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Descrição de chapéu The New York Times

Fungie, o golfinho desaparecido da Irlanda

Animal, que ajudou a atrair turistas na pequena Dingle, sumiu depois de 37 anos

Escultura do golfinho Fungie na cidade de Dingle, Irlanda - Finbarr O'Reilly/The New York Times
Ed O’Loughlin
Dublin

Os visitantes que vieram para o verão já se foram, e as chuvas e o vento do inverno retornaram ao condado de Kerry, uma região bela e remota no sudoeste da Irlanda. Mas os moradores da cidade de Dingle, acostumados a tudo isso, têm uma preocupação ainda maior. Fungie, o golfinho macho que ajudou a transformar a cidade, antes uma pequena comunidade costeira e agrícola, em atração turística internacional, desapareceu, depois de 37 anos.

Duas semanas depois de Fungie ter sido avistado pela última vez, os barcos continuam a sair ao mar todos os dias —se as tempestades e o mar bravio permitem— em busca de sinais do golfinho desaparecido em meio às costas rochosas da região. Na entrada estreita do porto, onde ele passava a maior parte de seu tempo, pessoas equipadas de binóculos vasculham as ondas em busca de um vislumbre de sua barbatana. Mas a esperança está minguando.

Kevin Flannery, o biólogo marinho que criou um aquário muito popular com a ajuda do fenômeno Fungie, disse que o golfinho já havia desaparecido antes, mas nunca por mais que um dia ou dois.
“É por isso que os barcos de turismo podiam oferecer o dinheiro dos passageiros de volta caso eles saíssem ao mar e não o vissem”, disse Flannery. “Ele sempre foi muito confiável. A situação não parece boa”.

“O que está acontecendo aqui é um momento de luto”, disse Caroline Boland, porta-voz da Aliança Turística da Península de Dingle. “As pessoas estão arrasadas ao pensar que ele talvez tenha nos deixado. É como a morte de um membro da família. Ele trouxe magia, nos inspirou, uma bela criatura selvagem que vivia na entrada do porto."

Golfinhos solitários —aqueles que vivem sozinhos e em geral se radicam em uma área, em lugar de viverem em grupos sociáveis, sem paradeiro fixo no mar— não são incomuns. Mas Fungie, cuja idade era estimada em mais de 40 anos, era notável não só por sua longevidade —os golfinhos-roazes (de nariz de garrafa) costumam viver de oito a 17 anos — como por seu comportamento amistoso quando havia nadadores ou barcos por perto.

Ele foi avistado pela primeira vez no porto de Dingle em 1983, mas diversos anos se passaram antes que ganhasse fama nacional na mídia noticiosa irlandesa, e em seguida para que sua reputação se espalhasse no exterior.

O condado de Kerry já era um destino turístico internacional, graças às suas colinas verdejantes, montanhas inóspitas e costa bravia e varrida pelas ondas. Mas a maioria dos visitantes preferia a porção sul do condado, em especial o famoso “Ring of Kerry”, em torno de Killarney e Kenmare. Em Dingle, Fungie leva o crédito por ter adicionado a península mais setentrional de Kerry ao mapa do turismo.

“Quando Fungie surgiu, 37 anos atrás, a cidade era um fim de mundo. Não havia coisa alguma aqui a não ser pesca e agricultura, e as duas coisas estavam em declínio”, disse Boland, apontando que a emigração era elevada e os empregos, escassos.

“Na época, todos os negócios da região costumavam fechar do fim de outubro à Páscoa. Mas artistas e pessoas começaram a se enraizar por aqui”, ela disse. “A National Geographic publicou uma reportagem sobre ele. Chefes de cozinha vieram, e abriram bons restaurantes. Os empregos sustentáveis só surgiram depois dele”.

Além de comércio, o golfinho também ajudou na criação de lendas. Não muito depois de se tornar conhecido em toda a Irlanda, um jornal da capital, Dublin, reportou boatos de que uma aldeia rival em Kerry estava tentando atrai-lo, subornando Fungie com peixes.

Mas, de acordo com Michael O’Neill, da Dingle Boat Tours, uma das duas empresas que organizam passeios de barco pelo porto para ver o golfinho, Fungie sempre insistiu em apanhar sem ajuda as cavalas e escamudos de que se alimentava —o que pode ter resultado em seu fim.

