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Aniversário triste: Paulistanos relatam o que sentem falta de São Paulo na pandemia

Recrudescimento das regras de isolamento afeta comemorações

William Marques, 43, engenheiro mecânico, gosta de circular pelo centro da cidade - Gabriel Cabral/Folhapress
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São Paulo

A cidade de São Paulo completa 467 anos nesta segunda-feira (25), mas as comemorações estarão mais tristes dessa vez, principalmente para quem gosta de curtir o que a cidade tem a oferecer. Não haverá visita a museus, centros culturais, cinemas e teatros, passeios suspensos em tempos de pandemia. Paulistanos ouvidos pelo F5 afirmam que a maior saudade é desse poder de ir e vir com liberdade pelas ruas.

“Nasci aqui, conheço tudo na cidade, sempre participei dos eventos de comemoração e isso não vai acontecer esse ano. Isso me deixa triste”, afirma o engenheiro mecânico William Marques, 43, apesar de as celebrações oficiais da Prefeitura de São Paulo acontecerem sim, mas online, incluindo projeções e intervenções em homenagem aos profissionais de saúde e às vitimas da Covid.

E o distanciamento da cidade e seus moradores continuará por algum tempo, já que o governo estadual decidiu endurecer as regras diante da alta dos casos de Covid. A partir desta segunda, a fase vermelha valerá para todas as cidades paulistas a partir das 20h, todos os dias da semana. Nos fins de semana e feriados, a medida valerá durante o dia e a noite.

Como Marques, a publicitária Vivian Salazar, 40, sente falta de poder curtir a cidade sem restrições. “Pouco antes da pandemia, eu estava em uma fase de testar lugares, festas à noite. E sempre curti muito a cidade durante o dia. Gostava de sair andando e descobrir lugarzinhos”, relata ela.

Foi durante suas caminhadas, por exemplo, que ela descobriu que a galeria de arte Crua, nos Campos Elísios (centro), era também um ponto de encontro para amigos. “Vi que eles faziam um churrasco à tarde na calçada e logo começaram a produzir festinhas também, era tudo de graça”, lembra ela. O local permanece fechado desde o ano passado.

Salazar descobriu brechós, lojas de vinil e sebos em seus passeios. E amava tomar um café na Oscar Freire, nos Jardins. “Sei que há um preconceito com o lugar, por ter lojas de luxo, mas eu adoro observar pessoas, e lá se você para, percebe que tem todo o tipo de gente circulando por ali. Era um lugar vivo.”

A publicitária escapa hoje apenas para passear com o cachorro por Pinheiros (zona oeste), onde mora. “Sou do grupo das chatas da pandemia. Se eu posso ficar em casa, eu vou ficar. E sou privilegiada de poder ficar em casa. Posso andar por aí de máscara? Posso, mas não é mais a mesma interação”, defende ela.

Segundo ela, perdeu a graça andar por uma cidade em que tudo está fechado, em que as pessoas andam apressadas para cumprir com suas obrigações o mais rápido possível. Salazar sente, ainda, que muito evento virtual apenas não funciona. “Já tirei férias para ir à Mostra de Cinema de São Paulo, mas agora não quis nem ver os destaques. Para mim, a mostra é poder andar de um cinema para o outro, pegar a programação e rabiscar. Escolher um filme e depois mudar de ideia”, relembra.

Esse “rolê” sem destino também é a melhor curtição para a diretora de arte Rosangela Vicente, 47. A liberdade de poder escolher, sem programação, durante uma caminhada é o que ela mais sente falta. “Eu saía muito, eu morava em Pinheiros antes da pandemia. Ali eu frequentava o CineSala, passava por exposições, ia muito ao Itau Cultural, que fica na [avenida] Paulista. Saía só para andar, espairecer e acabava fazendo de um tudo”, conta ela.

