Televisão

"A TV brasileira está morna e precisa de uma chacoalhada", diz apresentador João Kléber

Diz o ditado: "O bom filho à casa torna".

Sem um programa na televisão brasileira há oito anos, João Kléber está de volta. A partir de sexta-feira (7), o apresentador retorna ao ar na RedeTV!, onde assinou contrato por dois anos, para as transmissões do Carnaval.

Durante a folia, ele promete reeditar o polêmico "Teste de Fidelidade". "Mas não vai ser como era. Vou reformulá-lo", diz.

Em março, ele estreará um programa diário, ao vivo, no lugar do matinal "Se Liga Brasil" e, até julho, vai comandar uma outra atração semanal noturna no canal.

Em entrevista à Folha, João Kléber fala de sua volta à RedeTV!, depois de, em 2005, ter provocado a suspensão da exibição da emissora por um dia, em São Paulo, devido a problemas judiciais.

O humorista comenta seu trabalho na TV portuguesa, sua quase candidatura a vereador na última eleição paulistana e sentencia: "A TV brasileira está morna e precisa de uma chacoalhada".


Folha - Como foi o convite para voltar à RedeTV?
João Kléber - Tive reunião com a Mônica Pimentel [superintendente artística da RedeTV!] e ela fez um convite, disse que o Amilcare [Dallevo] e Marcelo [de Carvalho] queriam que eu voltasse à casa que eu inaugurei. Não demorou mais de meia hora. Demos um aperto de mão e depois de três dias assinamos o contrato.


Em 2005, por decisão judicial, a RedeTV! ficou 24h fora do ar por causa do seu programa "Tarde Quente", que foi acusado de homofobia. Logo depois, seu contrato com a RedeTV! foi rescindido, você ficou magoado?
Não, pelo contrário. A RedeTV! não tinha nada a ver com o que aconteceu. Fomos vítimas de uma situação. Faltava mais de um ano para terminar meu contrato. Rescindi meu contrato em comum acordo. Achávamos que não devíamos mudar o programa, ia perder o sentido. A RedeTV! foi extremamente correta comigo.

O que acha da TV brasileira atual?
Está morna. O politicamente correto deixou tudo muito chato. Na época que eu estava no ar, até 2005, tinha a Márcia Goldschmidt, o Ratinho... Os jornalistas tinham assunto. A última coisa que eu vi que teve impacto e que fez o povo ficar preso na televisão foi "Avenida Brasil", que era uma novela. De entretenimento, não tem nada. Me diz um programa que o povo pare e comente, como acontecia com o "Teste de Fidelidade"? Não tem. Gerava discussão. Era armado? Era produzido? E ganhava da Globo. A TV está morna e precisa de uma chacoalhada.

Como você vai chacoalhar a TV?
Vamos fazer o "Teste de Fidelidade" no Carnaval. Mas não vai ser como era. Vou reformulá-lo. Depois, fui convidado para fazer dois programas. O primeiro já começa em março. Vai ser diário. Não vim para brincar. Respeito o concorrente, mas vim para ganhar. Não tenho medo de nenhum concorrente. Qualquer programa que entrar das 10h ao 12h eu vou para cima.

Como será o programa?
Terá uma linguagem que vai atingir da dona de casa ao público em geral. Vai ter entretenimento. Como dizia o Nelson Rodrigues, vamos mostrrar a vida como ela é. Vamos botar uma pimenta, mas numa linguagem livre. Vou voltar com o humor. Vou usar a plateia espontaneamente.

Terá jornalismo?
Não, mas vou ter um repórter diferente. O jornalismo poderá entrar ao vivo se acontecer alguma coisa de repercussão.

E o programa noturno?
Meu objetivo é partir para cima, não voltar com a linguagem de antes, mas se for polêmico, vai ser polêmico. Vou tirar o lado morno da noite. Hoje se fala mais da vida pessoal dos artistas do que dos programas, se fala mais do porque a TV não dá audiência. O programa da noite vai ser uma porrada e deve estrear até julho.

