Cenas da série "The White Lotus" ("O lótus branco"), com Sydney Sweeney e Brittany O'Grady Divulgação/HBO

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Alexis Soloski
The New York Times

Em setembro do ano passado, o roteirista e diretor Mike White, 51, se registrou em um hotel Four Seasons que tinha sido reaberto recentemente, mas continuava vazio, em Maui, Havaí. Ele era o primeiro hóspede do lugar desde maio. A equipe aplaudiu de pé quando ele chegou.

White não parece ser o tipo de sujeito que se beneficia de estadias tropicais prolongadas. “Não me bronzeio de jeito algum”, ele disse, como um fantasminha camarada na janela do Zoom. “Sou praticamente albino”.

Ainda que tenha dedicado algum tempo a consumir coquetéis à beira da piscina, White em geral passava seus longos dias nos trópicos gravando e editando “The White Lotus”, série limitada de seis episódios que estreou este mês na HBO e esta disponível na HBO Max.

É a primeira série criada por ele desde o cancelamento prematuro de “Enlightened”, que foi ao ar cerca de uma década atrás e compartilha da convicção de seu programa anterior, a de que, quando alguém decide viver sua melhor vida, estará forçando muitas outras pessoas a viver pior.

Uma sátira ranzinza aos privilegiados, passada quase integralmente em um resort de luxo muito parecido com o Four Seasons, “The White Lotus” esquadrinha os relacionamentos entre hóspedes e empregados, quase todos mais tóxicos do que um fígado de baiacu.

Depois de um ano no qual pouca gente pôde viajar segura e sensatamente, a série oferece o pensamento consolador de que talvez as férias tropicais jamais tenham sido assim tão bacanas.

Por mais de 20 anos, começando pelo filme independente “Chuck & Buck”, no qual ele também estrelava. White construiu uma carreira cuja base é examinar, às vezes de maneira incômoda, a distância entre as pessoas que imaginamos ser e as pessoas que realmente somos.

“Ele vai ao cerne do que as pessoas estão pensando e sentindo, em lugar de ao show que a maioria das pessoas parece estar fazendo”, disse a atriz Jennifer Coolidge, amiga de White que interpreta uma hóspede nervosinha em “The White Lotus”. Nos roteiros de White, ele cutuca essas disparidades e tipicamente extrai conclusões nada agradáveis.

Artista que oferece ao mesmo tempo humor agudíssimo e empatia —as duas qualidades ficaram evidentes em uma conversa por vídeo de uma hora de duração—, White sente afeto verdadeiro por seus personagens mesmo ao exibi-los satisfazendo seus apetites mais vergonhosos. A obsessão que o caracteriza é a conexão espinhosa entre boas intenções e as más ações que elas muito frequentemente provocam.

Falando de sua casa, em Los Angeles, White disse que “a maioria de nós quer ser a melhor pessoa que puder, mas sempre ficamos aquém disso”, ele disse. E White se inclui nessa maioria.

Ele não pretendia escrever um novo drama, necessariamente, ainda mais durante a pandemia. “Para dizer a verdade, não gosto de trabalhar”, ele disse. (A meia dúzia de colaboradores de White com quem conversei o descrevem, todos, como imensamente dedicado ao trabalho e provavelmente discordariam do que ele diz.) Já que é introvertido, White achou que a quarentena lhe cairia bem. E foi o que aconteceu. Pelo menos por algum tempo.

Quando Francesca Orsi, vice-presidente executiva de séries dramáticas da HBO, telefonou, White estava se sentindo um pouquinho deprimido e tinha decidido tratar da depressão fazendo uma viagem de carro com o cachorro. Ele enviou algumas fotos da viagem a Orsi.

Ela havia trabalhado com White em “Enlightened” e costuma manter contato com ele regularmente. Orsi estava em busca de alguém que ajudasse a reabastecer um cronograma de programação que havia sido esvaziado pelo vírus.

