Riz Ahmed Instagram/rizahmed

Kyle Buchanan
The New York Times

Definir aquela como a pior noite de sono que Riz Ahmed teve na vida seria dar a entender que ele conseguiu dormir. Foi a noite anterior à do início da filmagem de “Sound of Metal” –um drama intenso e muito elogiado pela crítica, lançado pela Amazon, que o colocou na parada para o Oscar de melhor ator– e a única coisa que ele podia fazer era ficar deitado olhando para o teto, enquanto a adrenalina percorria seu corpo, privando-o de repouso.

Não foi a primeira vez que Ahmed, 38, teve de lidar com momentos de paranoia antes de começar uma filmagem. Antes de começar a rodar “The Night Of”, “Four Lions” e “O Abutre”, ele se apanhou igualmente insone, inquieto, incapaz de se acalmar.

Mas ainda assim, a cada vez que inicia um filme novo, Ahmed se convence de que desta vez será diferente –talvez a meditação ajude, ou tomar um copo de leite quente antes de dormir. Mas a coisa nunca muda. “Nada faz com que aquele animal se cale quando ele está rosnando”, diz o ator. “E por isso não consigo dormir."

Depois de diversas noites sem repouso, quando começaram as filmagens de “Sound of Metal”, Ahmed começou a elucubrar demais sobre a situação. Talvez não fosse o nervosismo que o estava mantendo acordado, ou o desafio emocionante e apavorante de interpretar Ruben, um baterista punk que está se recuperando do vício em heroína e tem de enfrentar uma perda súbita de audição.

Talvez o problema fosse o colchão. Quanto mais Ahmed se fixava nesta possível resposta, mais certeza ele tinha. O ator mencionou a questão ao diretor do filme, Darius Marder, que pareceu cético, mas, durante uma pausa nas filmagens, Ahmed foi a uma loja para procurar um substituto. “Fui lá e comprei um colchão novo, cara”, ele diz, rindo da situação, agora.

“Compramos dois colchões para ele”, Marder me diria mais tarde. As coisas melhoraram? Um pouco sim, um pouco não. Os novos colchões não ajudaram muito, mas aquela insônia toda na verdade deu resultado. “Quando você está cansado demais para pensar”, explica Ahmed, “precisa deixar que outras coisas assumam o controle”.

E essa sensação de estar tão pressionado por um projeto que é preciso ceder e se deixar guiar pelo instinto puro... bem, embora Ahmed talvez pense demais durante o percurso que o conduz a esse ponto, ele também sabe que é esse o estado que ele muitas vezes está procurando.

“É quando você cede o controle que as coisas interessantes acontecem”, diz. “É quando seu subconsciente começa a falar uma língua que você não conhece, quando você não é capaz de articular as palavras dele, quando seu corpo tem uma inteligência e uma sabedoria às quais você entrega as rédeas. A criatividade é mais física do que percebemos."

Essa é a forma de falar de Ahmed, em torrentes de filosofia passional. Ele oferece uma coleção de ideias para cada questão que lhe é perguntada, e embasa as respostas citando Tolstoy, Rumi e filmes da Pixar. Quando os grandes olhos castanhos de Ahmed se abrem e ele dispara a falar, como aconteceu no começo de janeiro, quando conversamos em vídeo, ele soa como um podcast altamente envolvente, mas executado em rotação 150% mais rápida do que a habitual.

“Ele é um pouco ‘savant’, como um supercomputador”, diz Marder sobre seu astro, que estudou na Universidade de Oxford. Em sua primeira reunião com Ahmed para discutir “Sound of Metal”, Marder determinou que aquele intelecto temível era tanto uma vantagem para o filme quanto um desafio a ser superado.

“Senti que se ele construísse uma fundação tão sólida para o personagem que pudesse deixar de lado aquele lobo frontal incrivelmente capaz que ele tem, e se simplesmente confiasse em seus instintos”, disse Marder, “poderia conseguir um desempenho verdadeiramente transcendente”.

Depois de uma série de papéis coadjuvantes em “Venom”, “The Sisters Brothers” e outros filmes, Ahmed estava ansioso por um grande desafio, e reconheceu em Marder um espírito irmão; o cineasta passou 13 anos à procura de astros que se dispusessem a reproduzir seu comprometimento pleno para com o filme.

“Eu basicamente tentava apavorar os atores, para determinar se eles estavam à altura da tarefa”, diz Marder. “Disse a uma das atrizes que ela teria de raspar a cabeça, porque sabia que aquilo era algo que ela não faria”. (Embora o principal papel feminino de “Sound of Metal” seja interpretado por Olivia Cooke, atores como Matthias Schoenaerts e Dakota Johnson estiveram envolvidos no projeto em algum momento.)

