Celebridades

'Eu estaria com medo se fosse uma mulher negra e brasileira', diz Zara Larsson antes de show no Lollapalooza

Popstar sueca que se apresentou no Lolla se reuniu com grupos feministas para falar sobre Marielle Franco

Zara Larsson dedica música a Marielle Franco no Lollapalooza
Zara Larsson dedica música a Marielle Franco no Lollapalooza - Ale Frata/Codigo19/PARCEIRO FOLHAPRESS
Anahi Martinho
São Paulo

Foi-se o tempo em que cantoras pop voltadas ao público teen não se envolviam em assuntos políticos. Atenta a pautas de direitos humanos, como igualdade racial e de gênero, a popstar de 20 anos Zara Larsson pediu para se reunir com grupos feministas do país antes de subir ao palco do Lollapalooza, nesta sexta-feira (23).

Em sua estreia no Brasil, ela estava preocupada em chamar atenção para o caso da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), morta no dia 14 de março sob circunstâncias violentas.


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Na quinta (22), antes de seu show na Audio ClubZara se reuniu com cerca de dez representantes de movimentos sociais na sede da ONG Conectas, em São Paulo. Ela fez perguntas, debateu e essencialmente ouviu as representantes dos movimentos Nós, Instituto Ethos, Rede Feminista de Juristas e Liga do Funk. A convite, o F5 acompanhou o encontro.

Entre uma dúvida e outra sobre o Brasil, a cantora chegou a perguntar se o país "é uma democracia", arrancando risos constrangidos das participantes. A resposta foi um "sim" seguido de muitas vírgulas. E uma tentativa de explicar quem é Bolsonaro. "Temos nosso Trump", descreveram.

Em outro momento, perguntou como é o congresso brasileiro atualmente. "Só homens brancos e velhos vestindo ternos", ouviu como resposta.

"Eu fiquei revoltada, foi uma coisa trágica [a morte de Marielle]. Mas sinceramente não sei como estaria me sentindo se eu vivesse em um país como o seu e fosse negra. Provavelmente estaria com medo. Metade de mim teria medo, a outra metade teria ódio", ​imaginou a popstar.

No palco do Lollapalooza, ela dedicou a música "Symphony" à memória de Marielle. "Ela lutava pelos LGBTs, lutava contra a violência policial e por justiça social. Quero dedicar essa música a ela e quero que todos cantem a plenos pulmões", pediu.

Ao F5, Zara diz que quer usar cada vez mais sua voz para chamar atenção para as pautas em que acredita. "Quero fazer mais coisas assim. Tenho muitos fãs e seguidores nas redes sociais. A coisa mais fácil que posso fazer é falar sobre isso. As pessoas vão ouvir porque gostam da minha música e podem se conscientizar. É o mínimo que eu posso fazer para chamar atenção para o caso", diz.

ABORTO

Nascida em 1997 na Suécia, Larsson cresceu em uma realidade onde o aborto até 12 semanas é legal, seguro e garantido pelo governo desde 1975. A discussão é até antiquada para ela, que perdeu sua "virgindade de América Latina", como escreveu no Twitter, há duas semanas, nas versões argentina e chilena do Lollapalooza. Assim como o Brasil, os dois países ainda proíbem o aborto a não ser em casos de estupro.

"Acho que tem muito a ver com igreja. Na Suécia, igreja e governo são completamente separados, não têm nada a ver uma coisa com a outra. Lá, se você não é uma pessoa religiosa, a lei de Deus simplesmente não te afeta", explica. "Pessoalmente, eu não acredito que uma criança vira uma criança em seis semanas dentro da barriga. Um cogumelo tem mais vida que isso."

"Quero dizer, é muito difícil definir em que momento a vida se torna vida. Eu acredito fortemente que as mulheres precisam ter a opção de escolher se querem ser mães ou não. Ninguém faz aborto por diversão. Ninguém usa o aborto como método contraceptivo. Fazer um aborto não é algo que alguém queira ter que passar."

Para ela, a ideia de colocar no mundo uma criança sem ter condições financeiras ou mesmo vontade, só pode ter resultados piores. "O que o país espera que você faça com aquela criança? Proibir o aborto é caro e triste", defende. "Tornar o aborto ilegal não o previne de acontecer. Se uma mulher quiser fazer um aborto onde é ilegal, ela vai conseguir. E provavelmente de forma perigosa e insegura, colocando sua vida em risco."

"Eu tenho muita sorte de ter crescido em um país que valoriza os direitos humanos. Mas mesmo lá ainda temos muito o que mudar. No mundo inteiro, na verdade", encerra Zara. Após sua apresentação no Lolla, ela seguiu para Los Angeles, onde vai trabalhar na composição de seu novo álbum.

 
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