Lauren Graham como Lorelai e Alexis Bledel como Rory

Lauren Graham como Lorelai e Alexis Bledel como Rory Saeed Adyani/Netflix

Saul Austerlitz

Muito tempo atrás, em uma era e lugar distantes nos quais as pessoas podiam desfrutar livremente da companhia de desconhecidos, mais exatamente em dezembro de 2019, uma enorme multidão se reuniu no estúdio da Warner Bros. em Burbank. Havia uma disputa entre o “Time Jess” e o “Time Dean”, cujos membros estavam identificados por “buttons”, e embora o guia da excursão repetisse seu roteiro ensaiado sobre “Harry Potter” e o Batman, os participantes daquela visita estavam lá só para uma coisa: visitar Stars Hollow.

O estúdio havia decidido recriar a excêntrica cidadezinha do Connecticut que serviu de cenário à série “Gilmore Girls”, em cartaz entre 2000 e 2007, e havia filas diante do Luke’s Diner e do coreto da cidade, para que empregados da Warner fotografassem os visitantes. Era tudo falsidade e fingimento, com mercadorias temáticas espalhadas pelo lugar para que os fãs comprassem (e eu adquiri minha cota, é claro); no entanto, a experiência serviu como lembrete da paixão com que os fãs ainda se apegam a essa série gentil, engraçada e doce sobre família e comunidade.

Outubro foi o 20º aniversário da estreia de “Gilmore Girls”, e esta semana uma retomada lançada em 2016, “Gilmore Girls: a Year in the Life”, será exibida como uma minissérie especial pela rede CW, onde tudo começou, na época em que ela ainda era conhecida como WB. (Ainda que “Gilmore Girls: A Year in the Life” seja uma produção da Netflix.) A transmissão em rede aberta pela CW é uma tentativa de ocupar o buraco que a Covid-19 deixou na grade de programação da companhia, mas também é prova do apelo permanente de “Gilmore Girls”.

A série estreou no dia 5 de outubro de 2000, e o mês passado trouxe outros sinais de seu status como um lembrete muito querido da era do “Bug do Milênio”. Alguns dos atores da série, como Keiko Agena e Yanic Truesdale, foram entrevistados no programa “Good Morning America” para celebrar o 20º aniversário da série. A criadora de “Gilmore Girls”, Amy Sherman-Palladino, e seu marido, Daniel Palladino, roteirista e produtor executivo do programa, divulgaram um comunicado agradecendo a “um elenco que mudou nossas vidas”. A estrela de “Gilmore Girls”, Lauren Graham, homenageou os fãs da série no Twitter: “Sua amabilidade e devoção à série me deram imensa alegria ao longo dos anos”.

Sherman-Palladino, cujo talento para diálogos engenhosos e nuanças emocionais cuidadosamente calibradas foram os ingredientes essenciais para o sucesso da série, disse que, diante da pandemia, ela tinha esquecido do aniversário, até que alguém a lembrou da data, alguns meses atrás.

“Celebrar aniversários não é prioridade, no momento”, ela disse. “O importante é impedir que as pessoas tussam e espirrem na sua direção”. (Numerosos veteranos de “Gilmore Girls” responderam com a mesma palavra, quando perguntei como se sentiam sobre o aniversário: “Velhos”. Sherman-Palladino disse que “é como se já estivesse na hora de ligar para o asilo dos artistas aposentados e reservar um quarto”.

Mas ela continua gostando de falar a respeito das origens da série, que ainda é sua criação mais famosa, mesmo em uma carreira que inclui “Bunheads”, uma série de curta duração mas que recebeu críticas muito favoráveis, e “The Marvelous Mrs. Maisel”, para a Amazon, que conquistou múltiplos prêmios Emmy.

“Sempre que você faz um trabalho que leva as pessoas a conversarem a respeito do episódio durante toda a semana, é uma delícia”, ela disse.

Pouca gente teria previsto em 2000 que “Gilmore Girls” perduraria dessa maneira. Durante seus sete anos em cartaz, a série jamais foi um enorme sucesso. Não conquistou uma audiência de massa, jamais foi indicada a um Emmy nas principais categorias de premiação, e jamais foi tratada como uma das séries obrigatórias daquele período. Mas divulgação boca a boca, vendas de DVDs, a nostalgia da geração milênio e o poder da Netflix, que produziu a retomada da série em 2016 depois de adquirir os direitos de streaming das temporadas originais, levaram novos fãs, alguns dos quais nem haviam nascido quando a série estava em cartaz, a descobrir Lorelai e Rory.

“Não passa um dia sem que uma menina de 14, 15 ou 16 anos me diga que está assistindo à série”, disse Truesdale, que interpretava Michel, o colega de trabalho ranzinza de Lorelai.

