Tony Goes

Comer ouro não é caro nem faz mal à saúde, mas é cafona demais

Ostentação nas redes sociais ressuscitou a inócua moda dos pratos com ouro

Nusret Gokçe separa as carnes antes de folhear com ouro - Reprodução/Instagram

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São Paulo

A moda surgiu há mais de 20 anos, e já deveria ter sumido faz tempo. Licores e chocolates salpicados de ouro fizeram um certo barulho no mercado, pois eram realmente bonitos e pareciam ser caríssimos.

Era só impressão. A quantidade de ouro presente nesses produtos é irrisória e insuficiente para alçar o preço às alturas. Além do mais, o ouro não tem gosto de nada.

Não há estudos científicos detalhados sobre o assunto, mas os nutricionistas concordam que, em doses tão pequenas, o consumo de ouro não faz mal à saúde. Também não traz nenhum benefício. O ouro em estado puro quase não é absorvido pelo organismo. Isto quer dizer que praticamente todo ouro que você comer, em breve será eliminado pelo outro lado.

Comidas e bebidas com ouro saíram dos holofotes, mas nunca sumiram por completo. E ganharam sobrevida com o advento das redes sociais: para alguns, nada dá mais status do que postar uma foto saboreando um filé dourado.

O ouro comestível voltou às manchetes por causa do jantar que reuniu os integrantes da seleção brasileira Éder Militão, Gabriel Jesus e Vinícius Jr., além do ex-jogador Ronaldo Fenômeno, na filial de Doha do restaurante Nusr-Et, do chef turco Nusret Gökçe, mais conhecido como Salt Bae.

Não é nenhum templo da gastronomia. Está mais para uma versão turbinada do Paris 6: o tipo de lugar que atrai celebridades e seus fãs com pratos espalhafatosos e instagramáveis, mas não necessariamente saborosos.

Foi divulgado que a carne folheada a ouro consumida pelos craques custaria R$ 9.000 por pessoa. O preço verdadeiro é bem mais baixo, por volta dos R$ 3.300, mas ainda assim inalcançável pela esmagadora maioria dos mortais.

A primeira reação à notícia foi de indignação: como que, num mundo onde tanta gente passa fome, os caras torram uma fortuna para comer ouro??

Até o padre Júlio Lancelotti, o maior defensor dos moradores de rua de São Paulo, reclamou. Não sei se tranquilizo o religioso, mas comer ouro não é tão caro assim. Na internet, é possível encontrar pacotes com cinco folhas de ouro comestível por apenas R$ 29,99 –dá menos de R$ 6 por folha, fora o frete.

A segunda reação foi de defesa dos jogadores. Afinal, o dinheiro é deles, foi ganho honestamente, os caras que gastem como quiserem. Concordo.

Não demorou para a discussão ganhar tons sociológicos: eles são negros, vieram da favela, venceram na vida, criticá-los é racismo.

Aí eu já discordo. Comer ouro é cafona, não importa quem esteja comendo. É ostentação, é acinte, é escárnio puro.

O que não quer dizer que não seja divertido. Eu mesmo não resisti. Certa vez, na festa de uma marca de bebidas, experimentei a versão de um famoso drink que vinha coberta por uma folha de ouro. Aliás, fiz mais do que só experimentar. Tirei fotos, gravei vídeos e mandei para vários amigos: "mordam-se de inveja, estou bebendo ouro, hahahaha".

A cafonice faz parte da experiência humana. Mesmo na gastronomia, existem pecados muito piores. Um docinho com ouro, de vez em quando, pode nos dar a ilusória sensação de que somos bacanérrimos.

Mas convém não tornar este consumo um hábito. Basta lembrar que, no século 16, a nobre francesa Diane de Poitiers, amante do rei Henrique II, gostava de ingerir ouro liquefeito, na esperança de se manter sempre jovem e bela. Resultado: morreu intoxicada, aos 66 anos de idade.