Viva Bem
Descrição de chapéu The New York Times

Nostalgia ataca na pandemia e faz hits do passado voltarem a fazer sucesso

Pesquisas mostram que filmes e músicas antigas podem diminuir a ansiedade

As integrantes da banda britânica Spice Girls France Presse

Jenny Gross

Para a veterinária Libby Torchia, o ponto de ruptura na pandemia chegou certa manhã de maio, quando ela brigou com o chefe sobre se o pessoal deveria ou não usar máscara, na clínica em que eles trabalham em Columbus, Ohio. ("É claro que deveríamos!", disse Torchia, 32.)

Os colegas sabiam como reconfortá-la: tocando a canção "Wannabe", do grupo Spice Girls. Saindo da sala de cirurgia, onde estavam se preparando para castrar um cachorro, eles começaram a dançar. "Isso me ajudou a retomar o foco e me deixou muito mais feliz; consegui abstrair o conflito", disse Torchia.

Algumas pessoas recomendar manter o silêncio durante o café da manhã. Outras propõe exercícios de respiração. Para outro grupo, o mecanismo mais eficiente para lidar com as irritações políticas e a pandemia é escapar para o passado, ouvindo os sucessos da década de 1990, assistindo a filmes velhos e jogando videogames de 16 bits. Quando o mundo está virado de cabeça para baixo, por que não voltar no tempo a um período em que tudo parecia mais simples?

Não são só as Spice Girls e o Fleetwood Mac que estão desfrutando de momentos de retorno. "Jurassic Park - Parque dos Dinossauros" (1993); "Star Wars: O Império Contra-Ataca" (1980); "Abracadabra" (1993) e "Os Goonies" (1985) entraram nas listas de sucesso de bilheteria nos últimos meses, especialmente nos cinemas drive-in, onde o distanciamento social é mais fácil.

"Picardias Estudantis" (1982) foi o principal assunto de conversa no Twitter, certa noite, depois que Jennifer Anniston, Brad Pitt, Julia Roberts e outras celebridades leram alguns diálogos do filme em uma reunião virtual.

Esses recuos ao passado não têm enfrentado muita concorrência, é claro, já que muitos dos grandes estúdios de cinema optaram por adiar seus lançamentos para o ano que vem ou mesmo mais tarde. Mas as pessoas estão recuando aos velhos favoritos ou aos velhos passatempos não apenas porque não existe nada mais para ver ou fazer. Esses filmes e canções oferecem consolo e previsibilidade em um período no qual cada semana parece trazer surpresas desagradáveis.

Pesquisas mostram que conjurar nostalgia ao assistir a filmes antigos ou retomar hobbies do passado é uma forma efetiva de lidar com o estresse e a ansiedade. Fazê-lo pode restaurar o humor, elevar a confiança e inspirar uma sensação de otimismo, disse Wing Yee Cheung, professor associado de psicologia na Universidade de Winchester, Inglaterra, que estuda a nostalgia.

“Sentimos que perdemos o pé, no presente, e encontramos algum conforto em recuar um passo e revisitar alguma coisa que nos leve a recordar um tempo no qual costumávamos nos sentir mais conectados aos outros”, disse Cheung. “Isso propicia a energia de que a pessoa precisa para lidar com o que está acontecendo agora e seguir em frente”.

Torchia, que agora trabalha em outra clínica veterinária, disse que durante a pandemia passou horas ouvindo canções das Spice Girls e Britney Spears, favoritas de seus anos no ensino primário e secundário, porque elas as fazem recordar de uma era em que se sentia mais esperançosa e menos isolada de sua família. Ela também assistiu a cerca de 10 filmes clássicos da Disney, entre os quais “Mulan” (tanto o original de 1998 quanto a refilmagem deste ano), e na noite da eleição assistiu à comédia romântica “A Mentira” (2010), para manter a calma enquanto aguardava os resultados.