Além da pandemia, ela se mudou para um bairro mais residencial, a Vila Clementino (zona sul), com pouca coisa para observar ao longo de uma caminhada. “Foi um golpe duplo. Sempre trabalhei em casa e quando saía em Pinheiros eu tinha a facilidade de fazer tudo a pé ou de metrô”, conta ela.

Sem programação atualmente, o engenheiro William Marques também afirma que sempre amou circular pela cidade. Com a pandemia, a avenida Paulista não fecha mais aos domingos, não há artistas de rua e alguns pontos de visitação possuem tantas restrições que ele se sente desanimado de tentar.

“Sempre trabalhei em casa e usava a hora do almoço para espairecer. A grande sacada de você passear pelo centro, é parar para assistir a um artista de rua, por exemplo. Agora ainda tem, mas ninguém pode parar e ficar observando”, conta ele. “Está todo mundo na rua, com medo”, completa.

A calçada do Bar Brahma, no centro, em que era possível só observar a circulação também não é mais opção. E o clima do Mercadão Municipal (centro) não é mais o mesmo. “Eu parava nas bancas, experimentava uma fruta nova importada que me ofereciam, parava para comer um dos lanches, o mezanino estava sempre cheio. Com tantos protocolos, as pessoas só vão para comprar o que precisam e vão embora”, conta ele.

Dos equipamentos culturais que Salazar mais se sentiu convidada a ir no período em que a contaminação caiu foram os museus. Esses locais foram reabertos no início de outubro, seguindo protocolos de higienização. “É um lugar que ninguém vai estar. Fui ao MIS [Museu da Imagem e do som], ao Masp [Museu de Arte de São Paulo] e ao MAM [Museu de Arte Moderna]”, diz ela.

Rosangela Vicente também arriscou o mesmo período para dar uma volta pelos museus que tinham abertos. “Fui ao MIS e à Pinacoteca, mas foi tudo o que consegui. Logo, voltei pro isolamento de novo.” Ela relata que sentiu, durante esses passeios, que vivia em um mundo paralelo.

“Andei pelo centro para ir ao CCBB [Centro Cultural Banco do Brasil] e fiquei assustada de ver as pessoas vivendo a vida como se não houvesse pandemia, muitas porque precisam trabalhar. Como eu saio muito pouco, eu me resguardei mais, dá uma paúra ficar perto de muita gente”, conta a diretora de arte.

O cinema de rua, uma de suas atrações preferidas de Vicente, por exemplo, ela deixou de lado. “Por ser um lugar fechado, com ar condicionado...Penso que, por mais cuidados que eles tomem, eu não me sinto confortável”, relata.

O CineSala, na rua Fradique Coutinho, ficou oito meses fechado e reabriu apenas em novembro, já com poltronas novas e “muito rigor no protocolo de operação para oferecer segurança aos espectadores e colaboradores”, segundo informou a assessoria do local. Foi preciso fazer uma espécie a vaquinha virtual para poder manter o local aberto e fazer toda a readequação que atendesse aos protocolos de higienização das autoridades sanitárias.

Já William Marques até arriscou ir ao cinema para ver a estreia de “Mulher Maravilha 1984”, mas não teve muita sorte. Ele foi a um dos cinemas de rua do centro e não se sentiu seguro. “Eles não estavam seguindo muito bem os protocolos”, afirmou ele.

Os teatros independentes eram também um dos hobbies de Marques, que estava sempre atento à programação. “Espaços como da Bela Vista e do Bexiga tinham menos recursos, então acho difícil eles reabrirem com tanto protocolo de segurança. Não deve haver dinheiro para investimento”, conta o engenheiro. Ele acredita que, talvez, essas sejam uma das últimas atrações a serem reabertas na cidade.

Ao longo da pandemia, algumas peças aconteceram com público reduzido ou foram transmitidas pelo youtube. Já o parque Ibirapuera era um dos lugares preferidos do engenheiro para andar de patins, mas ele não frequentou mais nos últimos meses. “É difícil fazer exercício de máscara, que atrapalha a respiração e a visão periférica. Fica perigoso patinar assim”, lamenta.

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