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    Trupe do palhaço aterroriza São Paulo

    18/09/2013 - 07h00

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    EDMIR LIMA
    DO BANCO DE DADOS FOLHA

    Em meados dos anos 1990, o jornal "Notcias Populares" acompanhou a investigao sobre um suposto bando, formado por um negro e uma loira, que estavam apavorando So Paulo. Ele, fantasiado de palhao, e ela, de bailarina, atraam crianas com balas e doces e depois as jogavam em uma Kombi branca, sumindo em seguida. Passados alguns dias, a criana raptada era encontrada sem os rgos. Outra caracterstica que os criminosos escolhiam as vtimas sempre em frente s escolas.

    As reportagens sobre o grupo, que ficou conhecido como a Gangue do Palhao, foram publicadas no "Notcias Populares" entre os dias 20 de maio e 5 de junho de 1995. E, nesses 15 dias, o caso teve grande repercusso, mesmo com o jornal sempre deixando bem claro em suas pginas que o assunto no passava de boato.

    20.mai.95/Folhapress
    Em maio de 95, 'NP' publicou retrato falado do palhao
    Em maio de 95, 'NP' publicou retrato falado do palhao

    Tudo comeou por causa de Aline, uma menina de 11 anos, da cidade de Carapicuba (Grande So Paulo), que estava desaparecida desde o dia 31 de maro daquele ano. A partir da, o boato de que ela teria sido vtima da Gangue do Palhao se espalhou pelo Estado. Moradores de Cidade Tiradentes, na zona leste da capital, do Capo Redondo, na zona sul, e do municpio de Osasco, por exemplo, j no deixavam mais seus filhos irem sozinhos escola.

    A polcia, entretanto, sempre afirmou que a gangue nunca havia existido, pois no fora registrado nenhum caso e/ou queixa comprovada sobre o assunto. O delegado titular de Carapicuba, onde comeou a boataria, afirmava: "A gangue fruto da imaginao de algum. Se eu descobrir quem comeou com isso, prendo".

    Mesmo diante das negativas da polcia e de o "NP" publicar que tudo no passava de boato, algumas pessoas juravam ter visto os assassinos de crianas. A dona de casa N. E., moradora do Tucuruvi (zona norte), afirmou que o bando havia tentado raptar seus filhos no comeo de 1995. "Um negro numa Kombi branca parou em frente de casa e pediu para levar meus filhos para a escola. No topei, e ele falou que eu ia me arrepender." De acordo com ela, a perua era suspeita. "No tinha placa, os vidros eram fums e tinham cortinas", disse.

    Em outros bairros da zona norte da capital paulista, a populao tambm ficou amedrontada. Cleide Tavares, 40, afirmou que "eles tentaram atacar uma criana em frente a uma creche". O mecnico Carlos Adnis, de Perus, contou que sua filha no queria mais ir escola.

    Outra menina, cujo nome coincidentemente era Aline, 4, e que morava em Cidade Tiradentes, estava desaparecida desde o dia 7 de maio. Os familiares das duas Alines acreditavam que as garotas haviam sido levadas pela Gangue do Palhao.

    Folhapress
    Infogrfico do 'Notcias Populares', em 30 de maio de 1995, exibiu os locais em que havia relatos da Gangue do Palhao
    Infogrfico do 'Notcias Populares', em 30 de maio de 1995, exibiu os locais em que havia relatos da Gangue do Palhao

    Por causa da boataria, palhaos profissionais comearam a perder seus empregos, como revelou reportagem do "NP" publicada em 23 de maio de 1995. Edmilson Jos da Silva, que trabalhava em Carapicuba como o palhao Vuku-Vuku, estava sem emprego havia um ms. "S de olhar um pster com meu retrato na rua, eu j vi criana morrendo de medo", dizia.

    Vanderlei Costa, o palhao Mamadeira, um dos scios do sindicato dos palhaos, disse que a histria iria "afastar as crianas dos palhaos".

    O empresrio Alvarindo Vicente de Souza, que tinha um stio que funcionava como parque de diverses e circo no Trememb (zona norte) e que fazia o palhao Zig-Zag, disse que estava perdendo dinheiro. "Trs escolas de Carapicuba cancelaram excurses ao stio porque as crianas estavam apavoradas", afirmou.

    Alm do problema de desemprego, uma palhaa chegou a ser ameaada de morte, conforme noticiava o "NP" de 30 de maio. Os palhaos Solange e Benedito, que encenavam Maria Pipoca e Tatupim, respectivamente, tiveram a vida em risco em ameaas feitas pela populao. O casal era xingado cada vez que saia de casa. Em uma ocasio, os dois foram denunciados Rota por um taxista e acabaram na delegacia. "Outro dia usei um batom 24 horas e sa na rua. Muita gente me olhou torto, e nunca senti tanto medo na minha vida", contou Solange.

    Robson Martins, da companhia Tulim-pim-pim, voltava com sua Kombi pela rodovia dos Bandeirantes, acompanhado de Ricardo Galdeano, vestido de palhao, e Slvia Martins, fantasiada de bailarina. Robson relatou: "Na sada para a marginal Pinheiros, um cara que estava num Corcel branco e se dizia policial nos obrigou a parar e nos ameaou com uma arma".

    Jos Calazans de Oliveira, o palhao Cherozinho, passou um apuro com o prprio filho Edmrcio, ento com 12 anos. "Ele veio me perguntar se eu estava roubando crianas."

    O medo de ataques da Gangue do Palhao fez com que escolas de Carapicuba comeassem a colocar seguranas para proteger as crianas, como informou o "NP" em 25 de maio.

    No dia 27, o jornal publicou que o boato da gangue estava apavorando o interior e o litoral do Estado. Os moradores de So Roque (SP) estavam amedrontados com o bando que sequestrava crianas para tirar os rgos. O medo tambm chegou a Perube (litoral sul). A populao das duas cidades dizia que um mdico grisalho teria se juntado gangue. Vera Lcia Rodrigues, de So Roque, jurou ter visto os trs com a perua em frente de uma padaria. "O palhao tentou atrair minhas filhas, mas eu fugi."

    A partir do momento em que os boatos sobre a gangue se multiplicaram, a polcia no teve mais sossego. A delegacia de Carapicuba recebia mais de 20 ligaes por dia de pessoas apavoradas com o bando. "Ningum aguenta mais", dizia o delegado da cidade, Braslio Machado.

    Folhapress
    Em 5 de junho de 1995, o 'Notcias Populares', com a ajuda de Gil Gomes, encerra a histria da Gangue do Palhao
    Em 5 de junho de 1995, o 'Notcias Populares', com a ajuda de Gil Gomes, encerra a histria da Gangue do Palhao

    "O 'bando do palhao' no existe" foi a manchete da ltima reportagem da srie, publicada no dia 5 de junho. O "NP", a polcia e o reprter Gil Gomes investigaram o caso por dois meses e chegaram mesma concluso: tudo no passava de boato.
    Desde que as notcias comearam a ser veiculadas, Gil Gomes comeou sua investigao, entrevistando os pais das crianas desaparecidas e a polcia. "Tudo no passa de boato. At hoje, nenhuma criana foi encontrada morta sem os rgos", garantia ele.
    O delegado-geral da polcia Antnio Carlos Machado tambm afirmou que a gangue no existia. "Fizemos uma investigao no Estado todo. Nunca um caso desse tipo foi registrado", afirmou.

    O caso da "Gangue do Palhao", guardadas as devidas propores, lembrou um episdio de 1938, nos EUA, quando a rdio CBS realizou uma leitura dramtica do livro "Guerra dos Mundos", de Orson Wells, sobre uma invaso aliengena, e viu o pnico se espalhar entre milhes de pessoas. Em So Paulo, mesmo com os constantes informes do 'NP' de que a gangue no existia, os relatos sobre a trupe do palhao mostraram o quo perigoso um boato pode ser, a ponto de causar desemprego, despertar violncia e colocar vidas de pessoas em risco.

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