Na 2ª temporada de

Na 2ª temporada de "Snowpiercer", Sean Bean emergiu como o vilão do programa, o megalomaníaco Wilford David Bukach/TNT

Jennifer Vineyard
The New York Times

Contém spoiler da segunda temporada de “Expresso do Amanhã”.

Como Ned Stark, o protagonista inicial de “Game of Thrones”, da HBO, (embora sua passagem pela série não tenha durado muito tempo), Sean Bean foi o primeiro ator a dizer o diálogo que marcou a série: “O inverno está chegando”.

Em sua mais recente série, "Snowpiercer" (no Brasil, “Expresso do Amanhã” exibida pela Netflix), o inverno chegou –o Grande Congelamento–, um colapso catastrófico de temperatura que dificultou a vida na Terra e forçou os poucos milhares de sobreviventes a buscar abrigo em um trem que circula ininterruptamente pelo planeta gelado. (A premissa vem de uma série de graphic novels de Jacque Lob, Jean-Marc Rochette e Benjamin Legrand, e da adaptação delas para o cinema por Bong Joon Ho.)

Agora, porém, a era do gelo pode estar chegando ao fim, na trama da série, e a Terra pode estar se aquecendo o suficiente para sustentar vida de novo. E uma vez mais, no entanto, o maior obstáculo a essa cura é a humanidade.

Wilford, o personagem de Bean, era pouco mais que uma ideia, na primeira temporada, uma figura semelhante ao Mágico de Oz que havia sido instalada nas mentes dos sobreviventes como salvador do planeta.

A mentira foi mantida viva ao longo dos anos pela projetista e engenheira do trem, Melanie (Jennifer Connelly), que criou Wilford com base em uma voz que ela encontrou em velhas gravações e editou para que dissesse novas falas.

Mas na segunda temporada, Wilford apareceu em pessoa, determinado a assumir o controle. E Wilford estava mais para o cruel Joffrey do que para o nobre Ned Stark, e parecia pronto a assassinar e humilhar seus súditos e a engendrar problemas que ele só ele seria capaz de resolver, e para ser cultuado como um deus, em retorno.

As manipulações e abusos de Wilford servem como um perturbador estudo de líderes de cultos, doutrinação, propaganda e autoritarismo. Depois de um ano de lockdown, os paralelos com a vida real são claustrofóbicos demais –e relevantes demais– para serem vistos como puro escapismo.

No episódio final da temporada dois, Wilford uma vez mais tenta sabotar a melhor esperança da humanidade, dessa vez personificada por Melanie, que se arriscou a sair do trem a fim de recolher dados sobre o possível aquecimento da Terra. (Ele grita “já vai tarde!”, enquanto o trem se afasta).

No fim, porém, é Wilford que termina abandonado, quando alguns passageiros separam a locomotiva do trem. Quando chegar a temporada três, filmada em Vancouver, no Canadá, as duas facções terão que fazer as pazes para que “O Expresso do Amanhã” –o trem e o programa– possa seguir em frente.

Em uma conversa por telefone, Bean falou, de Vancouver, sobre mergulhar em seu papel malévolo, sobre os motivos por que Wilford aprecia um bom banho de sangue, e sobre seu eventual interesse por uma “prequel” de “Game of Thrones”. Abaixo, trechos editados da conversa.

Quando Alex (Rowan Blanchard) corta a garganta de seu personagem no episódio final da temporada, achei que você fosse morrer. Mas depois me lembrei de ser lido uma entrevista em que você dizia que não aceita mais papéis nos quais seu personagem morre antes do fim. Isso continua a valer?
[Risadinha] Foi um pouco preocupante, na verdade! Eu entendo que você tenha acreditado que podia ser o fim. Acho que todo mundo espera que eu seja morto, em algum momento dessa série. É o que acontece com meus personagens.
Recentemente, fiz um filme chamado “Possessor” e deveria morrer antes do fim. Mas perguntei ao pessoal se eles não poderiam só me ferir gravemente, em lugar disso, me colocar em uma cadeira de rodas. E eles aceitaram. Assim, quando chega o fim do filme, eu sofri uma lesão cerebral, mas pelo menos estou vivo.
Não me incomodo realmente por morrer, em um papel, se existe uma razão justificável, mas morrer toda vez me chateia. E entrega um pouco o jogo do roteiro, porque basta a pessoa me ver e ela vai começar a pensar “quanto tempo esse cara vai durar?” Por isso, quando sobrevivo, é uma surpresa para quem assiste.

Wilford faz muita coisa surpreendente. Ele prefere sabotar a melhor esperança de sobrevivência da humanidade a lidar com seu ciúme mesquinho. Não seria mais vantagem simplesmente roubar o crédito pelas descobertas que Melanie faz?
Sim, é algo sobre o que já pensei. O que ele deseja realmente realizar? É preciso que ele tenha um objetivo final. Tenho certeza de que ele gostaria de um lugar seguro para viver, algum lugar com clima menos extremo. Mas se ele não conseguir descobrir um lugar como esse sozinho, ele destruiria alegremente qualquer pessoa que o tivesse feito. Ele quer ser a pessoa que dirá que “encontrei isso sozinho, e vou colonizar esse lugar. Vai ter o meu nome”. E usará qualquer meio para realizar essa ambição.

