X de Sexo Por Bruna Maia
Descrição de chapéu Todas

Sexo está longe de ser a coisa mais interessante da entrevista de Billie Eilish

Em conversa com a Rolling Stone, cantora falou sobre dramas existenciais e processo artístico

Billie Eilish na capa da revista Rolling Stone de maio, para a qual deu uma longa entrevista - Reprodução

Continue lendo com acesso ilimitado.
Aproveite esta oferta especial:

Oferta Exclusiva

6 meses por R$ 1,90/mês

SOMENTE ESSA SEMANA

ASSINE A FOLHA

Cancele quando quiser

Notícias no momento em que acontecem, newsletters exclusivas e mais de 200 colunas e blogs.
Apoie o jornalismo profissional.

Ela se considera uma pessoa depressiva, mas alegre. Gosta de experiências física e emocionalmente intensas, mas também quer que as coisas sejam suaves. Ela adora falar sobre sexo, mas preferiria não ter que falar sobre sua sexualidade em público —mas já que a perturbam tanto sobre o assunto, disse para a Rolling Stone que queria enfiar sua cara em uma vagina.

Lendo a comentada entrevista de Billie Eilish, publicada nesta semana, pude perceber que a estrela é contraditória e deseja o impossível e, por isso, é humanamente compreensível. Para mim, os trechos em que ela fala de masturbação e do desejo por mulheres nem sequer foram os mais interessantes da conversa, que está cheia de ponderações sobre saúde mental, fama e processo criativo. Mas não surpreende nem um pouco que sejam essas passagens que estão dominando as notícias.

São alguns poucos parágrafos em um longo texto, nos quais a cantora diz que gosta muito de se masturbar, que a atividade a ajuda a relaxar. Gosta de fazer isso diante de um espelho porque isso a ajuda a amar seu corpo, algo difícil para alguém como ela, que sofre de transtorno de imagem. Ela expõe a bissexualidade e diz que durante a vida toda se sentiu atraída por meninas, mas só recentemente ficou claro para ela a vontade de fazer sexo oral em garotas. Diz que ficou incomodadíssima quando se viu "tirada do armário" por um veículo de notícias, não por vergonha, e sim porque acha que ninguém deveria se importar com isso.

Na maior parte da reportagem, Billie conta como foi fazer o novo álbum, "Hit Me Hard and Soft", com o irmão Finneas, como a fama e o sucesso –ela é a pessoa mais nova a já ter ganhado dois Oscars– a fizeram temer pela sua segurança física. Diz que passou alguns anos ensimesmada, enfiada dentro de casa, sem socializar e que em dado momento se percebeu sem amigos.

Fala sobre como sua introspecção e intensidade emocional fazem com que seu processo de criação seja doloroso. Tal qual Fiona Apple, ela vai até o seu inferno pessoal e volta para contar como foi, e é tão autêntica nessa tarefa que leva várias pessoas a se identificarem. É uma profundidade e compromisso artístico com a vulnerabilidade que o mundo do pop raramente abarca.

Fui ler a entrevista atraída pelas manchetes lascivas, pensando "vai que rende algo safado para a coluna" e saí dali tocada como artista e estranhamente inspirada. Certamente não sou do tipo introspectiva que passa anos sem sair de casa, mas boa parte da minha produção consiste em vivenciar de modo mais vívido do que gostaria certos sentimentos e acontecimentos. Diferentemente de Billie, eu não consigo amar esse processo todo, vejo-o como uma circunstância inevitável que pode (ou não) render bons frutos.

Donde decorre uma frustração, que, creio, talvez seja uma das poucas coisas que a diva quase gótica compartilha comigo. Vivemos num mundo interior tão turbulento, pensamos e produzimos coisas tão diversas e interessantes, jogamos para o mundo tantos conteúdos muito mais íntimos que sexo, mas é sexo é o que mais escandaliza em meio a tudo isso. É porque o sexo, no fundo, é bem menos escandaloso e perturbador que a intimidade real. É como se fosse uma cortina luminosa.

Óbvio que, como colunista que fala de sexo, não estou reclamando do assunto –além de gostoso, ele é muito mais político do que se imagina. Mas, como artista, lamento que não estejamos comentando mais avidamente outros trechos da entrevista, como esse:

"Eu queria que todo mundo pensasse em mim como uma pessoa cool e misteriosa. Adorava a ideia de que as pessoas se sentiam assim, mas, então, pensei: ‘Ah, aqui estou eu sentada sozinha no meu quarto, amando a sensação de que todo mundo me acha muito cool, mas eu não estou ganhando nada com isso, eu não estou aproveitando nada da vida no fim das contas’."

Uma jovem de 22 anos se dar conta desse fato, que muitos passam a vida sem perceber, fez minha curiosidade ficar mais aguçada do que aquilo que ela faz em frente ao espelho. A autenticidade é tão mais sexy do que a performance.