Ela fez uma proposta: White seria capaz de produzir uma série rodada em uma só locação? E com orçamento de menos de US$ 3 milhões (R$ 15,6 mi) por episódio? E tudo isso em segurança? “A proposta parecia um inferno”, disse White.

Mas ele decidiu que era capaz da tarefa e teve uma ideia quase imediatamente. Quando ele era adolescente, em Pasadena, na Califórnia, a família de White costumava fazer viagens baratas de férias ao Havaí. Isso despertou alguma coisa nele, uma sensação de que existe “o outro”. Ele disse que “foi lá que primeiro percebi que existia outro lugar, outra cultura, outra vida, além da vida que eu levava em Pasadena”.

Cerca de dez anos atrás, White comprou uma casa de férias na ilha havaiana de Kauai. Ele muitas vezes passa metade do ano lá. White leu sobre a história do Havaí, especialmente sobre as feridas infligidas pelo imperialismo americano. E pensou nas maneiras pelas quais pessoas como ele mantêm abertas essas feridas.

Quando criança, ele adorava as noites de luau, nas quais o pessoal do hotel vestia trajes tradicionais e dançava para os hóspedes. Agora, sua opinião sobre a experiência é diferente. “Há algo estranho em tirar férias na realidade dos outros”, ele disse.

Assim, quando Orsi ligou, ele soube quase imediatamente que desejava criar uma série passada no Havaí. “Minha ideia foi a de fazer uma série sobre pessoas endinheiradas que estão de férias e sobre como o dinheiro delas impacta todos os seus relacionamentos”, ele disse.

Porque seu trabalho sempre combina imaginação e auto questionamento, ele se baseou em suas experiências positivas com a cultura havaiana para criar o clima ligeiramente repulsivo de “The White Lotus”.

Vemos Nicole, a empreendedora feminista desavisada interpretada por Connie Britton, comentar sobre a noite de luau: “Acho que é uma forma de eles honrarem sua cultura e parecem estar se divertindo”. Como a filha de Nicole diz, “mãe! Que nojo!”

White escreveu o primeiro episódio no final de agosto e completou os cinco outros pelo final de setembro. A rodagem começou no final de outubro com todo o elenco –que inclui Coolidge, Britton, Steve Zahn, Natasha Rothwell e Jake Lacy– em quarentena em um hotel de Maui.

Às vezes, durante a preparação, White olhava pela janela do quarto e via alguns dos atores nadando lá embaixo. (Embora continue a trabalhar ocasionalmente como ator, White não escreveu um papel para si mesmo no roteiro.)

“Minha sensação era a de ser anfitrião de uma festa bacana, obrigado a trabalhar na cozinha. Mesmo assim, foi gostoso”, ele disse. “Era um prazer sentir que as pessoas tinham se recuperado do encarceramento da pandemia e estavam fazendo festa no Four Seasons”.

Embora as histórias de White em geral se concentrem em um só protagonista, “The White Lotus” é um trabalho de elenco com subtramas múltiplas que exploram as perversões do poder diante de um pano de fundo de espantosa beleza natural.

Os atores aceitaram o convite para a série rapidamente, embora os cachês não fossem espetaculares. “Não há como dizer não a Mike White”, disse Britton que trabalhou com ele em “Jantar com Beatriz” (2017).

Ela tinha imaginado que gravar uma série em um resort de luxo seria a melhor maneira de voltar ao trabalho durante a pandemia. E provavelmente estava certa. Mas os protocolos de segurança e o cronograma apertado de trabalho significaram que o trabalho não pareceu muito luxuoso. Para acomodar os testes, os dias de rodagem muitas vezes começavam às 3h30, e os dias de folga eram escassos.

Mas essa dose moderada de adversidade serviu para unir o elenco. A cada noite, eles se reuniam na praia para ver o pôr do sol. E acordavam horas mais tarde em plena madrugada para começar tudo de novo.

