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Latino é denunciado por intolerância religiosa após fala sobre morte de macaca

Cantor culpou adeptos de religiões de matriz africana pela morte do animal

Cantor se declara para macaca
Cantor se declara para macaca - Reprodução/Instagram
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São Paulo

A Secretaria Municipal de Cidadania do Rio apresentou uma notícia-crime contra Latino, 48, por intolerância religiosa. A denúncia foi feita à Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) por causa de um comentário feito pelo cantor durante participação em um podcast.

Na entrevista, realizada em 14 de abril, o artista culpou adeptos de religiões de matriz africana pela morte de Ana Paula, sua macaca de estimação. "Nessa parada de centro espírita, nesse bagulho de macumba, os caras fazem trabalhos pesados para infernizar a vida do outro", afirmou. "E aí fizeram um trabalho, sei lá, de ebó… Sei lá que p* que chama essa m* de macumbaria."

O caso já está sendo investigado pela polícia. Procurada pelo F5, a assessoria de imprensa disse em nota (leia a íntegra ao final do texto) que Latino deu margem a "possíveis interpretações infelizes de frases mal concatenadas pelo efeito do álcool intencionalmente consumido e da marola inevitavelmente respirada durante a entrevista".

Segundo o texto, o cantor frequenta "diversos cultos, de igrejas a templos, de centros espíritas a terreiros, sem muita preocupação se seriam de umbanda ou candomblé". Além disso, é "filho de uma mãe macumbeira com forte vocação para possessões, manifestações presenciadas por ele desde criança".

De acordo com o Átila Nunes, secretário municipal de Cidadania do Rio de Janeiro, a declaração viola a liberdade religiosa. Para ele, a fala do artista estimula o preconceito às religiões de matriz africana ao associar morte de macaco à rituais de centros espíritas.

"É lamentável que uma pessoa pública use o seu espaço na mídia para propagar uma mensagem preconceituosa e que contribui para alimentar a intolerância contra as religiões de matriz africana", reclamou Nunes em nota. "Não podemos ignorar o que aconteceu ou normalizar uma ofensa à crença do próximo."

Vale lembrar que intolerância religiosa é crime. De acordo com o artigo 208 do Código Penal, quem comete essa infração quem pode ser condenado a pagar multa ou mesmo receber pena de prisão de um mês a um ano.

Ana Paula foi a segunda macaca de estimação de Latino. Ela foi um presente de uma amiga ao cantor depois da morte de Twelves, seu antigo macaco de estimação, em março de 2018.

Twelves foi atropelado e Latino demonstrou grande amor pelo animal e tristeza com a perda nas redes sociais. O artista recebeu o apoio dos fãs e uma empresa decidiu homenagear o artista, com um diamante feito das cinzas do Twelves.

LEIA A ÍNTEGRA DA RESPOSTA DE LATINO:

"Com relação a entrevista ao podcast de nome Flow, concedida no dia 14/04/21, Latino, ao ser perguntado sobre a causa da morte de seu macaco de estimação, levantou como hipótese:

'Nessa parada de centro espírita, nesse bagulho aí de macumba, os caras fazem trabalhos pesados pra, pra infernizar a vida do outro, entendeu? E aí fizeram um trabalho, de sei lá, de ebó, sei lá que porra que chama essa merda aí de macumbaria, né? Eu não acredito nessa porra, eu acredito que o mal tá na gente.'

Roberto Souza Rocha, Latino, é nascido em um dia 02 de fevereiro e filho de uma mãe macumbeira com forte vocação para possessões, manifestações presenciadas por ele desde criança.

Já na vida adulta, Latino passou a frequentar diversos cultos, de igrejas a templos, de centros espíritas a terreiros, sem muita preocupação se seriam de umbanda ou candomblé.

Tem por advogado, há quase duas décadas, Eric Cwajgenbaum, signatário desta nota, que se define como etnicamente judeu e praticante de candomblé.

Em que pese possíveis interpretações infelizes de frases mal concatenadas pelo efeito do álcool intencionalmente consumido e da marola inevitavelmente respirada durante a entrevista, cabem algumas explicações:

A primeira, é que se referir a tradições religiosas de matriz africana como “macumba” é algo já inquestionavelmente introjetado na cultura linguística brasileira, especialmente no Rio de Janeiro, onde Latino mora e já frequentou diversas macumbas.

Não custa aqui mencionar que pelo rigor científico acadêmico, especialmente sob a ótica da antropologia, caberiam explicações sobre o que de fato significa macumba, inclusive se de fato se trata de uma religião ou de um conjunto de cultos. Mais complexas ainda seriam as diferenças entre umbanda e candomblé e toda uma ausência dos conceitos de bem e mal que no Brasil se desenvolveu ao longo de 500 anos pelo pensamento judaico-cristão.

É exatamente a partir disso que entra o segundo aspecto, passível de ter gerado interpretações infelizes a partir de frases mal concatenadas, que buscavam resumir em curtas orações hipóteses mais extensas.

Como todos sabem, nas congregações onde se cultuam ritos africanos, os praticantes geralmente tem a liberdade –nem sempre a concordância ou sequer o auxílio– para conduzir, no mundo invisível, o mal dirigido a determinada pessoa.

Essa condução no mundo invisível, praticada através de trabalhos encomendados a entidades ou orixás, é materializada no mundo visível através de ritos específicos, geralmente acompanhados de agrados ou “pagamentos”, os chamados ebós, também conhecidos como despachos, encomendas, ou até mesmo macumbas.

Em resumo: o termo “macumba” serve para referir às religiões de matriz africana, encomendas de trabalhos ao mundo invisível e, formalmente, um instrumento musical.

Latino, apesar de sua proximidade com a macumba, nunca foi, de fato, iniciado, ou “feito”, conforme comumente se fala, ou seja, detém apenas conhecimentos rasos.

Durante a entrevista, sua tristeza foi expressa em curtas frases conjugadas com palavrões, expressavam rancor pela hipótese da morte “encomendada” de seu bicho de estimação, jamais contra as religiões de matriz africana.

Independente de todas as explicações aqui contidas, que afastam a possibilidade de interpretações pejorativas ao que foi dito de forma displicente, o cantor vem a público pedir desculpas por sua fala desacertada, reiterando que jamais houve a intenção de discriminar qualquer tipo de fé, culto ou prática religiosa, bem como, aos seus praticantes.

Eric Cwajgenbaum, advogado do cantor Latino."

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