Cinema e Séries
Descrição de chapéu Cinema

Lisa Joy fala de 'Caminhos da Memória', 'Westworld' e sua obsessão pelo tempo

Para cineasta 'criar dimensões' pode ser solução à falta de tempo

Lisa Joy - Tracy Nguyen/ NYT
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Darryn King
The New York Times

Na primeira equipe de roteiristas de que participou, alguém gentilmente lembrou a Lisa Joy de que ela não precisava trabalhar tanto. Afinal, nascida em Nova Jersey e filha de mãe taiwanesa e pai britânico, ela tinha sido contratada apenas para satisfazer a quota de diversidade.

A experiência pouco fez para sufocar as ambições ou a produtividade de Joy. Em 2013, quando estava esperando seu primeiro filho, ela escreveu o roteiro de “Caminhos da Memória”, um thriller tecno-noir, e começou a desenvolver a cerebral série de ficção científica “Westworld”, para a HBO, trabalhando com seu marido, Jonathan Nolan, autor do roteiro de “Amnésia”.

Depois de três temporadas da série –a quarta está a caminho—, Joy decidiu que ela mesma dirigiria “Caminhos da Memória”. No filme, que teve passagem rápida pelos cinemas brasileiros e deve entrar no HBO Max, Hugh Jackman interpreta um investigador particular que acessa as lembranças de seus clientes mas termina obcecado dolorosamente por suas próprias recordações.

É uma história que se passa no futuro mas trata da atração exercida pelo passado, em uma Miami que sucumbiu à alta do nível do mar e se tornou noturna, para escapar ao calor sufocante do dia.

Em uma recente conversa por vídeo, Joy falou, de seu escritório em Los Angeles, sobre ser uma outsider permanente, sobre eventos atuais que parecem imitar a ficção, e sobre sua parceria com Nolan. Abaixo, trechos editados dessa conversa.

Você escreveu “Caminhos da Memória” quando estava grávida. A sensação do roteiro é a de que foi escrito por uma pessoa que estava em um ponto de inflexão –contemplando o passado e o futuro ao mesmo tempo.
Meu principal objetivo era escrever alguma coisa para me manter entretida enquanto o enjoo matinal me fazia vomitar! Certamente foi um momento muito dramático. Meu marido estava trabalhando muito, eu estava em casa com os cachorros. Tinha muito tempo livre para contemplar minha vida. E na mesma época, meu avô morreu. E por isso existia uma perda, além de novos começos. Ao cuidar das coisas dele, comecei a meditar sobre a perda, sobre lembranças, e sobre a maneira pela qual nossas lembranças começam a se esvair.

Levando em conta o nível de detalhe de seu roteiro, fico imaginando se, em alguma medida, você já o escreveu imaginando que dirigiria.
Quando escrevo, imagino os personagens falando, visualizo a sala em que estão, e faço as marcações de cena em minha cabeça. Mais ou menos transcrevo um filme ao qual já estou assistindo. Assim, quando potenciais diretores começaram a me falar de suas ideias para o projeto, o que percebi foi que a visão de nenhum deles se alinhava à minha. Eu queria que a produção tivesse o espírito de um filme independente, que aceitasse correr alguns riscos a mais, e que contasse uma história que não fosse fácil de enquadrar a um gênero.

E Hugh Jackman no papel principal?
No segundo em que comecei a pensar em dirigir o filme, sabia que Hugh era o protagonista perfeito. Eu queria mostrar um herói que se desmantela aos poucos, questiona suas lembranças e vem a compreender uma versão mais nuançada do planeta. Hugh tem essa alma. E também é muito competente nas cenas de ação.

Muita ação, acompanhada por muitas ideias não convencionais.

E romance. Eu queria ter esses elementos no filme. Porque a vida é assim. A polaridade do cinema é frustrante para mim. “Esse é um filme de arte. Aquele é um filme pipoca”. Creio que pensar assim signifique subestimar as audiências.

Você começou como roteirista de comédia, na série “Pushing Daisies”. Quando é que surgiu sua atração pela ficção científica?
Sempre gostei de histórias que tratem de temas grandes, temas imemoriais. É para lá que minha curiosidade me leva. Quando comecei a tentar vender o projeto de “Caminhos da Memória” —eu estava grávida e perto do parto—, as pessoas me olhavam e queriam saber o que havia de errado comigo. Por que eu estava escrevendo algo tão misterioso, sombrio, violento e sexy? Por que não escrever uma comédia romântica? As pessoas não esperavam que eu, uma roteirista ainda iniciante, fizesse coisas tão grandes, ambiciosas, construísse todo um mundo.