Cena da série "The White Lotus" (O lótus branco) com Jolene Purdy, Murray Bartlett, Alexandra Daddario e Jake Lacy - Divulgação/HBO

Para uma série ensolarada, “The White Lotus” tem muita escuridão e a luz que ela lança sobre a natureza humana tem pouco de lisonjeiro. Coolidge muitas vezes lia o roteiro e procurava White pedindo explicações sobre as atitudes de sua personagem. “Eu perguntava se era aquele mesmo o caminho que ela tomaria”.

White respondia que sim, era. “Porque é dessa maneira que os seres humanos agem, Jennifer”.

Pensando em algumas das cenas da série, que eu assisti com um pouco de choque, perguntei a White se ele achava que hóspedes verdadeiros do resort –seres humanos reais– se comportavam tão mal quanto seus personagens.

“Oh, acho que eles se comportam muito pior do que as pessoas da série”, ele disse. “Muita gente rica está acostumada a ser servida. Não acho que eles imaginem o quanto pesam suas necessidades e o quanto elas os oprimem”.

Ele já viu comportamento parecido entre seus colegas de Hollywood. “As pessoas estão vivendo seu sonho, mas parecem sempre frustradas e insatisfeitas”, ele disse. “São fantasmas famintos”. E ele vê o mesmo em sua pessoa, e usa o que observa. Como o personagem de Lacy, um corretor de imóveis jovial, ele passou pelo menos uma viagem de férias reclamando todo dia sobre seu quarto. Ou talvez mais de uma.

“Quero ser uma pessoa virtuosa”, ele explicou. “Quero que as pessoas me vejam como um cara legal. Ao mesmo tempo, sou humano e tenho instintos sórdidos e algumas das coisas que quero são embaraçosas, mas verdadeiras. Assim, a parte abnegada e a parte egoísta de mim vivem em conflito”.

É essa autoconsciência e essa capacidade de se acusar, articuladas sem qualquer vergonha, que dão ao trabalho de White seu gostinho amargo. “Ele é um observador magistral do mundo e do comportamento humano”, disse Britton. “E também tem consciência de que não está imune a isso”.

O trabalho de White também carrega a convicção, se bem que relutante, de que as pessoas podem aprender a se comportar melhor. “Ele tem grande empatia pelo mundo”, disse Miguel Arteta, que dirigiu diversos dos filmes escritos por White.

“Ele simpatiza com a ideia de que temos a capacidade de melhorar, mas é difícil. Eu vejo claramente esse amor, esse cuidado, mas também a exasperação”.

A carreira de White sempre oscilou entre trabalhos encomendados por estúdios (“Emoji: O Filme”, “O Grande Ivan”, “A Escolha Perfeita 3”) e suas comédias independentes. Como “The White Lotus”, seus mais recentes filmes independentes, “Jantar com Beatriz” (2017) e “O Estado das Coisas”, lançado meses mais tarde, também exploram a violência do privilégio, um tema que sua nova série só amplia.

“Ninguém abre mão de seu privilégio”, diz o personagem de Zahn, um pai egocêntrico. “Isso é absurdo. Vai contra a natureza humana. Todos estamos tentando vencer no jogo da vida”. Papai! Que nojo!

Mas concluir uma série durante a pandemia, ainda mais uma produção estrelada por tanto de seus atores preferidos, também é um privilégio, claro. E White reconhece o fato.

“Percebi que colaborar com os outros é uma parte preciosa de minha vida”, ele disse. “Não é algo que eu pretenda voltar a encarar como automático no futuro”.

Mas como todas as formas de privilégio, a rodagem de “The White Lotus” teve seu preço. O Havaí foi por anos o refúgio de White. Mas depois de fazer a série lá, as ilhas deixaram de parecer um paraíso.

“Agora associo o Havaí aos nove meses mais estressantes da minha vida, em termos de trabalho”, disse White. “E por isso não sei para onde ir”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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