Na década de 1990, Sherman-Palladino foi redatora da série “Roseanne”, grande sucesso na rede de TV ABC –antes que a criadora da série, Roseanne Barr, “começasse a defender teorias da conspiração”, ela diz. No entanto, ela terminou passando por “um gigantesco colapso” e percebeu que não queria mais trabalhar em comédias de meia hora de duração. O marido dela, Daniel Palladino, na época um dos roteiristas de “Family Guy”, a convenceu a tirar algum tempo de folga e tentar escrever alguma coisa original. Não havia grandes distrações para desviar sua atenção.

“Foi na época em que Courtney Love estava namorando com Edward Norton, e ela tinha alugado uma casa do outro lado da rua”, disse Sherman-Palladino. “Às três da tarde, a cada dia, eu via Edward Norton chegar de carro e Courtney Love sair da casa de camisola e agarrá-lo na entrada; foi minha maior distração por algumas semanas”.

A ideia original da série era contar a história de uma adolescente que ama livros, e cuja melhor amiga é a mãe, que tem 30 e poucos anos. O cenário seria uma cidadezinha idílica no Connecticut povoada por gente excêntrica e maluca, e o tom seria uma mistura de comédia e drama, tudo isso com um ritmo de diálogo alucinante.

“As fãs com quem converso em geral se enquadram em duas categorias”, disse Sheila Lawrence, que foi roteirista de “Gilmore Girls” por muito tempo. “Ou elas têm uma relação parecida com a de Lorelai e Rory ou elas adorariam ter com suas mães uma relação parecida com a Lorelai e Rory”.

Depois que a série foi adquirida pela rede WB, Sherman-Palladino insistiu em esperar para estrear até que encontrasse os intérpretes ideais para cada papel, independentemente de sua experiência ou fama anteriores. Sherman-Palladino selecionou Graham para o papel de Lorelai de preferência a diversas atrizes mais conhecidas, ao menos em parte por conta da argúcia literária da atriz.

“Ela foi a primeira atriz que pronunciou o nome ‘Kerouac’ corretamente”, disse Sherman-Palladino ao marido depois de ver a audição de Graham.

Para a criadora da série, Graham representava um retorno bem-vindo a uma era de atrizes cativantes e loquazes. “Na era da comédia ‘screwball’, se Carole Lombard não pudesse fazer um papel, Lauren seria capaz de substitui-la”, ela disse.

“Gilmore Girls” sempre insistiu teimosamente na riqueza das coisas banais. A série “Roseanne” havia ensinado um lema importante a Sherman-Palladino, por cortesia do produtor Bob Myer: “Torne o que é grande pequeno e o que é pequeno grande”. Foi o que ela tentou fazer em sua série. Há episódios sobre Lorelai se vestir de modo inapropriado em uma visita à escola esnobe da filha, e sobre Rory tirar uma nota baixa em um exame. “Gilmore Girls” sempre evitou deliberadamente tramas que Sherman-Palladino descreve como “do tipo ‘quem matou Sookie?’”.

O tom foi estabelecido desde o momento em que a equipe de roteiristas foi selecionada. “Amy nos falou sobre a série”, disse John Stephens, que foi um dos roteiristas da série por quatro temporadas. “Ela explicou que a série era sobre uma mãe e filha que também são melhores amigas, além de serem mãe e filha, e explicou que todos os conflitos e dinâmicas precisavam girar em torno desse ponto”.

Embora a série compartilhasse de uma estética visual refinada com os demais programas da WB na época, como os dramas adolescentes “Dawson’s Creek” e “One Tree Hill”, era o texto que a distinguia. Os roteiros eram “muito sofisticados e brilhantes, e estávamos trabalhando com uma rede de TV nova, cheia de séries para adolescentes”, disse Jamie Babbit, que dirigiu 18 episódios da série.

A série foi complicada para os atores, inicialmente, porque eles precisavam memorizar roteiros 20 páginas mais longos que os de uma série convencional de uma hora de duração. Para complicar ainda mais a situação, Sherman-Palladino insistia em que os atores dissessem as linhas exatamente da maneira escrita. “Era uma série em que, se você mudasse uma palavra, a cena era cortada”, disse Truesdale.

Os atores também tinham de se ajustar à crença de Sherman-Palladino em que atores de uma série passada em 2000 tinham de falar como Cary Grant e Rosalind Russell.