Lasana Harris, professor assistente de psicologia no University College de Londres, disse que os benefícios psicológicos de se perder nas tramas de velhos filmes e programas de TV podem durar de alguns minutos a um dia inteiro. “Isso muda a narrativa que você constantemente faz para você mesmo, e o lembra de que há pessoas que o amam e se preocupam com você mesmo que faça algum tempo que você não ganha um abraço”, disse Harris.

Ele constatou que, em seu caso pessoal, buscar algo conhecido foi sua primeira atitude no começo da pandemia. A cada manhã, por meia hora antes de começar a trabalhar, ele produzia “mixes” de música em seu computador –algo que tinha deixado de fazer décadas atrás.

“Precisamos de distração, de vez em quando”, disse o psicólogo.Distração vem sendo fundamental para Anna Townsend, profissional de recrutamento em Athens, Geórgia. Eivada de ansiedade por causa do coronavírus, dos protestos em Atlanta, da eleição, e da recente perda de emprego por seu marido, ela decidiu assistir a menos noticiários na TV e se concentrar em comédias clássicas.

Disse ter assistido a mais de 40 filmes, de março para cá, entre os quais “Gasparzinho - O Fantasminha Camarada” (1995), “A Família Addams” (1991), “Halloweentown - Um Lugar Mágico” (1998), “Debi & Lóide - Dois Idiotas em Apuros” (1994) e “Abracadabra”. “É uma maneira de entorpecer um pouco a mente”, disse Townsend, 31. “Você consegue passar uma hora e 45 minutos sem pensar demais”.

Em Jalandhar, uma cidade no noroeste da Índia, Banvinder Singh disse que resistiu ao lockdown assistindo a filmes de Bollywood produzidos nas décadas de 1960 e 1970, e ouvindo canções do Punjab gravadas décadas atrás. Isso ajuda a manter o ânimo de sua avó, que tem 82 anos e não pode ir ao templo todos os dias devido ao risco do coronavírus.

“Tentamos mantê-la ocupada com filmes velhos”, disse Singh, auditor na Ernst & Young, que diz que sua família se reúne na sala de estar diante da TV para assistir filmes. “Assim minha avó sente coisas mais positivas”.

Chris Mazurek, que vive nas imediações de Melbourne, Austrália, país que até o mês passado manteve um dos mais longos e severos lockdowns do planeta, disse que em julho, quando parecia que o confinamento não acabaria, ele começou a ouvir o disco “There Is Nothing Left to Lose”, do Foo Fighters. O disco de 1999 o levou de volta aos anos de escola e motivou que retomasse o contato via Facebook com diversos amigos da época com quem não conversava há uma década.

Mazurek, 36, e a mulher tiveram de ser criativos para manter seus três filhos pequenos entretidos durante o lockdown, que durou 111 dias. Quando assistem a filmes, os filhos dele desenham ingressos os recortam de um caderno, e Mazurek faz pipoca e chocolate quente –os petiscos que eles costumavam pedir quando iam ao cinema antes da pandemia.

Em casa, eles assistiram –múltiplas vezes– a “Nós Somos os Campeões” (1992), “De Volta para o Futuro” (1995), “Esqueceram de Mim” (1990) e “Os Goonies”, alguns dos títulos favoritos de sua infância. “Isso me leva de volta a um período em que tudo era mais simples”, disse Mazurek, diretor da Accenture Consulting.

Em uma conversa recente com amigos que vivem na Europa, e estavam ansiosos sobre os lockdowns que estavam por retornar, Mazurek ofereceu conselhos: assistam aos filmes antigos e joguem os jogos de tabuleiro de sua infância. Ele acrescentou que tinha até curtido alguns aspectos de ficar em casa.

A ponto de talvez um dia sentir nostalgia pela quarentena? “Não acho que estejamos fora dela há tempo suficiente para nos sentirmos bem a respeito”, ele disse.

The New York Times

 Tradução de Paulo Migliacci

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