Tony Goes

Série 'Rotas do Ódio' chega à 3ª temporada abordando violência contra imigrantes

Nova leva de episódios do programa criado por Susanna Lira estreia domingo (4)

Mayana Neiva em "Rotas de Ódio" - Fábio Augusto Ferreira Santos

Não falta violência na atual safra de séries brasileiras. As guerras do narcotráfico, as rebeliões em presídios, os assassinatos de ativistas: nossa triste realidade nacional é uma fonte inesgotável de assuntos para os roteiristas.

“Rotas do Ódio”, cuja terceira temporada estreia neste domingo (4), às 23 horas, no canal pago Universal TV, tem um diferencial macabro. A violência retratada pela série é a mais gratuita de todas. Ela não visa o lucro, nem tem qualquer objetivo palpável. É movida apenas pelo ódio – aos negros, aos gays, às mulheres, aos estrangeiros.

O programa foi criado pela cineasta carioca Susanna Lira, 48, uma especialista em documentários. “Rotas do Ódio” é sua segunda incursão pela ficção, depois do curta-metragem “Mãos de Vento e Olhos de Dentro” (2008).



Formada em jornalismo, Susanna trabalhou em algumas produtoras antes de chegar à Globo News. Foi lá que ela descobriu que não gosta de trabalhar com notícias quentes, preferindo se aprofundar no contexto que as gerou.

Seu primeiro filme até que era bem descontraído: o curta “Câmera, Close!” (2005), um retrato do ator Jorge Loredo (1925-2915), que interpretou por mais de 50 anos o personagem Zé Bonitinho.

De lá para cá, Susanna não parou mais. Seu interesse pela cultura popular aflorou em séries como “Damas do Samba” (2013) e documentários como “Mussum – Um Filme do Cacildis” (2019). 

Mas a maior parte de sua já extensa obra é composta por documentários socialmente engajados, como “Positivas” (2009), sobre mulheres portadoras do vírus HIV, ou “Torre das Donzelas” (2018), que traz depoimentos de ex-prisioneiras da ditadura militar.

Em 2011, depois de terminar uma pós-graduação em direitos humanos (“para não nadar no rasinho”, diz ela), Susanna tomou conhecimento da DECRADI – a Delegacia dos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, de São Paulo, na época comandada pela delegada Margarete Barreto.

O contato com a DECRADI inspirou o documentário “Intolerância.doc”, lançado em 2016. Mas Susanna sentiu que havia material de sobra: tantas histórias ficaram de fora, que dariam uma série de TV.

Assim nasceu o projeto de “Rotas do Ódio”, que foi apresentado ao mercado do audiovisual no Rio Content Market de 2014. Vários canais se interessaram, mas a estreia só aconteceu em 2018, no Universal TV.

Os primeiros roteiros assustaram os amigos de Susanna. “Isto aqui é inverossímil, me diziam eles. Tiramos várias coisas que pareciam pesadas demais. Hoje não são mais, porque a intolerância e o ódio foram naturalizados no Brasil. O que antes era escondido em guetos agora se manifesta à luz do dia, ao sol de Copacabana”.

As duas primeiras temporadas de “Rotas do Ódio” falavam da luta da equipe da DECRADI, liderada pela fictícia delegada Carolina (Mayana Neiva) contra uma gangue de supremacistas brancos. Uma ideologia marginal, mas que agora parece ter se espalhado por uma parcela considerável da sociedade.

Na terceira safra, o foco se amplia um pouco. A gangue ainda está lá, mas dessa vez envolvida na exploração de imigrantes ilegais bolivianas, que são escravizadas por confecções de São Paulo. Um tema, infelizmente, na ordem do dia. A própria Susanna lamenta: “Eu queria que “Rotas do Ódio” fosse uma série de época, que falasse de um Brasil de tempos atrás”.

O próximo projeto de Susanna Lira também já está pronto: é a nova temporada de “Superbonita”, que estreia no GNT na próxima quarta (7), com apresentação de Camila Pitanga. Uma escolha inusitada? “Mas nós vamos questionar os padrões de beleza”, diz a diretora. Ah, bom.