“Recentemente, ele estava um pouco mais lento, e talvez não estivesse mais conseguindo apanhar peixes”, disse O’Neill. “Mas ele não aceitava peixes das pessoas, nem mesmo peixes vivos”.
Outro mito popular que buscava explicar a notável longevidade de Fungie envolvia insinuar que na verdade três golfinhos diferentes haviam aparecido, um depois do outro, mas as empresas locais haviam conspirado para manter a marca Fungie.

No entanto, especialistas dizem que golfinhos solitários aparecem raramente e de modo aleatório, e nem todos são tão amistosos. Os moradores de Doolin, outro resort costeiro panorâmico no condado de Clare, costa acima, ficaram felizes com a chegada de Dusty, uma golfinho fêmea, cerca de 20 anos atrás, mas posteriormente tiveram de espalhar cartazes de alerta pela área, quando ela começou a abalroar nadadores, ferindo alguns.

Observar o golfinho se tornou uma indústria lucrativa em Dingle O’Neill —uma dúzia de barcos cobram até 15 euros (R$ 101) por adulto e 8 euros (R$ 53) por criança por um passeio de uma hora para ver Fungie brincando na água. E agora esse segmento será a vítima imediata caso ele tenha desaparecido. Mas os operadores estão tentando contemplar a situação filosoficamente.

“É claro que nosso faturamento vai cair, mas a vida é assim”, disse Mary O’Neill, também da Dingle Boat Tours; o pai dela foi o primeiro organizador de passeios de barco para ver Fungie. “Sempre soubemos que esse dia chegaria, que ele não estaria conosco para sempre. Encontraremos outro caminho”.

A despeito do lockdown associado ao coronavírus, dos céus cada vez mais nublados e da perda de seu amado mascote, continua a existir otimismo em Dingle. Em uma tempestuosa noite de sábado, o restaurante de “fish and chips” Reel Dingle, um um dos poucos negócios ainda abertos, ainda que apenas para retirada de encomendas, estava faturando bem com clientes locais, atraídos por especialidades finas como tamboril e lula, apanhados há pouco pelos pescadores.

“Ele já tinha sumido antes, mas nunca houve tanta histeria”, disse Colm Ó Treasaigh, empacotando os pedidos dos clientes que esperavam na chuva. “Será difícil para os barcos, mas as coisas provavelmente ficarão bem”.

“Ele veio com a maré”, disse um jovem que estava operando a fritadeira, nos fundos do restaurante. “O que vem com a maré vai embora com ela”. Fungie pode ter colocado Dingle no mapa, mas poucos moradores locais antecipam que o tráfego de visitantes venha a cair com sua ausência. A península agora oferece numerosos festivais e atrações.

O escocês Graham Coull, que se mudou para Dingle para trabalhar como destilador chefe da nova destilaria de uísque e gim da cidade, disse acreditar que a infraestrutura de turismo construída para aproveitar o fenômeno Fungie sobreviverá ao golfinho.

“Ele trouxe pessoas a Dingle, e depois nos tornamos uma atração também; a Dingle Distillery se beneficiou dele”, ele diz, “mas nossa cidade é persistente e vai se recuperar”.

Na estreita entrada do porto, Ilonka Duignan estava comendo amoras e observando as ondas. Instrutora de ioga, com origens na Hungria e Holanda, ela veio a Dingle de Berlim, 40 anos atrás, “por amor”, diz, e fez da cidade o seu lar. Duignan recorda seu primeiro encontro com Fungie, em uma praia estreita pouco abaixo do local em que estava, não muito tempo depois de sua chegada.

“Eu estava nadando lá e de repente ele apareceu”, disse ELA, acrescentando que o golfinho se aproximou o bastante para que ela pudesse tocá-lo. “Ele era muito manso. Batíamos uma pedra na outra sob a água, e ele se aproximava ao ouvir."

Como muitos outros moradores locais, ela acha justo que Fungie tenha desaparecido assim, silenciosamente e sem ser visto, ao final de mais uma temporada de verão. Ninguém gostaria de vê-lo lançado à praia.

“É bom que exista um mistério na história”, disse. “Ele voltou à natureza e espero que nunca seja encontrado. Ou que volte. Uma coisa ou a outra."

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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