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Descrição de chapéu The New York Times tiktok

StripTok: Strippers compartilham perigos e alegrias do trabalho na web

Rede social vira lugar de troca de experiência e complementa renda

Teauryajya DuBenion trabalha no The Red Leopard em Satellite Beach, Flórida Todd Anderson/ NYT

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Madeleine Connors
The New York Times

Teauryajya DuBenion, 29, começou sua carreira como stripper em Los Angeles, nos Estados Unidos, com o encorajamento de alguns amigos. Ela disse que “em Los Angeles, todo mundo é stripper. A enfermeira local é stripper, a professora é stripper, a pessoa que leva o cachorro dos outros para passear é stripper. Eu estava cansada de não ter o que comer”.

Agora, mais de dois anos e 400 mil seguidores mais tarde, DuBenion, conhecida como @PicassoBae, se vê como a amiga stripper de todos no TikTok. “Basta me procurar no camarim se sua noite não estiver indo bem e pode desabafar”, ela disse. “E sou aquela amiga do trabalho ou a ‘marida’ de trabalho”.

DuBenion é parte de uma comunidade cada vez maior de strippers que se reúnem no TikTok e postam com o hashtag #StripTok. Em lugar de conversar no bebedouro, elas criaram uma rede online para troca de informações de trabalho, dicas de segurança e boas e velhas fofocas sobre as casas de strip.

DuBenion recentemente fez um vídeo que se tornou sucesso viral no TikTok, aconselhando as strippers sobre o que fazer se precisarem dançar quando estão menstruadas. Ela oferece dicas diretas e práticas, como “use duas calcinhas”.

O vídeo foi assistido quase meio milhão de vezes e a seção de comentários era como um coro de mulheres oferecendo dicas de higiene feminina. “A seção de comentários ficou repleta de mensagens de mulheres que ofereciam conselhos adicionais sobre os métodos que funcionavam para ela e sobre se as meninas deviam ou não dançar”, disse DuBenion. “Foi maravilhoso”.

Ela acredita que muitas das mulheres que a seguem no TikTok não o fazem porque querem ser strippers, mas simplesmente porque seu carisma e segurança as inspiram.

“Pessoas já me mandaram mensagens para dizer que se sentiam mais confiantes agora, seja para se tornarem strippers ou em seus empregos atuais, ou quanto às metas de vida que estabeleceram para si mesmas”, ela disse. “E tudo por causa da maneira pela qual falo sobre minhas experiências de vida como stripper”.

Outra usuária popular do StripTok é Sky Hopscotch, 27, o nome que ela usa na mídia social. Em uma noite recente de frio, em sua casa em Des Moines, Iowa, ela jogou displicentemente seus equipamentos em uma mochila preta cintilante, lendo uma lista: lingerie, maquiagem, lenços de papel, perfume e remédio para dor de cabeça.

Em uma voz entediada e sem expressão, ela falava sem mostrar o rosto na câmera: “Não se enganem: os caras em cima dos quais vocês vão dançar suarão em cima de vocês também”.

Ela subiu esse tutorial acompanhado por uma legenda: “Sua vida está em crise? O aluguel está atrasado? O que levar para sua primeira noite de trabalho como dançarina exótica”.

Na manhã seguinte, o vídeo já tinha sido visto mais de dois milhões de vezes e a conta dela tinha 30 mil seguidores. “Foi então que comecei a postar só conteúdo para o StripTok”, ela disse.

Na plataforma, ela encontrou uma audiência ansiosa para herdar a sabedoria que Sky Hopscotch acumulou como stripper: o lado bom, o lado ruim, a banalidade da atenção masculina. “Descobri que existia toda uma comunidade de strippers no TikTok”, ela disse.

“Muitas mulheres estavam compartilhando suas experiências como strippers. Algumas com a intenção de educar, outras glorificando o setor. E eu pensei: por que não contar minhas experiências?”

Nesse enclave do app, as mulheres mostram machucados que sofrem quando dançam, contam melodramas de camarim, se vangloriam das gorjetas e lamentam o assédio sexual. De muitas maneiras, o StripTok permitiu que as strippers retomassem o poder sobre seu trabalho, em parte porque as garotas oferecem conselhos e encorajamento a outras pessoas do ramo, em um setor onde o desapontamento é a norma.

Ao começar sua carreira, dez anos atrás, Sky Hopscotch era o que a comunidade do strip costuma descrever como “baby stripper”. As dançarinas inexperientes são ainda mais vulneráveis a assédio e exploração e aos caprichos de chefes e clientes.

“Os clientes das casas de strip costumavam concentrar a atenção em mim e pedir ‘lap dances’, porque sabiam que eu era inexperiente”, ela disse. “A mão boba era mais comum, eles tentavam trapacear no pagamento ou me convencer a sair do clube com eles”.

Muitas strippers do TikTok estão usando a plataforma a fim de ajudar as dançarinas mais jovens a evitar experiências perturbadoras. Elas têm a esperança de que seus conselhos sejam um passo para criar mais segurança nas casas de strip e torná-las mais acolhedoras como local de trabalho.

“É vital que as dançarinas veteranas contem seus segredos como a dica de contratar um segurança para acompanhar uma dançarina a festas de despedida de solteiro para que as meninas novas no ramo não sofram demais”, disse Sky Hopscotch.

As casas de strip, que vivem sob pressão para satisfazer as fantasias masculinas e são ambientes muito competitivos, muitas vezes se tornam locais de trabalho opressivos. O custo em termos de saúde mental pode ser considerável.

“Eu tive problemas sérios de depressão, vício em drogas e álcool, distúrbios alimentares –todo tipo de coisa”, disse Sky Hopscotch. “Se eu não estivesse bonita, se não estivesse magra, eu não teria como pagar minhas contas”.

Se as casas de strip são dominadas pelo olhar masculino, o StripTok oferece algo diferente aos seus seguidores: um lugar no qual as strippers estão livres para se apresentar como elas mesmas.

Muitos dos vídeos do StripTok mostram strippers vestidas casualmente –sem maquiagem, descansando em vestiários, folgando em casa, usando roupas comuns. Outras aparecem usando camisetas largas e aconselham colegas sobre como deduzir do imposto de renda as extensões capilares que usam.

Katt, 24, uma stripper que vive em Los Angeles e pediu para ser identificada apenas pelo prenome, encontrou refúgio no StripTok depois que o trabalho a decepcionou. Ela se preocupa por as casas de strip despertarem “as partes mais tóxicas de mim, que querem só agradar os homens”.

Teauryajya DuBenion se prepara para trabalhar no The Red Leopard em Satellite Beach, Flórida - NYT

Quando se tornou ativa na comunidade do StripTok, Katt começou a testar, de modo brincalhão, sua representação de gênero. “As pessoas me veem de cabelo curto, cabelo comprido, perucas diferentes; tipos diferentes de maquiagem, ou maquiagem nenhuma”, disse Katt.

“Minha sensação é de que sempre existem pessoas lá, me animando e simpatizando com minha experiência sem se incomodar com que aparência tenho. Isso realmente me valida”.

Katt tem ascendentes asiáticos e disse que objetificação é algo que conhece a fundo, no trabalho e fora dele. “É algo que experimentei durante minha vida toda, por toda espécie de homem”, ela disse. “Você se vê na mídia como a garota asiática gostosa ou a garota asiática nerd”.

Em sua plataforma online, ela relata sua experiência de ser bissexual e asiática na comunidade do striptease, muitas vezes recebendo centenas de comentários positivos e muito apoio de strippers de origens muito distintas.

Katt, cujos vídeos para o TikTok muitas vezes incluem raps, espera que, ao mostrar o dia a dia das strippers, ela ajude a humanizar a profissão. “Você chega para o trabalho às 19h”, ela disse. “E as meninas estão lá comendo uma salada, jogando no celular, conversando sobre os problemas que têm com os homens em suas vidas”.

O interesse pela vida interior das strippers que surgiu no TikTok tem precedentes. “É por minha causa”, disse A’Ziah King, conhecida como Zola, em uma mensagem de Instagram. “Dei origem a uma era e criei uma avenida para que as trabalhadoras do sexo passassem e expressassem suas experiências, e fico feliz por essa porta estar aberta agora”.

Em 2015, King publicou uma longa série de tuites, 148, sobre um final de semana devasso que ela tinha passado como stripper. As mensagens dela revelavam detalhes fascinantes sobre traição, tentativas de homicídio, tráfico sexual e amizades perdidas. A história se tornou sucesso viral em todo o mundo, em poucas horas, e recentemente foi adaptada para o cinema no filme “Zola”, de Janicza Bravo.

“Acho que é crucial para a comunidade revelar todos os ângulos e experiências do trabalho na indústria do sexo, e só uma pessoa que tenha estado lá pode fazer isso”, disse King. “É importante que compartilhemos essas experiências, porque isso cria espaços seguros e um senso de comunidade.

Apesar de ser uma forma de escapar à burocracia das casas de strip, o TikTok, como outros sites de mídia social muitas vezes censura as strippers e trabalhadores do sexo. As regras de uso do TikTok definem que “nudez, pornografia ou conteúdo sexualmente explícito são proibidos”.

Mas as strippers dizem que conteúdo informativo sobre saúde e segurança e tutoriais de interesse geral também são censurados. DuBenion teve sua conta cancelada e teve de criar uma conta nova recentemente. Muitas vezes, vídeos são removidos do TikTok e contas são bloqueadas (essencialmente, ficam invisíveis a não ser para seu titular). Conteúdo é removido sem qualquer explicação.

Isso pode afetar o trabalho, já que algumas strippers dependem do Creator Fund do TikTok como segunda fonte de renda em períodos de baixo movimento nas casas noturnas. Sky Hopscotch disse que sua conta foi cancelada diversas vezes quando ela posta vídeos educacionais em apoio aos trabalhadores do sexo. E quando isso acontece, sua renda secundária despenca.

“Eu estava faturando de US$ 40 (R$ 210) a US$ 60 (R$ 315) por dia do Creator Fund e de repente, nas últimas três semanas, minha renda lá caiu para 96 centavos de dólar por dia (R$ 4,70), no máximo”, ela disse. “Temos de ser cuidadosas com aquilo que dizemos e fazemos no TikTok por medo de perder a plataforma”.

Muitas strippers estão usando a plataforma para promover a conscientização sobre as leis FOSTA e SESTA, aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos em 2018 com o objetivo de restringir o tráfico sexual online. Muitos trabalhadores do sexo se sentem marginalizados pela legislação.

“Muitas de nós foram prejudicadas, ainda que o objetivo declarado fosse reprimir o tráfico sexual –as estatísticas provam que isso não aconteceu de modo algum”, disse Sky Hopscotch. “Só fez com que pessoas como eu perdessem ainda mais sua plataforma”.

“Um dos legados das leis FOSTA-SESTA foi tornar muito mais perigoso para quem trabalha com sexo fazê-lo de forma mais segura e mais saudável”, disse Emma Llansó, diretora do Free Expression Project do Center for Democracy and Technology, uma organização sem fins lucrativos em Washington dedicada a defender os direitos dos indivíduos na formulação de leis relacionadas à tecnologia.

“Houve repressão a sites nos quais as pessoas podem trocar informações sobre saúde e bem-estar: informação de toda espécie, que os trabalhadores do sexo estavam usando na verdade para se manterem seguros e informados e ajudar uns aos outros”.

Essa censura resultou no uso de uma linguagem distorcida e oculta no TikTok para discutir o trabalho com sexo. Para se adaptar às regras do TikTok, as strippers descrevem seu trabalho como “contabilidade” ou “skripping” para se camuflar.

“Sempre que quero falar de strippers, digo ‘skrippa’”, conta DuBenion. “Às vezes, se escrevo a palavra, uso cifrões e um ponto de exclamação no lugar do I. Há truques que você precisa usar se quer que o vídeo passe”.

A despeito dos horários cansativos e dos saltos altos dolorosos, ela ainda ama ser stripper. Está economizando o dinheiro que ganha como dançarina para criar um lar coletivo para pessoas com síndrome de Down, uma condição que sua irmã tem.

“Foi só recentemente que comecei a receber doações de parentes, amigos e até simpatizantes que me conhecem da mídia social”, disse DuBenion. “Economizei todo o dinheiro que ganhei com o TikTok Creator Fund para pagar a entrada na compra da casa. Nunca imaginei que ser stripper teria impacto tão positivo em minha vida e nas vidas dos que me cercam”.

DuBenion recorda ocasiões em que homens foram a casas de strip em que ela trabalha e lhe deram gorjetas de US$ 100 (R$ 523), comovidos com os atos de caridade dela online. Ela espera que essa experiência encoraje outras strippers a contar suas histórias e expressar sua vulnerabilidade e descontentamento.

“Quero que todos vejam que sou uma pessoa real e tenho propósito no mundo”, ela disse. “Estou fazendo o que faço por uma boa causa, e as pessoas simpatizam comigo. Não sei como definir –mas não sou um objeto”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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