Cenas do filme Soul Divulgação

Charles Solomon

Todos os longas da Pixar trazem inovações técnicas, mas “Soul”, que estreou recentemente no serviço de streaming Disney+, derruba barreiras importantes. O filme se centra no primeiro protagonista negro do estúdio, Joe Gardner, um pianista de jazz que vive aquele que pode ser o dia mais importante de sua vida, e a equipe de criação inclui o primeiro codiretor negro na história da Pixar, Kemp Powers.

Em geral, histórias e talentos negros continuam a ter representação baixa nos filmes de animação americanos, tanto nas telas quanto por trás delas. Ouve-se astros negros em papéis coadjuvantes (Samuel L. Jackson como o Gelado de “Os Incríveis”), ou interpretando animais (Chris Rock e Jada Pinkett Smith na série “Madagascar”). Mas “Soul” é apenas o quarto longa de animação na história dos Estados Unidos a fazer de personagens negros seus protagonistas, depois de “Bebe’s Kids” (1992), “A Princesa e o Sapo” (2009) e “Homem-Aranha no Aranhaverso” (2018).

“Para mim, Joe representa muita gente que não está sendo vista agora”, disse Jamie Foxx, que faz a voz de Gardner. "Joe é todos nós, independentemente da cor. Ser o primeiro protagonista negro em um filme da Pixar é uma bênção, especialmente em um momento como o atual, no qual todos podemos usar um pouco mais de amor e de luz”.

Sabendo que seu trabalho em “Soul” seria esquadrinhado minuciosamente, o diretor Pete Docter, o roteirista Mike Jones e a produtora Dana Murray, que são brancos, trabalharam para criar um personagem crível como negro, mas que evitasse os estereótipos do passado.

A jornada de Joe Gardner –e do filme “Soul”– começou quatro anos atrás, quando Docter se sentiu deprimido depois de conquistar seu segundo Oscar, por “Divertida Mente”. Murray recorda que “Pete estava se questionando, queria saber se aquilo era tudo, se devia só repetir o que já tinha feito. Não sei se era uma crise da meia-idade ou se era mais um momento de ‘o que é que estou fazendo?’ por acaso surgido na meia-idade”.

Docter começou a pensar sobre a origem das personalidades humanas, e sobre se as pessoas nascem destinadas a fazer certas coisas, acrescentou Jones. “Em nossa primeira reunião, ele me disse para pensar em uma história que transcorresse em um lugar além do espaço e do tempo, no qual as almas recebem suas personalidades”.

Docter disse que ele e Jones trabalharam por dois anos para desenvolver Joe, professor de música em uma escola de ensino médio em Queens, e músico. Mas algo parecia estar faltando. “Queríamos alguém que pudesse falar autenticamente sobre esse personagem e trazer alguma profundidade a ele”, disse Docter. “Foi aí que trouxemos Kemp Powers” para ser codiretor do filme.

O histórico de Powers está no jornalismo e no cinema “live action”. Ele adaptou para o cinema uma peça de sua autoria, “One Night in Miami”, que também estreou no mês passado. Mas se sentiu confortável em sua nova mídia. “A animação é uma forma muito colaborativa, progressiva, que lembra muito o teatro ao vivo”, ele disse. Powers foi inicialmente contratado por 12 semanas como roteirista, mas seu contrato foi estendido. “Mais tarde fui promovido a codiretor, porque Pete realmente me envolveu no processo”.

Mesmo assim, Powers compreendia os potenciais percalços de sua função. “Algumas pessoas talvez apreciem a ideia de dizer que falam pelos negros, pelos americanos negros, seja lá o que for. Não sou uma dessas pessoas”, ele disse, acrescentando que “sou com certeza um homem negro, e conheço minha história, mas ao mesmo tempo não posso falar por todos os homens negros que são de Nova York, não posso falar por minha geração”.

Murray disse que a Pixar reconheceu que, “se Joe vai ser negro, precisamos de muita ajuda”. Ela disse que Britta Wilson, a vice-presidente de estratégias de inclusão da empresa, ajudou a criar um “conselho cultural” interno formado por alguns dos empregados negros do estúdio, um grupo muito diversificado em termos de função, gênero e idade. “Também falamos com muitos consultores externos e trabalhamos com organizações negras a fim de garantir que contássemos a história de forma autêntica e verdadeira”.

Powers disse que todos eles estavam conscientes da especificidade de que o personagem Joe necessitava. “Tratar a experiência negra como monolítica torna as coisas mais fáceis. A presença de uma pessoa negra pode servir como carimbo, como desculpa para não tentar com mais afinco contar a história certa”.

