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Descrição de chapéu The New York Times

Oficina paga funcionário com 91.500 moedas de um centavo nos EUA

Moedas totalizavam 114 kg e estavam cobertas de óleo pegajoso

Montanha de moedas deixada em frente à casa de Andreas Flaten, com seu holerite em cima Olivia Oxley/ NYT

Heather Murphy
The New York Times

A oficina mecânica A OK Walker Luxury Autoworks, em Peachtree City, Georgia, montou Mustangs para o filme “Curvas da Vida”, com Clint Eastwood, e tentou quebrar o recorde mundial de velocidade terrestre, informa um site. Agora a oficina de luxo acaba de ganhar outra distinção rara: foi acusada de pagar um ex-funcionário em moedas de um centavo.

Mais precisamente, foram 91.500 moedas, somando US$ 915 (cerca de R$ 5.226 ), em salário devido --se bem que Andreas Flaten, que foi gerente da A OK Walker até novembro passado, não contou as moedinhas para certificar-se de ter recebido até o último centavo. Flaten disse que no último dia 12 de março seu ex-empregador, para puni-lo por ter pedido demissão e persistido em exigir seu pagamento final, deixou uma montanha cintilante de moedinhas na entrada de sua casa.

Sua namorada postou um vídeo das moedinhas no Instagram, em 13 de março, e desde então Flaten vem atraindo a solidariedade de milhares de pessoas que também estão com as relações tensas com seus patrões em meio à pandemia.

Foto mostra moedas usadas para pagar último salário de Andreas Flate - Olivia Oxley/NYT

“Se fossem apenas moedinhas, vá lá”, disse Flaten. “Bem que eu queria que fossem apenas moedinhas de um centavo, nada mais.” Mas o problema é que as moedas estão cobertas de uma substância pegajosa e com cheiro forte. Flaten desconfia que seja fluido de direção hidráulica.

Miles Walker, o dono da oficina, não respondeu quando pedimos seus comentários. Ele disse à CBS46 que não se recorda se jogou as moedas na entrada da casa de seu ex-funcionário. “Isso não vem ao caso”, disse. “Ele foi pago. É só o que interessa.”

Flaten disse que seus problemas no trabalho começaram pela falta de sensibilidade de seu patrão diante de sua necessidade de buscar seu filho na creche em um horário determinado. Walker, o dono da oficina, foi quem o contratou. E Flaten aceitou o emprego porque os dois combinaram que ele poderia sair todo dia às 17h.

Esse arranjo ganhou importância adicional durante a pandemia, quando a creche começou a fechar mais cedo. Mas, disse Flaten, a promessa feita por seu patrão foi esquecida. Esse fato, somado a algumas outras discussões desagradáveis, levou Flaten a dar aviso prévio no final do ano passado e depois a acabar deixando o emprego antes do previsto.

Meses mais tarde, o salário de sua última semana no trabalho ainda não tinha sido pago e Flaten moveu um processo junto ao Departamento do Trabalho. O órgão confirmou que entrou em contato com a oficina três vezes.

Um vídeo gravado pela câmera ligada à campainha da casa de Flaten mostra um rapaz com cabelo ondulado comprido na varanda de sua casa às 19h do dia 12 de março.

“Ei, cara, seu dinheiro está lá no final da entrada de carros”, diz o rapaz que Flaten acredita ser um funcionário atual da mecânica. Uma hora mais tarde, quando Flaten quis sair de carro, descobriu a saída bloqueada por uma montanha de moedinhas.

No meio da pilha de moedas fedorentas estava um envelope com um desenho de uma carinha reprovadora. Dentro do envelope Flaten encontrou seu holerite, mas não havia cheque algum.

Flaten e sua namorada, Olivia Oxley, passaram as horas seguintes levando cerca de 114 kg de moedas até sua garagem, empilhadas num carrinho de mão (ele contou que as rodas do carrinho acabaram cedendo sob o peso das moedas). Sua namorada postou sobre a descoberta no Instagram, onde a história despertou o interesse e espanto de muitos.

“Isso sim é que é uma troca de óleo”, escreveu uma pessoa. Outra sugeriu que, como ocorrera uma escassez recente de moedas, talvez as moedinhas valessem mais.

Várias pessoas observaram que, se as moedas estavam cobertas de óleo de motor usado, o ex-empregador de Flaten tinha na prática despejado dejetos de risco no imóvel de Flaten. Elas incentivaram Flaten a denunciar o ocorrido a um órgão ambiental.

Flaten, que tem um riacho de água doce correndo na base do morro onde fica sua casa, gostou da ideia. A Divisão de Proteção Ambiental do Departamento de Recursos Naturais da Georgia lhe disse “que nunca ouvira falar de um caso como esse”.

As reflexões sobre o despejo das moedas também chegaram às resenhas da oficina mecânica no Yelp, onde um usuário escreveu: “O proprietário pagou o salário final de um funcionário em moedas de um centavo cobertas de óleo de motor. Se ele faz isso com alguém que trabalhava para ele, não vale a pena entregar seu carro aos cuidados dele.”

Mas a publicidade toda acabou beneficiando os negócios da A OK Walker Luxury Autoworks, segundo uma mulher que atendeu ao telefone na oficina na tarde de quarta-feira (24), mas não quis se identificar.

Flaten disse que passou duas horas limpando as moedinhas para poder colocá-las numa máquina de contagem de moedas. Ele lavou as moedas numa tina grande com sabão Dawn para lavar louça, mais vinagre branco e água. Não deu certo.

Flaten descobriu que para remover a solução oleosa, o único jeito é passar um pano em cada moeda individualmente. Levou duas horas para limpar moedas no valor de US$ 5. Ele já pensou em mover uma ação na Justiça, mas sabe que o que aconteceu talvez não seja tecnicamente ilegal.

Perguntado em mensagem de e-mail se é permitido por lei pagar um funcionário em moedinhas de um centavo cobertas de óleo, Eric R. Lucero, um porta-voz do Departamento de Trabalho, respondeu: “Não há nada nos regulamentos que dite em que moeda um funcionário deve ser pago”.

Tradução de Clara Allain.

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