Celebridades

Xuxa diz que revelar abuso sexual sofrido na infância foi como um grito de socorro

Apresentadora afirma admirar mulheres anônimas que têm força para agir e não se calar

A apresentadora Xuxa Meneghel Blad Meneghel

São Paulo

A apresentadora Xuxa Meneghel, 56, diz não vê razão para o Dia Internacional da Mulher, celebrado no próximo domingo (8). Para ela, todos os dias são das mulheres, que ainda enfrentam muitas barreiras em um mundo machista.

Xuxa afirma admirar as feministas que romperam alguns desses muros ao longo da história e aplaude as mulheres de hoje que escolhem por não se calar e agir diante das desigualdades.

A própria apresentadora decidiu agir quando revelou, em entrevista ao Fantástico em 2012, que foi vítima de abuso sexual na infância por parte de vários homens, incluindo o namorado de sua avó e o melhor amigo de seu pai. À época, o depoimento causou comoção.

“A primeira coisa que passa na cabeça da gente quando sofremos algum assédio é se calar. Depois a gente engole, mas não consegue digerir e poucas pessoas conseguem vomitar. Eu sou uma das pessoas que conseguiu vomitar, colocar para fora. E isso fez com que eu pudesse me ouvir, quase como um grito de socorro”, disse Xuxa, em entrevista ao F5.

Ela atribui o silêncio das vítimas de assédio e abuso a uma sociedade machista, que permite ao homem fazer o que quiser. À mulher, resta o questionamento sobre o que fez para merecer a agressão. “Nada, nada, nada justifica. [...] Eu me perguntei muito o que eu fiz para merecer aquilo. Hoje eu sei que a gente não precisa fazer isso.”   ​

É importante ter um dia dedicado à mulher? 
Acho que não. Nós mulheres já sabemos que todos os dias são nossos. Também acho errado essa coisa de Dia da Criança, Dia da Mulher, Dia do Amor, Dia das Mães, Dia dos Pais. Quando a gente gosta de alguém, quer homenagear alguém, não precisa de um dia.

O foco do Dia Internacional da Mulher é a igualdade de direitos. O que já melhorou? E o que piorou?
Já melhorou alguma coisa, mas há muito ainda para se alcançar. Se você parar para pensar que a mulher antigamente não podia sentar à mesa, não podia falar, não podia votar, não podia trabalhar, há muitas coisas que as pessoas conquistaram. Eu bato palma para as feministas, porque elas enfrentaram o mundo para a gente ter hoje o espaço que temos.
Agora, tem muita coisa para melhorar? Óbvio que tem. Começando pelos salários de muitas mulheres, começando pelo respeito que as pessoas não têm, começando por alguns trabalhos que as mulheres não podem ter ou exercer, porque acham que elas não podem. Eu acho uma bobeira essa separação. Todas nós, mulheres que vivem e mulheres que ainda vão vir ao mundo, temos que nos curvar e agradecer a essas pessoas que abriram, que arrombaram, derrubaram essas barreiras, esses muros, essas portas, esses preconceitos. Mas ainda tem muitos a derrubar.

Você foi vítima de abuso sexual na infância. Como lidou com isso na época? Agiria de outra forma hoje? Claro que hoje eu agiria de outra forma. Com a experiência e minha maturidade eu com certeza agiria de outra forma. A primeira coisa que passa na cabeça da gente, quando sofremos algum assédio, é se calar. Depois a gente engole, mas não consegue digerir e poucas pessoas conseguem vomitar. Eu sou uma das pessoas que conseguiu vomitar, colocar para fora. E isso fez com que eu pudesse me ouvir, quase como um grito de socorro.
Mas tem muitas mulheres que não conseguem fazer isso. E acho que é por causa da educação que a gente recebe, porque o mundo é muito machista, porque o homem pode tudo e a mulher, não. Eu ouço: “o que ela fez para merecer isso?”. Ninguém merece passar por isso, ou seja, nada que você venha a fazer justifica um assédio sexual ou um abuso ou uma falta de respeito. Não importa a roupa que você esteja usando, não importa o que você tenha feito ou falado. Nada, nada, nada justifica. Quando ouço essas coisas me sobe o sangue até mais do que a situação do assédio em si. Talvez seja porque eu passei por isso e não fiz nada. E me perguntei muito o que eu fiz para merecer aquilo. Hoje eu sei que a gente não precisa fazer isso.

Qual a importância de movimentos como #MeToo e ​#Time'sUp, que chamaram a atenção para o assédio sexual dentro e fora do ambiente de trabalho?
Não sei se sou a favor ou contra. Porque eu vejo as pessoas usando uma camiseta tipo “não à pedofilia”. Quem é sim para a pedofilia? “Não à violência”, quem é sim à violência? Quando você está expondo sua opinião sobre uma polêmica, tudo bem, mas isso não é polêmico, é um fato. As pessoas não têm que agredir as outras, as pessoas não têm que faltar com respeito com as outras, as pessoas não tem que assediar as outras, as pessoas não têm que abusar das outras. Mas é uma maneira de a gente poder conversar, e sou a favor disso. A gente buscar entender o que está acontecendo, a gente se informar, isso é muito importante. Hoje, com a globalização, é muito fácil a gente usar exemplos de outros países e dizer o que a gente quer para nossa vida, nossos filhos, nossos netos. Eu sou a favor da hashtag #afavordisso e da hashtag #contraagente, para levantar uma bandeira contra uma coisa que nunca deveria ter existido.

Há ainda diferença salarial entre as artistas mulheres e homens? As artistas brasileiras deveriam ter criado um movimento semelhante?
Os artistas são uma classe muito privilegiada. A gente não pode falar muito sobre isso, porque ainda podemos nos dar ao luxo de dizer “isso eu quero, isso eu não quero”. É diferente de um trabalho que tem salário fixo, aquela coisa a seguir. Ao mesmo tempo, negociar seu salário como artista é muito difícil, porque um artista não sabe se dar o valor. É difícil encontrar alguém que não tenha um empresário, um advogado, alguém para falar por ele. O que quero dizer é que existem outras profissões que precisavam realmente ser equiparadas, em que as mulheres ganham bem menos do que homens. Na carreira de artista, há uma maleabilidade maior. Sabemos que há homens que ganham muito mais e também mulheres que ganham bem.

Qual a sua principal referência de mulher?
Em casa, minha mãe, obviamente. No mundo artístico, a Oprah [Winfrey] e a Madonna, para quem eu tiro o chapéu. Ela [Madonna] é uma camaleoa, quando abre a boca para falar alguma coisa, para defender alguém, ela o faz muito bem. Tem outras mulheres que não têm fama, mas carregam uma imagem muito forte e que estão aí brigando para que as coisas aconteçam. Eu conheci uma pessoa que morreu de câncer há pouco tempo, a Angélica Goulart. Minha fundação deixou de ser Fundação Xuxa Meneghel para ser Angélica Goulart, que era uma pessoa que brigava muito pelos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos. Se tivesse uma vizinha passando por alguma coisa, ela não queria nem saber, já entrava na casa dela e brigava. Tem mulheres que não têm nome ou sobrenome, mas têm muita vontade, fazem muitas coisas. Isso já faz parte da personalidade de muita mulher. Há outras que se calam, se anulam, dizem “eu sou mulher e tenho que ficar calada”. Para essas mulheres, que não tem nome ou sobrenome, mas possuem muita força, eu bato palma. As outras, eu apenas admiro.

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