Sua disposição de sacrificar todo mundo em troca de algumas vantagens passageiras me lembra da resposta de alguns políticos nos dias iniciais da pandemia.
Os líderes dos Estados Unidos foram informados de que a pandemia ia acontecer, e escolheram vender suas ações. As pessoas que foram informadas com antecedência preferiram realizar lucros primeiro. É uma reação desprezível.
Imagino que isso tenha sido uma jogada política, bem no começo, para jogar toda a culpa na China. Imagino que as origens da pandemia já não importam, mas essa ideia de caluniar outros países por motivos políticos me intriga. Em meio a tudo que estava acontecendo, eles continuavam com a politicagem, e isso é espantoso.

Houve algum aspecto de Donald Trump que tenha afetado seu retrato de Wilford?
Ele é um alvo fácil. [Risos.] Para ser honesto, eu costumava me divertir assistindo a Donald Trump. Eu o achava muito divertido e bem engraçado. Nunca confiei nele. Não gostava de suas posições políticas, ou das coisas em que ele acreditava. Mas ele falava com um cara comum, e isso atraía o espectador.
Ele também tinha a capacidade de tirar pessoas de seu caminho muito rápido, e rir a respeito. Foi algo que eu percebi e não havia como não aplicar um pouquinho dessa atitude a Wilford. Trump gostava de usar a retórica e as platitudes que muitos presidentes americanos usam, entre os quais Joe Biden. “Estamos todos juntos nessa luta”, ou “a lealdade será recompensada”. Parece mais sinistro, vindo de Wilford, mas é o mesmo tipo de mensagem –soa grandioso, mas não quer dizer coisa alguma.
Wilford é um bom orador. Gosta do som da própria voz, e gosta de se vestir para impressionar quando vai falar a uma audiência. É por isso que ele faz sucesso –é um cara atraente, charmoso e com um bom senso de humor. Mas isso só serve para mascarar sua selvageria, barbárie e crueldade.
Mas existem outros monstros por aí, presentes e passados, que servem como comparações melhores para Wilford. Não acho que Bill Gates seja uma personalidade especialmente atraente –ele com certeza é um homem que gosta de ter o controle, e esse tipo de cara me causa desconfiança. Jeff Bezos, diversos outros, eles têm tantos bilhões, e estão sempre tentando ganhar ainda mais. Não é nem pelo dinheiro. Eles querem continuar tentando chegar ao topo, qualquer que seja esse topo. Wilford é assim. Ele quer ser o figurão, e ter poder absoluto de vida e morte.

Wilford não é exatamente inimigo da ciência, mas só se interessa por ciência de um certo tipo.
Ele é como o Dr. Frankenstein, com sua capacidade de criar monstros! Passou muito tempo pesquisando sobre como resistir a condições de frio extremo, e isso foi demonstrado nos casos de Icy Bob (Andre Tricoteux) e agora de Josie (Katie McGuinness). Ele está só experimentando. É um outro aspecto de Wilford, interferir na vida das pessoas, tratá-las como animais. É a isso que ele dedica boa parte de seu tempo, a buscar coisas que não seriam permitidas em sociedade.

Como seu ritual de banho, quando ele entra na banheira com as pessoas e as convence a cortar os pulsos?
É como um jogo. Kevin (Tom Lipinski) entra em uma espécie de transe, porque admira Wilford a tal ponto. Ele o ama. E Wilford convence Kevin a entrar na banheira, sentar na banheira. E diz que “vou falar sobre o que você fez e explicar por que estava errado. Apanhe essa navalha”. [Risos.] “É como que o mantra dele. “Veja só, um jeito de pôr fim a esse sofrimento. Não precisa se preocupar. Tudo está bem”.
​Foi o que ele fez com Miss Audrey (Lena Hall), também. Ele não liga para as pessoas. Gosta de Miss Audrey, no sentido de ter uma visão fantasiosa e romântica sobre ela, distorcida e luxuriosa. Mas, fora isso, os seres humanos são como formigas para ele.

Houve cenas que você teve dificuldade para aceitar?
A cena de sexo com manga foi difícil para mim e para Lena Hall. Levou as coisas a um novo nível de estranheza. Nós improvisamos na filmagem. Eu estava colocando a manga entre as pernas dela, e ela entre as minhas, e se tornou um encontro sensual, de um jeito pervertido e saboroso.

Da forma pela qual a temporada termina, o trem desacoplado e a locomotiva terão de ser reconectados. O que isso significa para o reino de Wilford?
Talvez venhamos a vê-lo sob uma luz mais razoável. Há momentos em que ele precisa negociar com as pessoas, aceitar algumas de suas exigências e tentar ser diplomático. A situação dele é meio desesperadora, e ele precisa trabalhar com Layton (Daveed Diggs). Isso pode dar à audiência a impressão de que Wilford está cedendo, mas sempre existe um motivo ulterior –nada é simples. Ele é muito astucioso, muito habilidoso em manipulação.

A HBO está desenvolvendo diversas “prequels” de “Game of Thrones”, uma das quais seria sobre a rebelião de Robert.
Você está falando do rei Robert Baratheon? Já ouvi muita coisa sobre diferentes retomadas. Também há uma série de “O Senhor dos Anéis” em produção. Eu talvez esteja velho demais para interpretar Ned Stark de novo. Esse é o problema, não? Depende de quanto tempo eles pretendem recuar na história. Eu adoraria retomar o papel. Talvez consigam fazer comigo o que fizeram com Robert De Niro em “O Irlandês”, fazer algumas alterações. [Risos.] Não vejo por que não.

Tradução de Paulo Migliacci

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