Cinema e Séries

Como a série 'One Day at a Time' escapou do cancelamento da Netflix

Comédia familiar foi resgatada pela Pop TV e estreou 4ª temporada nos últimos dias

One day at a time
Cena da série "One Day at a Time" - Ali Goldstein/Netflix
Maureen Ryan
Pasadena

Dizer que o elenco de "One Day at a Time" ficou chocado quando a Netflix cancelou a série, em março de 2019, é muito pouco. Como os demais atores, Stephen Tobolowsky, que interpreta o médico Leslie Berkowitz na série, recebeu a notícia pouco depois que ela começou a circular (e a ganhar destaque no Twitter).

Ele estava para começar a rodagem de uma cena de "The Goldbergs", uma série da rede ABC, e disse que tinha tanta certeza de que "One Day at a Time" iria para a quarta temporada que atendeu o telefone alegremente, quando recebeu uma ligação dos responsáveis pelo programa, Gloria Calderón Kellett e Mike Royce.

"Atendi o telefone e Gloria disse que eles tinham cancelado a nossa série. E aí alguém bateu na porta para me dizer que a cena que eu ia filmar estava preparada." Tobolowsky teve dificuldades para ser engraçado diante das câmeras, depois de receber uma notícia que lhe pareceu um soco no estômago. "Eu fiquei me sentindo traumatizado, achando que precisaria de muita ajuda profissional para passar por aquele momento", ele recorda.

Justina Machado, que interpreta a mãe Penelope Alvarez na comédia, disse que quando seus amigos ouviram a notícia, ficaram “muito furiosos e sentidos”.

Parte da raiva, disse Machado, se relacionava ao que a notícia representava. A jornalista Vanessa Erazo escreveu, em um artigo de opinião para o jornal The New York Times publicado pouco depois do cancelamento, que os hispânicos respondem por 18% da população dos Estados Unidos, mas que representavam apenas 7,2% dos papéis disponíveis nas séries dos serviços de streaming –e proporção ainda menor dos papéis nas redes abertas e de TV a cabo.

“São as histórias que estamos contando e a maneira pela qual as pessoas se viam representadas na tela” que fizeram do cancelamento uma questão mais grave, disse Machado em entrevista concedida em companhia de outros membros do elenco durante um evento da Associação de Críticos de Televisão dos Estados Unidos, em janeiro. A série havia se tornado “algo mais que um emprego”.

Todd Grinnell, que interpreta Schneider, o afável senhorio da série, apontou para a ironia de ser cancelado pela Netflix, “a empresa que em geral salva séries quando as redes as jogam fora”. “Nós não fomos jogados fora”, ele acrescentou. “Mas isso era o reverso”. Rita Moreno, a avó na série, discordou. “Sim, fomos jogados fora”, ela disse, de um jeito que lembrava muito a matriarca indomável que ela interpreta na série.

Os protestos na mídia social foram intensos, no momento do cancelamento, e o mesmo vale para a resposta dos críticos, que escreveram dezenas de artigos sobre o cancelamento e sobre os motivos pelos quais a série merecia ser salva. Mas a reação mais importante foi a da Sony Pictures Television, a produtora da série.

No dia em que os responsáveis por “One Day at a Time” foram informados de que a Netflix não queria uma quarta temporada, disse Royce, executivos da Sony “nos ligaram e disseram que colocariam a série em algum lugar”.

O lugar terminou sendo a Pop TV, canal de cabo controlado pela ViacomCBS e conhecido por sua excêntrica série canadense “Schitt’s Creek”. “One Day at a Time” estreou em sua casa nova na última semana, pouco mais de um ano depois de seu corte pela Netflix. A quarta temporada começa com a família respondendo a perguntas de um pesquisador de recenseamento interpretado por Ray Romano (e zombando um pouquinho da Netflix).

O fato de que “One Day at a Time” tenha sido cancelada, para começar, parece surpreendente, se considerarmos sua audiência dedicada e premissa versátil. O cancelamento, depois de 39 episódios, foi devastador porque “na verdade mal tínhamos começado”, disse Royce, que foi produtor executivo da série “Everybody Loves Raymond” e de outros programas.

Se uma comédia familiar faz sucesso, a audiência quer “viver naquele mundo e conviver com aquela família”, disse Royce. “Mas essa convivência foi cortada."

A Netflix, que se recusou a comentar para este artigo, indicou no momento do cancelamento que, por mais dedicada que fosse a audiência, seu tamanho era insuficiente. Em um anúncio no Twitter sobre o cancelamento, a Netflix, que não divulga números detalhados de audiência sobre seus programas, afirmou simplesmente que “número insuficiente de pessoas assistia à série para justificar uma nova temporada”. Moreno disse que essa declaração a levou a imaginar quais seriam os números que satisfariam a empresa. “Nós não tínhamos essa informação”.

Mas onde a Netflix via uma série de desempenho insuficiente, David Nevins, vice-presidente de criação da CBS e presidente-executivo da Showtime Networks, viu uma oportunidade. Ele havia assumido a supervisão da Pop TV dias antes que o cancelamento fosse anunciado.

“Acredito que a Netflix claramente tenha um modelo sob o qual eles se veem extraindo valor das séries nas duas primeiras temporadas, e não há muito incentivo a pensar no longo prazo”, ele disse. “Essa pode ser a decisão certa em muitos casos”, ele acrescentou, mas “o programador em mim sabia que existia potencial inexplorado, ali”.

No debate sobre seu destino, “One Day at a Time” tinha diversas coisas em seu favor: um grupo dedicado e ativo de fãs, repórteres e críticos que torciam pela sobrevivência da série, e criadores e um elenco que sabiam como se relacionar com a mídia. E em um momento no qual as audiências – e muitos executivos – valorizam representações nuançadas de grupos historicamente marginalizados, a série era uma das poucas com um elenco predominantemente hispânico, e com diversos personagens LGBT.

“Eu decidi não repousar até que encontrássemos um novo lar para a série”, disse Jeff Frost, presidente da Sony Pictures Television. “Não é apenas uma série de entretenimento. Vai além disso”.

Apesar de todas as qualidades admiráveis do programa, sua sobrevivência também é uma confluência de circunstâncias setoriais. Em março de 2019, a Pop TV estava no mercado em busca de um programa de impacto para substituir “Schitt’s Creek”. (A rede havia anunciado no final daquele mês que a sexta temporada da série seria sua última.) E, como Nevins, Brad Schwartz, presidente da Pop TV, já era fã de “One Day at a Time”.

Também ajudou que a Sony tivesse mais motivação que a maioria dos estúdios quanto a manter seus programas vivos. Os estúdios de TV cada vez mais pertencem a empresas que também operam redes ou plataformas de streaming, e esses estúdios em geral podem depender das companhias que os controlam ou de empresas irmãs para a aquisição de boa parte de seu conteúdo. A Sony havia se tornado uma raridade: um estúdio de TV sem esse tipo de conexão empresarial.

“Trabalhei na rede ABC e no ABC Studios por anos, e lá você sempre sabia que, se um projeto fosse embora, havia outro na fila”, disse Frost. “Enquanto para nós cada série é como um filho”. Talvez seja mais apropriado se referir a “One Day at a Time” como um filho adulto, porque a série surgiu em sua forma inicial 45 nos atrás.

A primeira versão contava a história de uma família branca de Indianapolis, comandada por uma mãe solteira, e foi uma das diversas comédias emblemáticas produzidas por Norman Lear –outros exemplos incluem “All in the Family” e “Good Times"– na década da de 1970.

A nova encarnação, que tem Lear como produtor executivo, gira em torno da família Alvarez, um clã cubano muito unido que vive em Los Angeles. A despeito das mudanças, “One Day at a Time” segue as tradições das melhores comédias no formato de múltiplas câmeras: é gravada em estúdio, a trilha sonora inclui risadas da plateia que assiste às gravações, e os roteiristas e elenco misturam gracejos ágeis e sentimento sincero com habilidade consumada.

“Estamos tentando fazer com que as pessoas se sintam melhor”, disse Calderón-Kellett. “O espectador ri, mas a sensação da série é a de um abraço”.

Tudo considerado, a comédia é “radical no contexto de um formato muito seguro e confortável”, disse Nevins. Quando notícias do cancelamento começaram a circular, ele disse, sua primeira ideia “foi de que ela poderia ajudar a CBS All Access a conquistar assinantes”.

Teria sido uma forma de completar o círculo, já que a “One Day at a Time” original era exibida pela CBS. Mas o contrato entre os criadores da série e a Netflix proibia uma transferência para outra plataforma de streaming. Embora a Sony tenha explorado outras opções, não demorou para que a Pop TV emergisse como potencial lar.

O canal havia atraído muita atenção com “Schitt’s Creek”, que estreou em 2015 e conquistou uma audiência fiel, especialmente depois que suas temporadas começaram a ser veiculadas também pela Netflix, dois anos mais tarde.

“Precisávamos de algo grande, novo e reluzente para quando ‘Schitt’s Creek’ terminasse”, disse Schwartz.

E como a série canadense, a história da família Alvarez serve como “contrapeso para as divisões e a negatividade do clima político”, acrescentou Schwartz. “Parecia ser um antídoto para tudo que está acontecendo no mundo, além de ser hilariante e incrivelmente comovente”.

Ou seja, havia muito amor por “One Day at a Time” na Pop TV –mas menos dinheiro. “Foi preciso que a Sony baixasse a pedida o máximo que puderam –mas ainda fazia sentido para eles– e nós tivemos de chegar ao valor mais alto que já pagamos”, disse Schwartz, que, como Frost, se recusou a mencionar números específicos.

Frost disse que as reduções de orçamento da série “não foram significativas”, em parte por conta de “técnicas de negociação criativas”. Por exemplo, a CBS aceitou exibir “One Day at a Time” em sua rede de TV aberta, no futuro, o que permite que a Sony abocanhe um valor adicional pelo licenciamento.

Enquanto os executivos da Pop TV ponderavam se deveriam ou não adquirir a série, tinham os números de audiência a considerar. Embora os números internos da Netflix sobre a série não estivessem disponíveis, eles podiam se basear nos cálculos da Nielsen.

O número de pessoas que assistiam à série na Netflix em seus televisores nos Estados Unidos –seu “alcance”, na terminologia da Nielse– era de 721 mil na primeira temporada e de 1,63 milhão na terceira

Os totais não incluem espectadores que assistem aos episódios depois da primeira exibição ou pessoas que os assistem em seus celulares ou computadores não conectados a televisores, e assim os executivos da Pop TV acreditavam que a audiência de “One Day at a Time” fosse maior do que os números da Nielsen indicavam –e que era bem possível que estivessem próximos da audiência da temporada quatro de “Schitt’s Creek”.

A Pop TV estimou que a audiência da quarta temporada da série tenha chegado a 3,3 milhões de espectadores em todas as plataformas, em média, de acordo com o site Vulture.

“Nós calculamos que o desempenho da série na Pop TV era imaginável”, disse Schwartz. “E não importa que os números da Nielsen fossem ou não exatos, eles eram direccionalmente relevantes”. A Pop TV anunciou em 27 de junho que havia solicitado 13 novos episódios de “One Day at a Time” –e esse pode não ser o fim da estrada.

“Seria adorável imaginar que a série pode ter uma sequência como a de ‘Schitt’s Creek’, de sabe-se lá quantas temporadas”, disse Schwartz.

Agora que “One Day at a Time” completou sua jornada altamente incomum do streaming para um canal básico de TV a cabo, devemos aguardar por novas transformações? Na verdade, não.

A versão atualizada da série se manterá fiel às suas raízes na comédia socialmente consciente, disseram os responsáveis pelo programa. Ainda que “One Day at a Time” gere gargalhadas e momentos calorosos regularmente –e que esses sempre sejam seus objetivos básicos– há momentos em que Penelope imagina como vai pagar as contas. Personagens enfrentaram doenças mentais, racismo, problemas com as autoridades de imigração e falta de aceitação de seu estilo de vida LGBT.

Calderón Kellett e Royce disseram que não haviam procurado fazer um programa tópico, mas certos assuntos eram inevitáveis, já que a série emprega diversos roteiristas LGBT, que há mais mulheres do que homens na equipe de roteiristas, e que a maioria destes –entre os quais Calderón Kellett, que é americana de origem cubana– são pessoas não brancas. “Meu irmão me ligou para contar que estava na praia e alguém disse para ele voltar para o México”, conta Calderón-Kellett. “Coisas assim acontecem”.

Royce acrescentou que “temos toda essa gente talentosa com antecedentes muitos diversos. As pessoas contam suas histórias e nossas histórias saem disso”. A trama da estreia da temporada quatro surgiu, por exemplo, do desejo de tratar do medo que algumas pessoas hispânicas sentem do recenseamento de 2020. E também resolveu um problema prático: transmitia informações sobre cada personagem aos espectadores que podem não ter visto a série antes de sua chegada à Pop TV.

Em outras palavras, é um episódio perfeito para “One Day at a Time”, um casamento carinhoso e inteligente de temas significativos e excelente carpintaria de comédia. Os fãs mais dedicados podem se reconfortar com o fato de que, com a exceção do acréscimo de intervalos comerciais –outra coisa que remete à série original–, “One Day at a Time” continua a ser a série que sempre foi.

Como disse Schwartz em seu primeiro e-mail a Calderón Kellett e Royce depois da confirmação do acordo com a Pop TV, “continuem fazendo o que vocês estão fazendo. Vamos exibir essa série porque a amamos”.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci.

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