Você é uma das apostas para elevar a audiência da RedeTV!, que perdeu o "Pânico" em 2012. Sente essa responsabilidade?
Responsabilidade eu tenho em qualquer momento. Eu faço programa para dar audiência. Eu luto para ser sempre o primeiro. Eu quero o meu. Nunca tive a vergonha de vestir a camisa de um programa popular. Talvez por isso tenha essa identificação com o povo. Há críticas? Óbvio! As pessoas podem criticar o formato, mas nunca dizer que não tenho identificação com o público. Quando eu fui para Portugal, que é uma cultura totalmente diferente da nossa, mantive o meu sucesso.

Em 2012, a RedeTV! enfrentou uma crise de atraso de salários. Você conversou sobre isso quando assinou o contrato?
A minha história com a RedeTV! sempre foi de muita lealdade. Não posso falar sobre terceiros porque não vivenciei a situação. Acho que as coisas devem ser resolvidas em quatro paredes ou em outros órgãos, não na mídia. Todas as pessoas, físicas e jurídicas, podem passar por dificuldades.

Se arrepende de algo em sua trajetória?
Não. Para que ter vergonha? Apesar de que hoje, o "Teste de Fidelidade" dá para fazer na igreja, né? Pelo o que a gente vê por aí, ele está água com açúcar. Na época, o que eu fazia, aquela linguagem para a classe C e D, vejo outras emissoras tentando agora sem sucesso.

Ficou incomodado com a vinculação de seu nome à baixaria na TV?
Lógico! Mas se você parar de pensar, na época tinham pessoas que queriam se promover às custas de artistas. Tinha gente que achava que ia ganhar voto. O Ranking da Baixaria foi exatamente isso. Coincidentemente ou não, foi só eu sair do Brasil e acabou. Era eu, o "Pânico", o "Big Brother", o "Faustão"... Eles tinham 90 reclamações, perante a milhões de pessoas que estavam vendo o meu programa. Isso era parâmetro para se fazer um julgamento? Tem muito pau mandado. Na época eu ficava chateado, o programa era um besteirol. Eu via coisa muito pior. Não estávamos matando, judiando nem ofendendo ninguém. Era uma bobagem. Nos EUA, Jerry Springer passa no horário infantil. Está certo, tem de ter uma certa regra, pudor em determinados momentos, mas estava exagerado.

Ganhou muito dinheiro em Portugal?
Pô! Já tive duas ex-mulheres [risos]. Estou legal, estabilizado. O que está lá fora está lá e agora é ganhar aqui também. Estou voltando de vez para o Brasil. Cedi meus programas para a TVI [de Portugal] para exibir por mais um ano. Na TV, a Europa está com um mercado excelente. Com a crise, as pessoas ficam mais em casa. Voltei porque queria retornar ao Brasil. Tinha esse compromisso moral comigo mesmo.

E sua participação em "A Fazenda 4", da Record, em 2011, foi um teste para voltar ao Brasil?
Sim, e foi uma coisa louca. Sai com 1% de rejeição. Foi legal que ganhei um novo público. Uma molecada que tinha 8, 9 anos e via minhas pegadinhas na RedeTV!.

A concorrência com a TV a cabo é uma preocupação?
Claro! Em Portugal já me preocupava. Eu já estou com mais experiência nisso. Acho que a TV a cabo aqui cobra muito caro, repete-se muito os programas, mas agora com a nova lei [12.485/2011, que regula o setor e estabelece cotas de programação nacional] deve mudar. Vai entrar muita coisa para a classe C e D, os caras vão ter de se mexer.

Abandonou o projeto de ser político?
Abandonei. Acho que os caras não me aguentavam dez dias. Senti que não devia entrar por vários fatores. Vi que não estava preparado. As pessoas estão mais preocupadas em ganhar votos, quando chegam lá não fazem nada.

Tem acompanhado a política nacional?
Sim. Não acompanhei todas as etapas do processo do mensalão, mas achei o Joaquim Barbosa [presidente do Supremo Tribunal Federal] um campeão. Se eu cruzar com esse cara, acho que beijo os pés dele.

E o que pensa da presidente Dilma Rousseff?
Gosto dela. Acho que é uma mulher de personalidade. Só não devia ter mudado a denominação do cargo. "Presidenta" não é legal. Ela mandou os bancos baixarem o juros, mas tem de fazer campanha para que as pessoas controlem seus gastos. Ela encarou os bancos. Sou muito mais a Dilma e, se o outro presidente [Lula] quiser voltar, não sei se ele conseguirá.

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