Marder assustava os atores para determinar se eles aproveitariam a oportunidade de pular fora, e a maioria deles o fez. Mas Ahmed queria um diretor que fosse capaz de forçá-lo a sair de sua zona de conforto. “Acho que ambos gostamos da intoxicação de nos sentirmos avassalados por uma obsessão criativa”, disse Ahmed. “Gostamos da sensação de não encontrar o fundo da piscina com os pés”.

Assim, Ahmed, que vive em Londres, se deslocou para Nova York em 2018 e passou oito meses se preparando para o filme. A cada dia, ele passava duas horas estudando a linguagem de sinais americana, duas horas praticando na bateria, duas horas cuidando do corpo com a ajuda de um personal trainer, e o resto do tempo ele passava com seu professor de atuação.

“Você se prepara como um psicopata obsessivo”, diz Ahmed, “e depois chega ao set como um cara que nem sabe amarrar os sapatos e espera para ver o que acontece”. Mas a avidez dele pelo trabalho muitas vezes colidia com sua tendência a pensar demais sobre as coisas. “Tenho de lhe dizer que o tempo que antecedeu o começo das filmagens foi um período de muito medo”, diz Marder. “O processo de Riz é realmente intenso. Não foi um momento de relaxamento."

Marder muitas vezes recusava os pedidos do ator para analisar ainda mais o roteiro e, no dia anterior ao início da filmagem, enquanto Ahmed se preparava para sua noite insone, Marder apareceu para visitá-lo e disse que não permitiria que o ator assistisse aos resultados diários das filmagens. “Ele ficou furioso”, diz Marder. “Disse que aquilo era parte de seu processo, que ele precisava ver as cenas do dia, precisava analisá-las, e eu respondi que, bem, isso não aconteceria."

O impasse só foi resolvido quando Marder disse: “Riz, eu não vou facilitar sua loucura”. Depois de passar meses imerso na linguagem de um viciado em recuperação, a ideia fez Ahmed rir. Eles se despediram com um abraço, e o ator, cansado mas disposto, apareceu no set no dia seguinte pronto a confiar em seus instintos e se entregar ao personagem.

O resultado foi o melhor desempenho de sua carreira, íntimo, persuasivo e dilacerante. E apesar de toda a prática de Ahmed para que seu trabalho fosse verossímil em termos físicos –cada um de seus solos de bateria e cada uma de suas exclamações é crível–, o ponto que mais convence o espectador, em seu desempenho, são seus olhos dolorosamente vulneráveis. Como ator, ele não precisa de muito mais do que isso.

“Para crédito de Riz, ele confiou em mim”, diz Marder. “Trabalhou por impulso, sem analisar demais. Foi apavorante, mas foi um desempenho muito vivo”. Perguntei a Marder se ele havia chegado a alguma conclusão sobre a tensão central de seu protagonista. O que significa, quando um homem obcecado por controle, como Ahmed, sente tamanha atração por projetos que ele espera o arrastem como uma torrente?

Marder riu, porque uma ideia lhe ocorreu pela primeira vez. “Bem, acho que ele talvez possa ser a perfeita definição de um artista”. Abaixo, segue uma lista dos projetos de que Riz Ahmed participou em seu primeiro ano de sucesso, 2016:

> Duas séries de TV, “The Night Of” e “The OA”.

> Quatro longas, entre os quais dois blockbusters, “Rogue One: Uma História Star Wars” e “Jason Bourne”.

> Um ensaio, escrito para o best-seller “The Good Imigrant”.

> E dois grandes momentos musicais, uma participação como convidado em uma gravação das canções do musical “Hamilton”, e o álbum “Cashmere”, lançado por ele e pelo rapper Heems como parte de sua dupla de hip-hop, Swet Shop Boys.

É uma agenda pesada demais, para o bem e para o mal. Em dezembro daquele ano, Ahmed recorreu ao Instagram para contemplar suas realizações, e parecia exausto: “Um ano atrás, por diversas razões, eu não estava certo de que continuaria a fazer isso”, ele escreveu. “Fui forçado a compreender, por alguns momentos muito duros, que não temos controle sobre nossas vidas. Isso me deprimiu, mas, por não ver outro caminho à frente, tive de abraçar esse desamparo."

No Zoom, quatro anos mais tarde, li a frase para Ahmed, que reagiu piscando os olhos duas vezes. “Quando escrevi isso?”, ele perguntou. “Não me lembrava. Uau. Uau. Eu estava meio acabado.”

Ahmed sempre tenta extrair o máximo possível de seus trabalhos. “Como Ruben, dependo de me manter obsessivamente ocupado”, diz. Uma carreira de sucesso como ator praticamente exige um estilo de vida itinerante, e isso ocorre naturalmente para Ahmed, que cresceu em Wembley, Londres, com um pai que trabalhava para a marinha mercante do Paquistão. “Ele passava muito tempo longe de casa, e talvez tenha incorporado essa ideia de que aquilo que você faz, como um homem trabalhador, é sair de casa e cobrir o máximo terreno possível no planeta."