“Os comentários eram: ‘Foi ótimo. Será que você consegue repetir, mas um pouco mais rápido’?”, disse Agena, que interpretava Lane, a melhor amiga de Rory. George Bell, o instrutor de diálogo da série, pedia que os atores convidados para papéis em “Gilmore Girls” “gilmorizassem” seu desempenho. Quando eles olhavam para ele sem entender a instrução, ele explicava: “Acelere. Você precisa acelerar”.

De acordo com Babbit, o diálogo era rápido demais para permitir edição tradicional. “Era como assistir a uma partida de tênis de mesa”, ela disse. A série preferia colocar os dois personagens no quadro e permitir que eles falassem ininterruptamente, em cenas que requeriam cinco ou 10 páginas de roteiro, em lugar de uma ou pouco mais, a média das demais séries.

Scott Patterson, que interpretava Luke, o dono da lanchonete local e aspirante a parceiro romântico de Lorelai, disse que ele e Graham logo perceberam que teriam de parar de fumar, se quisessem sobreviver. “Ela precisava de fôlego, e eu também”, ele disse.

Alterações de diálogos escritas na hora, além do volume e da velocidade das falas, mantinham os atores em constante alerta. Patterson se lembra de um dia de gravação que começou com “uma cena de 10 páginas que os roteiristas terminaram de escrever às 6h30min”, ele disse. “Lauren e eu estávamos na maquiagem, trocando olhares apavorados. E aí saímos de lá e fomos trabalhar”.

Alexis Bledel, que era modelo e universitária e tinha experiência limitada na televisão, precisou de mais ajuda do que os colegas, no começo, e não sabia nem para que câmera tinha de olhar. “Lembro-me de ter dito a Lauren, a certa altura, que adorava a maneira pela qual ela parecia estar sempre tocando carinhosamente na filha”, disse Kelly Bishop, que interpretava a matriarca intransigente da família, Emily Gilmore. “E ela respondeu que tinha começado a fazer isso para ajudá-la a encontrar sua marca”.

A cultura popular era a corrente sanguínea da série, e as conversas entre Rory e Lorelai, recheadas de alusões rapidíssimas a maus programas de TV e ótimos livros, bem como a épocas distantes, tinham posição central em “Gilmore Girls”, oferecendo aos fãs uma utopia de amor familiar enraizada firmemente no apreço por “Cop Rock”. Um episódio qualquer podia trazer referências a Nikolai Gogol, “The Brady Bunch Variety Hour”, a banda punk Agnostic Front, a cantora Nico, colaboradora do Velvet Underground, “Um Violinista no Telhado”, David Hockney e a guerra franco-prussiana.

“Com certeza haveria uma menção a Oscar Levant no diálogo, e se você não sabe quem é ele, tudo bem, é só pesquisar”, disse Sherman-Palladino.

Talvez em parte porque a série era exibida pela rede WB, que era estreante, e enfrentava sucessos imensos de audiência com o “Friends” e “American Idol”, e em parte por ser vista como um programa “de menininhas”: em uma era que celebrava anti-heróis homens e de meia-idade como Tony Soprano, “Gilmore Girls” nunca recebeu muita atenção nas premiações televisivas. A série recebeu só uma indicação ao Emmy, por melhor maquiagem, e ganhou.

“Estávamos sempre chocados por a academia nos ignorar, e por nunca termos recebido indicações para a série ou os atores”, disse Patterson. “Não que a gente estivesse trabalhando para ganhar prêmios, mas todo mundo gosta de ser reconhecido, de levar crédito”.

O elenco e a equipe ficaram especialmente chateados por Graham jamais ter recebido a indicação ao Emmy que, na opinião deles, ela mais que merecia. “Não consigo nem pensar em qualquer outra pessoa que fosse capaz de fazer o que ela fez”, disse Lawrence. “E odeio que ela não tenha recebido um reconhecimento substantivo por isso”.

Alguns veteranos de “Gilmore Girls” atribuem a falta de prêmios da série ao sexismo. Séries sobre os triunfos e dores das mulheres até recentemente costumavam ser tratadas como não muito interessantes. “O setor é realmente conservador, e não sabe o quanto algo é excelente, especialmente se foi criado e escrito por mulheres e sobre mulheres”, disse Babbit.

“Gilmore Girls” completou 20 anos em um período no qual estamos todos trancafiados em nossas casas, distanciados e ansiosos, esperando boas notícias e o retorno futuro da vida comunitária. Para muitos fãs, Stars Hollow sempre foi um refúgio feliz, e o é ainda mais, agora.

“Estou na Califórnia agora, onde não se pode respirar, não se pode sair à rua e encontrar os amigos, e a eleição está chegando”, disse Stephens em outubro. “O mundo às vezes é apavorante, mas, em Stars Hollow, você pode visitar a cidade e o mundo continua a ser maravilhoso e adorável”.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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