Jake Lacy Instagram/misterjakelacy

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Jennifer Vineyard
The New York Times

ATENÇÃO: Esse texto contém spoilers

Antes que Jake Lacy chegasse ao Havaí para gravar a série “The White Lotus”, ele só havia recebido o primeiro roteiro daquilo que, na época, seria uma minissérie em seis episódios —agora, a série da HBO já tem até segunda temporada confirmada. Ele sabia que um personagem tinha morrido –um caixão de papelão carregando os restos mortais de alguém estava sendo embarcado em um avião. Mas quem?

“Mike White [criador, roteirista e diretor da série] disse algo como ‘toda minissérie começa com um cadáver’”, contou Lacy. “E assim existia um elemento de sátira narrativa, além da sátira social. Era como se ele estivesse dizendo que, se o público quer cadáveres, vamos começar com um cadáver. Estávamos zombando de um elemento de trama que é parte desse formato muito popular de narrativa”.

“The White Lotus” não trata de seu mistério inicial logo de saída e no começo só nos oferece algumas pistas. Antes que a narrativa recue no tempo para os acontecimentos de uma semana passada em um resort havaiano de luxo chamado White Lotus, vemos o personagem de Lacy, Shane, parecendo incomodado, tanto com o cadáver quanto com uma pergunta amistosa que lhe é feita sobre o paradeiro de sua mulher, Rachel (interpretada por Alexandra Daddario). Hmmm.

“Fiquei me perguntando quando exatamente eu mataria minha mulher”, disse Lacy. Ele presumia ser o assassino e que ela tivesse sido a vítima. Da perspectiva do personagem, a lua de mel do casal tinha saído dos trilhos desde o minuto em que eles não recebem a suíte Pineapple que tinham reservado, e em lugar disso o gerente do hotel, Armond (Murray Bartlett), os coloca na suíte Palm (que não tem um ofurô, apesar de oferecer uma vista melhor).

As coisas se agravam ainda mais graças aos chiliques de Shane e às estranhas reações de Armond a eles. “Qualquer um dos dois podia decidir recuar”, disse Lacy, “mas eles preferem continuar agravando a briga”.

O ator se lembra de ter chegado às páginas finais do roteiro do último episódio —a cena em que Armond entra no quarto de Shane para deixar um presente de despedida em sua mala— e de socar o ar em celebração.

“Fiquei me criticando por não ter percebido quatro episódios mais cedo o que viria. Mal consegui acreditar que um sujeito defecaria em minha mala e que eu o assassinaria por isso”.

Durante uma conversa por telefone, Lacy, que estava em Vermont, discutiu a sátira social da série, Karens masculinos (meme que viralizou nos EUA em meio à debate racial) e as possibilidades quanto à segunda temporada. Abaixo, trechos editados da conversa.

A HBO acaba de anunciar uma segunda temporada de “The White Lotus” com foco em um novo local, novos funcionários e novos hóspedes.
Não tinham me dito! Acho ótimo. Espero que Shane apareça ao fundo em uma cena na piscina se queixando de seu daiquiri.

Você acha que ele voltaria ao resort White Lotus? Não preferiria evitar completamente essa rede de hotéis?
Não acho que vergonha ou embaraço sejam sentimentos que ele tenha. Ele talvez se sinta perturbado com o que aconteceu e encontre alguma desculpa para não voltar, mas seria apenas por paranoia. Acho que ele imagina as outras pessoas cochichando “aquele é o cara que matou o outro cara”.

A jogada mais descarada de Shane é a de se fazer de vítima. ‘Eles deveriam me hospedar de graça nesses lugares pelo resto da minha vida, em qualquer parte do mundo, para compensar o que me fizeram! Eu deveria ter processado a empresa por isso’. Essa talvez fosse sua mentalidade, a de se ver como o sujeito que é ferrado pelos outros, apesar de ser um multimilionário de 30 anos de idade. Ele não sabe que é o vilão, não a vítima.

Shane parece evitar qualquer prestação de contas e escapar sem consequências da morte que causou. Por outro lado, Kai (Kekoa Kekumano) provavelmente será punido severamente por roubar as joias dos Mossbacher.
Acho que é intencional. Nessa realidade do "White Lotus", certa categoria de pessoas é tratada pelo sistema de justiça criminal de um jeito, enquanto pessoas com acesso, dinheiro e privilégio são tratadas de outro jeito. Sim, o normal seria que ele fosse instruído a não deixar a ilha ou a não deixar o estado.

Mas o pai de Shane provavelmente ligou para amigo –um juiz? Um senador? É assim que certo nível desse mundo funciona. Kai será tratado como criminoso, mas Shane não terá de servir uma sentença de prisão pelo que fez –e apesar de tudo vai se retratar como vítima porque talvez se torne um pária social. Pode ser que não o convidem para as festas de verão nos Hamptons por causa disso.

Até que ponto você acredita que o conceito da série pode ser reproduzido em sua retomada com novo elenco para a segunda temporada? O público estará pronto para suportar ainda mais gente rica e sem noção?
Se Mike White não tivesse mais ideias do mesmo nível a oferecer, ele escolheria fazer outra coisa. Mas talvez seja possível fazer algo mais ao estilo [da série britânica] "Upstairs, Downstairs", com a segunda temporada girando mais em torno do lado serviçal da história.

As pessoas dizem que a série é sobre privilégio. Mas Mike afirma que ela é mais sobre como o dinheiro corrompe a dinâmica de cada relacionamento, quer se trate de uma relação de negócios, de uma amizade ou de um casamento. Tanya (Jennifer Coolidge) oferece falsamente a Belinda (Natasha Rothwell) o vislumbre da oportunidade de ser dona de um spa e é muito errado a maneira pela qual ela destrói essa esperança quase de imediato.