Ou talvez, ponderou Ahmed, um filho de imigrantes sempre vá abrigar um sentimento nato de prazer de viagem. “Há aquela narrativa constante de que o lar é sempre em outro lugar, o lar é o próximo lugar ao qual você chegará”, diz. “Mas se o lar é sempre o próximo lugar, você está montando sua barraca sobre a areia movediça. O trabalho em si talvez seja o lugar em que você vive, quem sabe."

E foi lá que ele viveu, trabalhando constantemente, fatigantemente, e no processo se tornando o primeiro muçulmano e o primeiro ator com origens no sul da Ásia a conquistar um Emmy como ator por seu papel transformador, o de um jovem acusado de homicídio em “The Night Of”. Mas àquela altura, depois de ser arrastado em tantas direções diferentes, Ahmed começou a perder seu centro. E pior, o espírito criativo que o move havia começado a parecer menos uma criatura selvagem e mais um animal de circo.

“Foi algo para o que me dispus a treinar diligentemente, a fim de receber validação dos outros”, diz Ahmed, “quer seja o aplauso da audiência, ou os elogios de um diretor, ou os tuítes dos fãs de música, ou pensar sobre o que as pessoas de minha comunidade precisam, vindo de mim”. E encarar tarefas demais o deixou alienado das coisas que amava fazer, e o levou a experimentar culpa por se sentir dessa maneira. "Acho que isso é subproduto de diversas coisas”, diz, “como sentir o peso da representação sobre meus ombros, e perceber que ocupo um espaço que outras pessoas não ocupam”.

Em seu ensaio para “The Good Immigrant”, Ahmed escreveu sobre o peso de ser discriminado racialmente em aeroportos e audições, e sobre as instruções implícitas que ele dava a si mesmo, no sentido de deixar na porta parte de quem ele era, para que sua entrada fosse admitida. “É como lhe dissessem que você não basta”, diz o ator. “Você não tem a forma, tamanho e cor certos, você não é o que as pessoas esperam, você não se enquadra a qualquer desses arquétipos."

Mas por que ele não deveria ter a oportunidade de se dar inteiramente a alguma coisa, em lugar de se contorcer para se enquadrar nas caixinhas existentes? “A coisa que não existe na cultura é uma pessoa como eu”, diz Ahmed, entusiasmado. “Personagens como Dev Patel não existem, mano! Dev Patel é um indiano com 1,95 metro de altura, faixa preta, nascido no noroeste de Londres, e não vejo um personagem como ele nas telas."

É por isso que Ahmed considerou a especificidade esmagadora de seu papel em “Sound of Metal” tão atraente. Ele sabe que um homem como Ruben –um americano surdo, viciado em heroína e com os cabelos tingidos de loiro, com um corpo musculoso e todo tatuado– pode parecer muito distante de um ator e rapper tagarela que estudou filosofia, política e economia em Oxford.

“Mas é assim que você estende a cultura, se incluindo nela”, afirma Ahmed. E a oportunidade de colocar todas as partes de si mesmo no papel também lhe rendeu dividendos pessoais: “Sinto-me mais conectado agora do que em qualquer momento do passado, ao fazer uma viagem pelo espaço e tempo e habitar outro corpo. É preciso sair de casa para voltar para casa”.

Houve lições aprendidas ao interpretar Ruben, e lições que ele terá de continuar a reaprender. Seu último ano, embora temperado pela pandemia, foi ainda assim movimentado: Ahmed lançou álbum conceitual de hip-hop, “The Long Goodbye”, filmou “Invasion”, contracenando com Octavia Spencer, e se casou com a romancista Fatima Farheen Mirza.

Vai sempre haver muita coisa acontecendo na vida de Riz Ahmed –esse é o tipo de pessoa que ele é. Mas Marder percebeu uma mudança no ator, quando eles terminaram de rodar “Sound of Metal”. “Acho que o projeto marcou uma encruzilhada em sua vida, como artista e como pessoa”, diz Marder. “Talvez não seja por acaso que ele está casado, agora. Ele está passando por esses grandes momentos na vida, essas grandes mudanças, e se entregando a mais alguma coisa que está completamente fora de seu controle."

Ahmed concorda. O desejo de se sobrecarregar, diz, é um lembrete de que ele precisa viver mais o momento e menos dentro de si mesmo. "Se não controlarmos coisa alguma, talvez cada coisa em nossa vida seja um presente”, diz Ahmed. “Uau! Isso é maravilhoso, sabe?” E ele não estava falando de presentes como os que a temporada de prêmios pode trazer, por exemplo o Gotham Award como melhor ator que ele conquistou por “The Sound of Metal”, no começo de janeiro.

“Estou falando do passarinho no beiral da janela, cara”, diz Ahmed. “Ou de uma árvore. Ou desse hausto de ar”. Ele fechou os olhos, inspirando profundamente, e sorriu. “Ou da forma pela qual o ar resfria o interior do meu corpo ao entrar."

Tradução de Paulo Migliacci

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