Viva Bem

Onde está a felicidade? Cursos propõem reflexão e técnica para reduzir frustrações e ser feliz

Programas inspirados em Yale e Harvard se espalham pelo país

Jeferson Miguel fez o curso online de felicidade oferecido pelo Centro Paula Souza
Jeferson Miguel fez o curso online de felicidade oferecido pelo Centro Paula Souza - Rivaldo Gomes/ Folhapress
Fernanda Pereira Neves
São Paulo

O que é a felicidade? Existiria uma receita ou um mapa de como alcançá-la? E porque algumas pessoas parecem encontrá-la com mais facilidade que outras? Essas são algumas perguntas que surgiram quando me deparei com o anúncio de um curso de felicidade. 

A proposta parecia bem simples: 12 horas de curso online, gratuito. Após a inscrição, no site do Centro Paula Souza, o acesso é livre. Cada um faz o curso como quiser, no tempo que preferir. Quem procura respostas fáceis ou receita de bolo para ser feliz, no entanto, pode se frustrar. 

O curso, que teve início em junho do ano passado, leva o aluno a uma reflexão a partir de conceitos, não apenas sobre a própria felicidade, mas sobre socialização, relacionamentos, bem-estar, equilíbrio. Traz vídeos, textos e áudios que tentam evidenciar mais as forças que as fraquezas. 

“A ideia é valorizar o lado positivo das coisas, mais do que pensar positivo apenas. Você deve se perguntar: ‘O que realmente me faz feliz?’. E a partir daí começar a valorizar e agir com vista nessas coisas, bem-estar, alegria de viver, sucesso”, afirma o idealizados Welington Luís Sachetti, 43, coordenador de projetos do Centro Paula Souza. 

“A vida impõe os mesmos revezes e tragédias para o otimista e para pessimista, mas os otimistas conseguem enfrentá-los com mais tranquilidade”, resume o educador, citando o psicólogo americano Martin Seligman, conhecido por sua contribuição para a psicologia positiva, uma das bases dos estudos de felicidade. 

O auxiliar de docentes, Jeferson Miguel Santos, 40, fez o curso buscando aperfeiçoamento profissional e diz ter aprimorado a forma que vê as coisa do dia a dia. “Eu já tinha essa visão de ser mais positivo, enfrentar os problemas de forma mais positiva. Mas a palestra do Clóvis [Barros Filho] ajudou muito pela forma que envolve o público”. 

Em oito meses, mais de 5.700 pessoas se inscreveram no curso online —1.750 já o concluíram. 

OUTRAS BUSCAS PARA SER FELIZ

Além do oferecido pelo Centro Paula Souza, outros cursos de felicidade chegaram ao Brasil no ano passado seguindo uma tendência de universidades americanas renomadas, como Harvard e Yale. Nessa última, o curso recebe o nome de “Psicologia e Boa Vida” e se tornou o mais popular nos três séculos de história da instituição. 

No Brasil, o aprendizado da felicidade aparece de várias formas, podendo atender qualquer faixa etária, nível de escolaridade ou mesmo possibilidades financeiras. O mais acessível é, com certeza, a versão oferecida pelo Centro Paula Souza. 

Outra opção gratuita existe na UnB (Universidade de Brasília), mas como disciplina optativa da graduação e, dessa forma, restrita a alunos. Segundo o professor e idealizador, Wander Pereira, uma adaptação do curso de Yale, “menos baseado em teoria, em conhecimento sobre felicidade, basicamente focado em experiências, vivências”. 

“A ideia é que não há uma receita ou fórmula mágica. Felicidade é um sentimento, afeição, emoção, é algo muito subjetivo. É uma vivência subjetiva. Cada um de nossos alunos é levado a discussões, experiências para descobrir o que é felicidade pra ele”, conta o professor, que chegou a fazer o curso em Yale. 

O curso da UnB é ofertado no campus do Gama, de onde vêm 85% dos alunos inscritos na disciplina de felicidade. Com isso, ela se torna um esforço, inclusive, contra a evasão, que chega a atingir 40% dos alunos matriculados. “São cursos difíceis, pesados, num campus isolado, com infraestrutura ainda não muito boa”, avalia Pereira. 