Mas também podemos ver como Belinda muda diante dessa oportunidade. Ninguém está livre desse comportamento, exceto talvez Quinn (Fred Hechinger) e os caras da canoa, porque nenhum deles ganha dinheiro com o oceano. Existe uma certa igualdade naquele relacionamento.

A história também parece ser sobre cumplicidade. Quando Rachel vai se encontrar com Shane no aeroporto, ela essencialmente aceita tudo que ele tem de reprovável em troca dos benefícios que o marido oferece. Mas, porque ela passou a noite em outro quarto do hotel, você acha que ela sabe que Shane matou Armond?
Cara, eu sempre supus que ela soubesse, mas talvez só tenha ouvido o rumor no hotel, "ei, alguém matou alguém". Ou talvez a mãe de Shane, Kitty (Molly Shannon) tenha telefonado para contar. Mas seria uma cena maravilhosa que ela descobrisse a verdade depois que eles embarcam no avião. Ele diria algo como "eu matei aquele sujeito", e ela responderia: "Do que você está falando? Oh, não, não, não, não! Achei que você fosse grosso com os garçons e só".

Mas na realidade ela está deixando que Shane escape impunemente com sua decisão de ficar ao lado dele. É um relacionamento quase abusivo. A conclusão a que ela chega é a de que ter dinheiro é melhor do que não ter dinheiro em uma sociedade capitalista, mas essa não é uma escolha saudável. O espectador preferiria que ela seguisse seu coração, mas não é o que acontece nessa história. Ela faz uma escolha bem pragmática sobre como deseja que sua vida seja. Talvez mais tarde ela se arrependa. Talvez mais tarde ela o deixe. Mas por enquanto ela decide se acomodar, essencialmente, e o custo disso é que perde parte daquilo que a torna única.

Uma das coisas sobre a as quais Rachel e Shane brigam é fazer sexo durante a lua de mel. Mas não é esse o período em que você supostamente faz mais sexo em toda a sua vida?
Parte do que filmamos não foi usado. Tínhamos uma cena na qual Shane queria fazer sexo e Rachel estava não exatamente recusando, mas não estava a fim. Não é que ele a forçasse, mas a cena foi retirada porque terminou parecendo muito mais agressiva do que os realizadores pretendiam. O propósito da história não era estabelecer que Shane tinha forçado sua mulher a fazer sexo, e sim mostrar que ele não sabia interpretar quando ela estava ou não a fim.

Algumas das referências ao impulso sexual forte dele fariam mais sentido se as cenas não tivessem sido removidas. Acho também que existe muita coisa acontecendo por baixo daquilo. O que ela está dizendo é que sua preocupação é que aquilo talvez seja a única coisa que ele quer dela. Ela não está reclamando de que eles fazem sexo demais.

Se houvesse uma mulher branca tentando forçar a demissão de Armond, teríamos um nome para ela: Karen. Não sei se existe um equivalente masculino do nome, mas Shane poderia funcionar.
Espero que a ideia pegue! A atitude das Karens é a de "não vou tolerar isso!", como se elas estivessem agindo em nome da justiça. E a atitude de Shane é a de ‘não me force a engrossar’. Existe uma agressão ali, um ‘não vou aceitar ser tratado desse jeito!’ Funciona do mesmo jeito em Shane e nas Karens.

Ao mesmo tempo, Armond lhe deu o quarto errado. São quartos cuja diária é de US$ 26 mil (R$ 140 mil), afinal. E como se você comprasse um carro e a loja dissesse "oh, nós sabemos que esse na verdade é o modelo que você deseja", e a pessoa respondesse que "mas não é o carro pelo qual eu paguei". Ele reservou um quarto e sente que o hotel tinha a obrigação de lhe dar aquele quarto. Ainda que seu comportamento se torne mais e mais inapropriado, o que ele quer é razoavelmente justo. ‘Quero receber aquilo por que paguei’. Não que isso desculpe seu comportamento. Em um mundo perfeito, ele relaxaria e esqueceria a queixa.

Qual dos personagens é o pior, em sua opinião?
Acho que as pessoas dirão que é Shane, mas esse era o meu personagem. Ainda tenho alguma empatia por ele. Minha sensação é a de que a maioria dos personagens é intragável. Shane é o pior, com base em suas ações, é claro. Nenhum dos outros personagens assassina alguém. Mas Paula [Brittany O’Grady], por mais honesta e progressista que diga ser, é cúmplice de um crime e na hora da verdade ela escolhe embarcar no avião. Não revela o que sabe. E Rachel aceita o que Shane faz, desde que ela possa continuar com os jantares finos.

Para mim, boa parte da série questiona o quanto cada pessoa é limpa, o quanto cada pessoa é inocente, o quanto cada pessoa está livre de culpa. Quer seja por conta de oportunidades que você teve e outras pessoas não, ou privilégio, ou dinheiro, ou aparência, ou cor da pele –se você existe em um mundo transacional, até que ponto pode estar limpo?

A esperança é que isso tudo seja refletido de volta para a audiência. "Vocês provavelmente fazem a mesma coisa, não é? De alguma maneira?" Quer seja no Four Seasons, no lava-rápido, na fila do McDonald’s ou no Starbucks, qual é o tamanho de sua expectativa quanto ao que o mundo lhe deve e sobre como você merece ser tratado?

E a parte da série que mais me intriga. Gira menos em torno de decidir quem é pior e mais sobre quem é que mente mais para si mesmo.

Texto traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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