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Sócrates, Amy e nosso vício por escândalos
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TONY GOES
COLUNISTA DO F5
O Brasil inteiro está torcendo e rezando pelo dr. Sócrates. Internado em estado grave, o ex-jogador vem recebendo milhares de mensagens desejando-lhe força. No Twitter, o "trending topic" #drSócrates é só amor e solidariedade. Que bom.
E que diferença de Amy Winehouse, hein? Lá vou eu tocar no assunto pela terceira vez, mas fiquei meio chocado com o contraste entre os tratamentos dados à cantora e ao craque. Ela morreu, e foi tripudiada nas redes sociais. Ele luta pela vida, e felizmente está recebendo o apoio que merece.
Mas por que essa discrepância? Os calvários de ambos têm origens parecidas: o abuso de substâncias. No caso dele, o álcool. No dela, também a cocaína, a maconha e sabe-se lá o quê mais. Será que o simples fato do vício do doutor ser legalizado o torna melhor do que ela?
Amy viveu em público sua relação com as drogas. Entrou e saiu de clínicas de reabilitação, e fez muito sucesso justamente com uma canção onde dizia não precisar delas. Deu vexame em dezenas de shows por não estar em condições de cantar. Chegou a ser presa.
| Victor R. Caivano/Israel Antunes/Associated Press | ||
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Sócrates, ao contrário, foi discretíssimo. A imensa maioria de seus fãs nem desconfiava que ele tinha problemas com a bebida. Seu alcoolismo só foi revelado depois de sua internação em agosto, e em câmera lenta. Primeiro ele teria "problemas hepáticos". Depois, "cirrose". A admissão plena só veio dias depois.
A própria mídia trata o caso com luvas de pelica. Outro dia, num telejornal, ouvi que a lesão num dos órgãos do doutor teria sido causada por "ingestão de bebida alcóolica". Como se ele tivesse tomado um único drink envenenado.
Sócrates foi um dos maiores atletas que este país já teve, e entendo a relutância em associá-lo ao alcoolismo. Ninguém quer denegrir sua imagem. Mas a verdade precisa ser dita: sem sensacionalismo, com todo o respeito, mas sem meias palavras.
Agora estas palavras estão surgindo, e o lado bom é que nossa simpatia por Sócrates não diminuiu por causa delas. Vai ver que precisávamos receber a notícia assim, aos poucos, para irmos nos acostumando.
Mas tomara que chegue o dia em que não precisemos mais desse prazo. Em que consigamos saber que alguém é viciado - seja lá no que for - sem fazer um escândalo. Quem sofre com o álcool ou as drogas precisa de apoio, emocional e profissional. Não de um julgamento moral.
Tony Goes tem 50 anos. Nasceu no Rio de Janeiro mas vive em São Paulo desde pequeno. É publicitário em período integral e blogueiro, roteirista e colunista nas horas vagas. Escreveu para vários programas de TV e alguns longas-metragens, e assina a coluna "Pergunte ao Amigo Gay" na revista "Women's Health". Colaborador frequente da revista "Junior" e da Folha Ilustrada, foi um dos colunistas a comentar o "Big Brother 11" na Folha.com.
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