Ele recordou que consultores individuais trouxeram pontos de vista diversos. “Se reuníamos 20 pessoas negras em uma sala e fazíamos uma pergunta, recebíamos 20 respostas diferentes”. Os debates deles às vezes “se dividiam em linhas geracionais, o que era interessante. Coisas que para mim são aceitáveis podem ofender a geração mais jovem. Todo mundo tem sua posição, o que torna o trabalho exponencialmente mais difícil, e aquele cuidado era necessário”.

Algo que complica mais o trabalho era o fato de que a animação é uma mídia caricatural. Nenhum ser humano é tão achatado e anguloso quanto Carl em “Up - Altas Aventuras”, da Pixar, mas as audiências o aceitam como um velho ranzinza. Para “Soul”, a equipe da Pixar batalhou para criar personagens que fossem reconhecíveis como negros, mas buscou evitar qualquer coisa como os estereótipos racistas dos velhos desenhos animados, de Mammy Two Shoes, a empregada negra nos desenhos de Tom e Jerry, à animação com bonecos “Jasper”, de George Pal.

Docter, que já escreveu sobre a história da animação, reconheceu que “existe um histórico longo e doloroso de imagens caricaturais e racistas que foram usadas para zombar dos americanos negros”.

Ele recorda que, quando estava dirigindo “Up - Altas Aventuras”, se preocupava com a recepção ao desenho de Russel, um escoteiro com ascendentes asiáticos. Docter disse que Peter Sohn, outro diretor da Pixar, descendente de coreanos, o aconselhou da seguinte maneira: “Os olhos coreanos têm formato diferente dos caucasianos. Olhe para mim e desenhe o que vê. A verdade não é racista”.

Power concorda em que existe uma diferença importante entre “usar e expressar orgulho por esses traços e zombar desses traços característicos”. A Pixar, ele disse, se preocupa com as imagens lamentáveis usadas no passado do cinema de animação. Ao desenhar personagens atraentes mas estilizados, os artistas “tomaram cuidado para não torná-los ofensivos. Ao mesmo tempo, não queriam que eles fossem apenas personagens brancos de pele marrom. Queríamos que eles tivessem aparências distintivas, para que não fossem personagens tediosos e monótonos”.

Para criar essas imagens, os artistas e técnicos da Pixar precisaram capturar a textura do cabelo dos negros e a maneira pela qual a luz se reflete nos diversos matizes de pele negra. Murray disse que eles recorreram ao diretor de câmera Bradford Young, cujos trabalhos incluem “Han Solo: Uma História Star Wars”, como consultor.

Encontrar a voz que se encaixa melhor em um personagem de animação é um desafio tão complicado quanto encontrar o ator certo para um filme. “Você tem uma voz na cabeça e escreve pensando nela”, explicou Jones. “Precisávamos que Joe tivesse ambição, que ele quisesse ser músico no nível mais elevado da profissão, mas também precisávamos que ele se empolgasse ao ensinar o que ama, o jazz, aos seus alunos, e Jamie nos deu tudo isso”.

Embora Foxx já tenha dado voz a outros personagens de animação, ele teve de ajustar seu trabalho. “Quando cheguei à cabine de gravação, dizia minhas linhas fazendo caras e gestos”, disse Foxx. “E eles me diziam: Jamie, vamos tentar de novo. E lembre-se de que não podemos ver você”.

Durante o filme, Joe discute –e cria laços– com uma alma recalcitrante chamada 22, que se recusa a entrar em um corpo humano. No papel de 22, Tina Fey considerou que a interpretação puramente vocal era libertadora. Ainda que ela também já tenha feito trabalhos de voz no passado, “foi bom me libertar da preocupação com minha aparência. Mesmo como comediante, você sempre se preocupa um pouco com encontrar sua melhor luz e ter uma postura correta. É muito libertador poder não fazer isso”. (O relacionamento ente Joe e 22 se complica mais e mais, mas nenhum dos atores quis revelar qualquer coisa que possa estragar a trama.)

Refletindo sobre a criação de “Soul”, Powers disse que “quando alguém me disse que eu era o primeiro diretor negro na Pixar, eu não acreditei. Pete disse –e minha esperança é que isso se confirme– que o que aconteceu é um indicador de mudanças que serão muito rápidas”.

Ele aponta que há mais artistas de animação não brancos e mais mulheres no ramo do que há 15 ou 20 anos. “É triste que tenha demorado tanto, mas fico feliz por a hora ter chegado”.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem