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As habilidades que tornaram introvertidos estrelas do home office na pandemia

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Kate Morgan
BBC News Brasil

Quando a pandemia fechou seu escritório e forçou Veronica Wortman Ploetz e toda a sua equipe a trabalhar de casa, ela se tornou mais produtiva, quase imediatamente. Gerente sênior em uma organização de treinamento de liderança, Wortman Ploetz se considera introvertida.

"Obtenho minha energia ao estar sozinha, recarregando", diz ela. Nas primeiras horas da manhã, quando sua casa estava silenciosa, ela se viu de repente realizando mais do que normalmente era capaz no ambiente movimentado —e, para ela, desgastante— do escritório.

"Eu levantava às 5h da manhã e, em vez de ter que de fazer uma longa lista de coisas para poder sair de casa e fazer o trajeto de 45 minutos [até o escritório], eu já estava a postos", conta Wortman Ploetz. "Eu conseguia fazer tudo quando me sentia energizada naquele momento de silêncio."

Embora a transição para o trabalho remoto no início de 2020 tenha sido abrupta para todos, alguns se viram prosperando mais do que outros —em muitos casos, graças ao tipo de personalidade. Muitos profissionais introvertidos acharam preferível trabalhar em um ambiente sem distrações.

As necessidades dos clientes também mudaram de maneiras que beneficiaram o conjunto de habilidades dos introvertidos, enquanto a comunicação virtual ofereceu mais oportunidades de eles compartilharem seus pensamentos.

Para os profissionais mais "quietos" que um dia passaram despercebidos, o trabalho remoto ofereceu não apenas um dia a dia menos desgastante, mas também uma oportunidade de combinar essa energia extra com novas formas de trabalhar —e realmente se destacar.

A VEZ DOS INTROVERTIDOS BRILHAREM

Nos dias de incerteza do início da pandemia, as necessidades das empresas e de seus clientes sofreram uma mudança, e os trabalhadores que conseguiram atendê-las se destacaram.

"Enquanto os extrovertidos são celebrados por serem expansivos, voltados para a ação e entusiasmados, os introvertidos oferecem pensamento analítico e empatia", diz Richard Etienne, especialista em marcas, que dá palestras sobre introvertidos no mercado de trabalho.

"Durante a pandemia, essas habilidades se tornaram de cara incrivelmente requisitadas. Os introvertidos são confiáveis; pessoas que pegam um projeto de cada vez e executam minuciosamente. São bons em reflexões profundas e em criar conexão pessoal. Isso foi muito importante durante o período em que as empresas estavam tentando manter os clientes."

Em uma entrevista recente à Bloomberg, Patty McCord, ex-chefe de recursos humanos da Netflix, disse que estava claro que os gerentes ficaram cientes das habilidades dos funcionários que não chamavam atenção antes.

Ela disse que tinha uma "matriz de habilidades" que costumava usar para identificar um grande vendedor: "Capaz de controlar uma sala, muita energia e carisma, confiante. E isso mudou completamente durante a pandemia", afirmou McCord. De repente, os melhores funcionários daquela empresa eram "os mais calados, que apenas participam de uma chamada com o cliente e ouvem".

A empatia e propensão a uma comunicação mais cuidadosa fizeram os introvertidos brilharem, acrescenta Beth Buelow, coach de carreira e autora do livro "The Introvert Entrepreneur" ("O Empreendedor Introvertido", em tradução literal). "Essa tendência de colocar os outros no centro das atenções, de segurar a equipe e ser aquele parceiro silencioso é um ponto forte", diz ela.

"Isso é parte do que os gerentes e líderes testemunharam. Eles precisavam do ouvinte empático. A pessoa que estava disposta a dar um passo atrás e dizer: 'Espero que você esteja bem; como podemos ajudar?'"

UMA MUDANÇA DE RITMO REVIGORANTE

Além de ter o conjunto certo de habilidades inatas, muitos introvertidos se beneficiaram com a mudança de um ambiente físico de escritório. Isso porque o escritório tradicional, em muitos aspectos, realmente não era adequado para profissionais com personalidades assim.

"O local de trabalho foi criado por extrovertidos, para extrovertidos", afirma Etienne. E, segundo ele, o conceito de escritório aberto acaba sendo quase criminoso. "A facilidade com que as pessoas podem acessar seu espaço sem serem convidadas pode ser intensa."

Etienne já sentiu isso na pele: "Minha mesa ficava perto dos elevadores. Não conseguia 15 minutos de paz". Isso é difícil para alguém com uma personalidade introvertida, uma vez que o bate-papo constante pode ser exaustivo. Enquanto os extrovertidos, em contrapartida, sentem-se energizados com a interação social, explica Etienne, "no fim do dia, o introvertido está exaurido".

Wortman Ploetz diz que muitos que a conhecem podem se surpreender com o fato de ela se descrever como introvertida. Ela passa muito tempo em reuniões e sessões de treinamento prático, mas, no fim das contas, "me energizo quando estou em um lugar tranquilo, sozinha".

A neurociência ajuda a confirmar esta teoria. Estudos mostram que os extrovertidos são menos sensíveis à dopamina e, portanto, requerem muito estímulo para se sentirem suficientemente energizados. Já os introvertidos são muito mais sensíveis ao neurotransmissor, e o excesso de estímulos pode rapidamente se tornar cansativo.

Em geral, acrescenta Buelow, os introvertidos pagam um preço por cada interação social ao longo do dia. E esse custo caiu consideravelmente com a mudança para o trabalho remoto. "Eles não estão recarregando a energia quando estão no escritório e são estimulados o tempo todo", explica.

"Só em virtude de haver isolamento em casa, você tem mais oportunidades, mais equilíbrio. Sua proporção de tempo sozinho/social é muito mais saudável."

Etienne se considera uma pessoa mais introvertida. Assim como Wortman Ploetz, ele diz que acabou se tornando mais produtivo trabalhando de casa. "Me senti mais no controle da gestão do meu tempo", afirma.

"Por exemplo, acho que todos nós já passamos por isso: você termina uma reunião e está voltando para sua mesa, alguém vê você e rola um bate-papo. E você perde o tempo para processar a reunião que acabou de terminar. Isso não acontece mais. Agora, posso ter meu momento de reflexão em silêncio, sem perturbação. Em plataformas como Zoom e Teams, há até configurações de 'não perturbe'; você literalmente não pode me enviar mensagens."

JOGANDO COM OS PONTOS FORTES

Além de proporcionar mais paz e tranquilidade, o novo ambiente de trabalho amigável para os introvertidos abriu espaço para que essas personalidades se destacassem de outras maneiras. "A mesa física de reunião desapareceu e, com ela, a estrutura hierárquica das pessoas barulhentas reunidas no centro e dos introvertidos sentados à margem", diz Etienne.

E, segundo ele, aqueles que poderiam hesitar em entrar em uma discussão em uma sala de conferência foram empoderados por espaços de reunião virtuais. "Se alguém tem medo de falar em público, trabalhar remotamente permitiu que essa pessoa compartilhasse seu conhecimento, talvez até mesmo para milhares de pessoas, enquanto ela estava vendo apenas uma luz verde no topo da tela do laptop", afirma.

As reuniões virtuais também tendem a ter menos interrupções e sobreposição de interlocutores. "A etiqueta da plataforma é diferente", diz Buelow. "Você fica muito mais ciente se está interrompendo ou falando ao mesmo tempo que alguém."

O ritmo de conversação um pouco mais lento oferece aos introvertidos o tempo que precisam para organizar seus pensamentos. "Eles têm mais tempo para refletir e, então, quando compartilham algo, é significativo", diz ela.

Além disso, virtualmente, "há mais ferramentas à disposição para contribuir com a conversa. Não é só quem consegue entrar no papo, tem o chat, 'levantar a mão', reações que você pode enviar".

Sem contar que colegas extrovertidos e barulhentos são menos propensos a dominar um espaço virtual do que físico. "Em volta da mesa, algumas pessoas consomem mais energia; ocupam mais espaço", diz Buelow. "Virtualmente, todos estão ocupando o mesmo espaço. Isso nivela a energia."

IMPACTO DURADOURO

Com o retorno ao escritório —e todos os seus estímulos onerosos—, Buelow está otimista de que as lições aprendidas com o trabalho remoto tornarão os líderes e locais de trabalho mais acolhedores para os introvertidos. A definição de "funcionário do mês", segundo ela, mudou.

"Tradicionalmente, considerávamos 'contribuição' como sinônimo de falar", explica. "Acho que aprendemos que a contribuição pode assumir muitas formas, e não se trata necessariamente da pessoa que fala mais."

Há táticas que os gestores podem usar para garantir que funcionários mais introvertidos possam continuar a contribuir, mesmo se a equipe estiver fazendo a transição de volta para o trabalho presencial. Soluções simples, como sessões de ideias ou bate-papos em pequenos grupos antes da discussão com a equipe toda, podem fazer a diferença, diz Buelow.

"É uma consideração sobre como respeitar aqueles que gostariam de alguns minutos para pensar em silêncio antes de compartilhar seus pensamentos. À medida que voltamos para o escritório, os líderes precisam se perguntar: 'Estamos oferecendo uma diversidade de maneiras de contribuir?'. Há muitas maneiras de fazer isso — requer apenas um pouco de criatividade", completa.

Wortman Ploetz conta que as lições aprendidas sobre como diferentes tipos de personalidade podem ter um desempenho melhor é "algo que estamos levando de volta ao escritório". "Há algumas pessoas na minha equipe que precisam desse tempo de silêncio. Então, talvez elas reservem uma sala de reunião ou coloquem algum indicador visual na mesa ou na porta que diga 'por favor, volte outra hora'. E não é ofensivo. Só significa que essa pessoa não quer se distrair. Não sei se entenderíamos isso antes, mas agora entendemos."

Wortman Ploetz diz que ela própria também mantém alguns dos hábitos que a tornavam tão produtiva em casa. "Sou muito mais diligente quando vou aceitar reuniões no calendário", revela. "E me certifico de que haja espaço entre elas, mesmo que seja de 15 minutos. Acho que é um limite saudável, que eu não teria estabelecido sem a pandemia."

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