Também baseado nas experiências pessoas, o Isae (Instituto Superior de Administração e Economia), ligado à FGV (Fundação Getúlio Vargas), traz a temática na forma de curso livre, focado no meio organizacional, mas também no âmbito pessoal. “Um mergulho pessoal para ver o que levar disso para o mundo”, afirma educador Gustavo Arns. 

No caso do curso do Isae, o projeto veio na esteira do Congresso de Felicidade, promovido anualmente desde 2016, em Curitiba, também com Arns como um dos idealizadores. Aberto a qualquer interessado, o programa é presencial, com seis encontros aos finais de semana, mas pelo custo de R$ 5.800. 

“Falar nas empresas que funcionário feliz produz mais e melhor é muito raso. A gente deixa todo o lado humanitário de lado. Então a gente tem que trabalhar a felicidade no âmbito pessoal e é claro que esse cara feliz vai produzir mais e melhor, esse é o efeito colateral da felicidade, não o objetivo final”, afirma Arns. 


ONDE ESTUDAR FELICIDADE:

>> Centro Paula Souza
Curso livre online
Carga: 12 horas 
Valor: gratuito
Público: geral 

>> UnB - Campus Gama 
Disciplina optativa presencial
Carga: 60 horas, com dois encontros semanais
Valor: gratuito
Público: alunos da graduação da universidade 

>> Isae - ligado à FGV
Curso de curta duração 
Carga: 96 horas em seis encontros
Valor: R$ 5.800
Público: geral 

>> Rede Claretiano 
Pós-graduação online
Carga: 360 horas e dois encontros
Valor: R$ 230 (inscrição) e R$ 294 (mensalidade)
Público: graduados em qualquer área 


FELICIDADE ENCONTRADA 

O médico André Born Muniz, 44, esteve na primeira turma de felicidade do Isae, viajando de Fortaleza, onde vive, para Curitiba, por seis finais de semana, para acompanhar as aulas, e diz que se surpreendeu desde o primeiro dia: não havia carteiras, mas um tapete no chão, e os responsáveis pela aula pareciam realmente felizes. 

“Ali não era uma sala de aula tradicional, mas de experiência de vida. Não víamos nada de Freud [Sigmund Freud, criado da psicanálise], mas de pessoas que, em determinado momento, decidiram mudar para se tornarem mais felizes. As pessoas irradiavam prazer, mostravam o que aprenderam e vibravam quando percebiam que a gente estava embarcando nessa piração”, conta. 

Muniz conta que, antes do curso, sofria de estresse, insônia e já tinha procurado terapia tradicional, sem ter alcançado o resultado desejado. “Eu venho da medicina tradicional e era difícil aceitar novas terapias, imaginar que meditação dava resultado. Eu via como coisa de hippie, criticava uma coisa que não conhecia”. 

Ele afirma que os amigos de trabalho perceberam o quanto ele mudou depois do curso: “Eles veem como eu mudei, desacelerei, não quero mais atender o paciente naquela velocidade de antes. Pra mim, foi voltar a ser o médico de Hipócrates [grego que dá nome ao juramento da profissão]. Não ver a doença, mas a pessoa”. 

A designer Júlia Muller Dias, 35, estava na mesma turma de Muniz e diz que procurou o curso após uma tentativa de reestruturação profissional. “Eu já tinha meu escritório, dava palestras, mas sentia que podia fazer mais, algo não estava certo. As pessoas me procuravam e falavam que eu sempre sorria, mas era um esforço.”

“Foi como olhar pra dentro, sensacional. A ideia do curso é entender quem somos. E foi assim que eu percebi que, mesmo dando palestras sobre minha trajetória, deixava muita coisa pra traz. Ignorava coisas da minha essência. A gente tenta se enquadrar num padrão e deixa pra traz uma parte do que somos, e se acostuma com o tempo”.

Dias, que mora em Porto Alegre, afirma que acabou aplicando tudo que aprendeu no seu trabalho. Aprimorou uma linha de produtos que batizou de Drops do Bem e consiste em pequenos doces com mensagens positivas. Com nomes engraçadinhos, como Felicitina, Amorflan, Pazolol, eles são comercializados em eventos ou para festas. 

Como “design estratégica especialista em felicidade”, Dias afirma focar todo seu trabalho em ajudar as pessoas a serem mais felizes através do designer, atendendo tanto pessoas que querem se organizar, mudar, se aprimorar, quando empresas. “A gente tem métodos e projetos pra isso”, diz ela. 
 

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