulheres negras de pele escura. Assim, isso se tornou uma missão para nós, garantir que aquilo fosse mostrado. Retratar uma personagem principal desejável e de pele escura por diversos anos também aumentou meu senso de valor pessoal –o que é algo que só estou reconhecendo agora.

"Insecure" está terminando em um momento complicado, um ano depois que os protestos do Black Live Matters atearam fogo ao país, e continuamos a viver em uma pandemia. Qual vocês esperam que seja o legado da série?
Ellis: Há segurança na insegurança. Existe alguma coisa na jornada que esses personagens fazem até o final da temporada cinco que faz pensar em "o que aconteceu na terça-feira?" Eu gosto da ideia de falar sobre o que aconteceu na terça-feira, e vou continuar avançando para a quarta-feira, sem deixar que o acontecido estrague meu dia, minha vida, ou qualquer coisa.

Rae: O crédito precisa ir para Amy. Nós estávamos procurando a maneira certa de encerrar a série, e ela disse que "nós continuamos tentando pousar o avião". Ela nos lembrou de que, em lugar disso, a viagem aérea continua, e as vidas dos personagens continuarão. Foi libertador demais poder dizer a todos que "ei, não vamos criar um fim para a série". Esses personagens que conheço tão bem, e com os quais cresci, vão continuar a tomar decisões e a viver.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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