Por que fazer com que o filme se passe em um momento indeterminado do futuro?
As histórias são mais universais quando você não as rotula demais. Quando comecei a contemplar aquele mundo, ele não se parecia com o mundo em que vivemos agora. Não pensei que a realidade se equiparia tão rápido à ficção científica. Mas quando o trailer começou a circular, vi fotos das muralhas que estão construindo em Miami. Acho que foi na primeira página do The New York Times. Elas se pareciam muito com nossos cenários. Também tínhamos cenas de tumultos e violência nas ruas, e inquietação política e socioeconômica. Houve momentos em que as pessoas pareciam acreditar que a ideia toda era um exagero. Mas na semana seguinte, estouraram as manifestações de rua.

“Westworld” estreou mais ou menos na época do #MeToo, e os androides da série pareciam sintonizados com o movimento. Você aproveitou conscientemente experiências que teve no setor?
Nenhum dos meus trabalhos é explicitamente confessional, mas ao mesmo tempo nós somos quem somos. Eu tinha acabado de sair de uma equipe de roteiristas que só tinha homens (“Burn Notice”, da rede USA), e queria retomar o controle de minha história de uma maneira que só eu pudesse fazer. E isso significava escrever.

Não é que eu tenha algum dom profético. Vivemos neste mundo. E precisamos encontrar uma maneira de sobreviver nele. Para mim, reconhecer a jaula em que estamos encarcerados é a maneira de escapar dela. E não apenas para as mulheres –isso vale para qualquer pessoa que se sinta aprisionada ou que tenha sido sujeitada a crueldades.

Você já disse que se sentiu como uma outsider por boa parte de sua vida.
Nasci nos Estados Unidos, mas minha mãe é asiática, meu pai britânico. Hollywood parecia ser mais longe que a Lua, quando eu era pequena. Sempre tive um sentimento de deslocamento. Mas quase todo mundo se sente assim. É parte da condição humana: sentir-se isolado das correntes que nos arrastam. E é uma das coisas que se pode explorar na ficção, sem ser didático ou presunçoso sobre as experiências alheias. E com sorte criar uma conexão.

Você trabalhava como consultora no ramo de finanças e tecnologia antes de chegar a Hollywood –e recebeu o convite bem no meio de uma apresentação que estava fazendo. Foi assim mesmo?
A mudança foi bem abrupta! Sempre amei escrever, mas no começo era impossível tentar ser escritora. Eu tinha dívidas dos estudos universitários, tinha obrigações financeiras. Trabalhei para grandes empresas, mas nunca parei de escrever. Não porque tivesse a expectativa de algum dia ganhar a vida escrevendo, mas só porque me fazia feliz.

Mas trabalhar em outro ramo por quase 10 anos antes de me tornar roteirista profissional –não foi tempo perdido. Quando mais tarde você vem a trabalhar como produtora, aquela experiência ajuda a entender como o dinheiro funciona. Tudo é uma linguagem. Matemática é uma linguagem. Ciência da computação é uma linguagem. Passei muito tempo aprendendo a dialogar em tantas dessas linguagens quanto possível.

No set do seu filme, chegou a haver um teorema pitagórico, não é?
Foi em uma cena complicada na qual Hugh contempla o holograma de uma memória. Eu descrevo como “o ‘turducken” de Hugh.

É verdade que uma amiga a apresentou a Jonathan porque vocês dois tinham o mesmo estilo verboso de escrever emails?
[Risos.] É verdade. Nós nos encontramos pela primeira vez na estreia de “Amnésia”. Eu não imaginava que conheceria meu futuro marido no tapete vermelho, no minuto em que cheguei lá. Eu era cética com relação a ele. Hollywood tem lá sua reputação –razoavelmente merecida. Mas nós já trocávamos emails há muito tempo.

E terminaram se casando e se tornando colaboradores. Já a li descrevendo a criação de um mundo fictício com outra pessoa como “romântica”.
Lembro-me de quando concluímos o episódio final da primeira temporada. Tínhamos construído Sweetwater [a cidade de “Westworld”] em Santa Clarita. Era uma coisa mágica –podíamos caminhar naquelas ruas. O mundo que existia em nossas cabeças havia se manifestado. E nós lá, com nosso filho. Pegamos um carrinho de golfe, e o sol estava nascendo lá longe. E dirigimos pelo centro de Sweetwater, com nosso bebê no meu colo.

Sou obcecada pelo tempo. Nunca parece existir tempo bastante, especialmente na companhia daqueles que você ama. E talvez uma forma de ter mais tempo seja viver em múltiplos mundos a cada dia; criar novas linhas do tempo e novas dimensões.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem