Colton Underwood Ryan James Caruthers/The New York Times

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Erik Piepenburg
West Hollywood
The New York Times

​​​Basta passar 10 segundos em companhia de Colton Underwood e você percebe por que o programa The Bachelor considerou que ele seria sucesso garantido. Ele tem um sorriso de garoto da casa ao lado e um jeitinho modesto. É parrudo. Faz trilhas.

Mas em abril, em uma entrevista emotiva no programa Good Morning America, Underwood, ex-jogador de linha defensiva na NFL que causou palpitações nos corações femininos dois anos atrás como o virginal protagonista de The Bachelor, um programa televisivo de namoros de muito sucesso e escancaradamente heterossexual, fez uma declaração da qual não há como recuar: "Sou gay".

Underwood, 29, briga com suas contradições o tempo todo. Ele é cristão mas se recusa a acreditar na versão de Deus sobre a qual aprendeu quando era coroinha. Ama o futebol americano, mas o vestiário era o lugar em que sentia mais medo de revelar sua verdadeira identidade.

Agora, ele faz compras na Kohl’s e em Rodeo Drive. Tem um namorado, ainda sente atração por mulheres, mas não é bissexual. As tribos dele no Grindr provavelmente seriam "Clean-Cut" e "Rugged".

Toda essa indefinição de identidade –é isso que está trazendo ele de volta aos reality shows em Saindo do Armário com Colton Underwood, uma nova série documental em seis episódios que está disponível na Netflix.

A série começou a ser filmada antes de sua entrevista ao Good Morning America, e é um diário sincero, mas cuidadosamente embalado, no qual Underwood revela sua orientação sexual a parentes, amigos e outros, e faz um curso acelerado sobre como ser gay.

Underwood espera que a série ajude outras pessoas a ver que sair do armário pode ser um presente. Mas ele também quer se desculpar por sua participação em The Bachelor, que define como uma tentativa fracassada de "enterrar o fato de que sou gay".

E ele também quer lidar com os problemas que surgiram em consequência dessa participação, por exemplo uma liminar de restrição que uma ex-namorada obteve contra ele, e com as críticas de que está tirando vantagem financeira de algo que não deveria ser explorado.

"Vivi minha vida pública como heterossexual, e fugi a vida inteira da comunidade a que pertenço", ele disse, em um café da manhã no Hugo’s, um restaurante que ele escolheu em Santa Monica. "Sabia que muita gente não compreenderia. Talvez, no final desses seis episódios, as pessoas continuem a não compreender. Mas pelo menos terei tentado consertar os meus erros".

Underwood conta, na série, com a ajuda de seu amigo Gus Kenworthy, um esquiador olímpico que assumiu ser gay em 2015. Comparado a Underwood, Kenworthy é um guru gay: ele ensina ao amigo o que significa cisgênero ("cisgênero quer dizer que o gênero com que você se identifica é aquele que lhe foi designado ao nascer", ele explica em uma cena), e dá a Underwood uma aula de história sobre o Stonewall Inn.

Underwood é um dos produtores executivos da série e sabe que tem privilégios e uma plataforma, o que explica por que ele procurou o conselho de pessoas que não são homens brancos, gays e cisgênero, entre as quais Nicole Garcia, que é latina, transgênero e pastora.

Garcia disse que Underwood pode servir como exemplo, especialmente para que jovens atletas saibam que podem ser "homens, atléticos, gays e encontrar sucesso, amor e respeito".

Porque estamos falando de um reality show, Underwood não informou previamente as pessoas a quem revelaria diante das câmeras que é gay –o que vemos, ele disse, é a reação genuína delas à notícia.

Inicialmente, isso não agradou a mãe dele, Donna Burkard, a primeira pessoa a quem ele revela sua orientação, no programa. (Os pais de Underwood são divorciados, mas o relacionamento entre eles é amistoso.)

Burkard disse que a revelação de seu filho foi uma surpresa, e que não estava confortável com a presença da câmera, mas se resignou a aceitá-la. E aí seu lado maternal protetor emergiu.

"Decidimos que, se pudermos ajudar nem que seja uma só família, e com sorte múltiplas famílias, ao mostrar o amor e apoio que acredito que exibimos, outros homens e mulheres gays que vivem ocultos talvez possam ter um vislumbre de esperança de que seus pais reagirão de braços abertos", disse ela em uma entrevista por telefone.

O maior protetor de Underwood na série é seu pai, Scott Underwood, que disse que ama o filho –"uma pessoa forte", ele o definiu, por se assumir em uma em entrevista nacional de TV. Mas será que a melhor hora de ser informado a respeito seria mesmo uma viagem de pesca com o filho?

"Não estou dizendo que isso tenha me irritado, mas minha preferência seria que a coisa tivesse sido feita de outro jeito", ele disse por telefone. Mas o filho dele "trabalha no mundo do entretenimento, vamos encarar o fato", prosseguiu. "Foi isso que ele escolheu fazer como carreira".

"Se acredito que ele tenha agido assim pela fama?", ele acrescentou, se referindo à decisão do filho de estrelar a série. "Não. Ele decidiu sair do armário na TV por dinheiro? Certamente. Mas quem no ramo dos reality shows não tira vantagem de sua vida e a expõe por dinheiro?"

Basta ler uma recente postagem de Underwood sobre a série no Instagram para perceber que muita gente acha que as controvérsias em que ele se envolveu depois de passar por The Bachelor o desqualificariam de um contrato com a Netflix. (Mas muitas outras pessoas discordam.)

Uma petição online com mais de 35 mil assinaturas, até o final de novembro, pedia que a Netflix cancelasse a série por conta das acusações de assédio e perseguição feitas pela ex-namorada de Underwood, Cassie Randolph, e delineadas em seu pedido de uma liminar que o proibisse de se aproximar dela, em setembro de 2020.

Randolph é a mulher com quem Underwood escolheu se casar em The Bachelor, mas a temporada deles, ao contrário da maioria das temporadas do programa, não terminou em noivado. Em novembro de 2020, Randolph aceitou um acordo, cujos termos são confidenciais, para retirar a liminar. Underwood pediu desculpas por seu comportamento.

"É triste, mais do que qualquer outra coisa, que eu tenha me colocado em posição de dizer as coisas que disse e fazer as coisas que fiz a ela", disse Underwood. Randolph não respondeu a pedidos de comentário.

Jeff Jenkins, produtor executivo de Saindo do Armário, disse que um agente originalmente propôs a ele uma série sobre a vida de Underwood e Randolph como casal. Quando o relacionamento acabou, afirmou ele, a direção do programa mudou. Underwood se reuniu com ele e explicou que estava pensando em sair do armário.

"Nós vimos o lado positivo de ele contar sua história", disse Jenkins, também produtor executivo de "I Am Cait", série sobre a vida de Caitlyn Jenner como mulher transgênero, com a qual Saindo do Armário tem traços de união, entre os reality shows LGBTQIA+.

Perguntado sobre os motivos de Underwood, Jenkins disse que "ele já é famoso e –espero não estar falando mais do que devia– esse documentário não vai enriquecê-lo".

Damla Dogan, diretora da área de reality shows da Netflix, escreveu em um email que o serviço de streaming confiava em que os produtores lidariam bem "com a história complicada de Underwood, e isso inclui que ele assuma a responsabilidade por suas ações".

Perguntada como o programa se enquadra à estratégia da empresa quanto à programação queer, especialmente depois das acusações de fobia aos transgêneros geradas por "The Closer", um especial recente de comédia de David Chappelle, Dogan disse que seria injusto com Colton colocar todo o peso da representação LGBTQIA+ sobre seus ombros"

"As experiências de uma só pessoa não preencherão o vazio de histórias queer na TV", escreveu Dogan em um email. "Temos de melhorar como setor a fim de destacar novas maneiras de viver e amar".

E há a questão do timing. A série começa em 6 de novembro de 2020, cinco meses antes de Underwood revelar sua orientação sexual em uma entrevista de TV, o que significa que sua equipe de produção soube que ele era gay antes de sua família. Para algumas pessoas, isso parece mais uma jogada de carreira, em busca de lucro, do que um acerto de contas emocional honesto.

John Casey, editor da revista LGBTQIA+ The Advocate, escreveu em uma coluna que Underwood "falhou com as mulheres e com a comunidade LGBTQIA+ ao ridicularizar nosso processo de sair do armário, especialmente no caso daqueles entre nós que assumiram grandes riscos ao fazê-lo".

Tentativas de contatar Casey não tiveram sucesso. A organização ativista Glaad, que defende causas LGBTQIA+ e recebe um agradecimento nos créditos do programa de Underwood, não quis comentar.

Underwood disse que se viu forçado a agir como agiu porque, como declarou em uma entrevista à revista Variety, ele recebeu um email anônimo no ano passado de alguém que dizia ter fotos dele nu em um spa conhecido por sua clientela gay. Ele admite que esteve lá, mas as fotos nunca foram publicadas. A primeira pessoa a quem ele admitiu ser gay foi seu agente de imprensa.

Underwood sabia que o próximo passo seria necessariamente contar à sua família. Ter câmeras presentes, ele disse, ajudou a capturar o drama, mas também servia como uma forma de forçá-lo a prestar contas. Ele disse que o pensamento de que "hoje você vai ter de se assumir diante do seu pai, e não há como fugir" o reconfortava. (Ele também revelou sua orientação a outras pessoas de sua vida longe das câmeras.)

O único momento em que Underwood pareceu desconfortável em nossa conversa foi ao falar de seu namorado, o estrategista político Jordan Brown, com quem ele se relaciona há alguns meses. Underwood se limitou a dizer que estava "muito feliz e muito apaixonado" por Brown, e que as famílias dos dois já se conheceram.

"O jeito mais fácil de explicar é afirmar que, para mim, a experiência foi como a de levar uma namorada para conhecer a família", disse Underwood, enrubescendo, e parecendo realmente inexperiente em sua vida como gay. "E ninguém estranhou".

Ele disse que não está certo sobre o que fará a seguir –talvez outro projeto gay de alguma espécie, na TV. Sua prioridade, disse, é algo em que ele nunca foi muito bom: "Preciso cuidar de mim, antes de tudo", ele afirmou. E isso quer dizer que a mídia social, os cristãos, os fãs de The Bachelor e todo mundo mais terá de esperar. "Se a coisa não me fizer feliz, não me realizar, é algo que não farei", disse.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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