Saiu no NP

SAIU NO NP: Maníaco do Estilete aterroriza mulheres em São Paulo

Em meio ao movimento #AgoraÉQueSãoElas e aos protestos pelo reconhecimento dos direitos das mulheres e pela igualdade de gêneros, o Saiu do NP desta semana relembra um dos anos mais terríveis para as mulheres na cidade de São Paulo.

Isso porque em 1990 três séries de crimes contra mulheres deixaram a capital paulista em estado constante de alerta.

No início daquele ano, quem agia era o Maníaco do Ácido, em história que você leu aqui em "Inimigo das saias, maníaco do ácido apavora mulheres na zona leste".

Este primeiro criminoso feriu 10 mulheres na zona leste de São Paulo, de acordo com a polícia —moradores falavam em mais de 50 vítimas— com ataques desferidos com ácido, que era jogado nas pernas das moças, provocando queimaduras. Após depoimentos das vítimas, constatou-se que vários maníacos agiam na região —e apenas um suspeito foi preso.

Assim, nos primeiros meses de 1990, foi comum ver mulheres evitando o uso de sais e minissaias que pudessem despertar o olhar do maníaco.
Contudo, não bastassem os ataques com ácido, outro maníaco passou a tirar o sono das mulheres e da polícia em São Paulo. Desta vez, os ataques eram realizados com um objeto cortante e afiado, um estilete.

Após seis mulheres relatarem terem sido vítimas do criminoso que se aproximava e, num esbarrão, enfiava um objeto cortante na barriga das moças, a polícia iniciou a caça ao Maníaco do Estilete.

Crédito: Folhapress
No dia 20 de abril de 1990, o jornal "Notícias Populares" publicou sua primeira manchete sobre o Maníaco do Estilete

A primeira menção ao maníaco no "Notícias Populares" foi em 20 de abril de 1990, com a manchete "Maníaco do Estilete Ataca".

Neste primeiro relato, o jornal informou que o telefone do 14º Distrito Policial (Pinheiros) não parava de tocar, com pessoas preocupadas, desde que um homem passou a atacar as mulheres no dia 6 de abril.

A primeira vítima conhecida pela polícia foi Sônia Margarida Proença Soares, então com 24 anos, que foi atacada enquanto caminhava pela rua Capote Valente, próximo à rua Cardeal Arcoverde. Ela relatou nem ter notado a aproximação do homem, que lhe deu um encontrão e um soco na barriga —só que na mão fechada que atingiu a jovem estava o longo estilete. Apesar da vontade de gritar, Sônia não conseguiu reagir, dada a dor e o pavor diante do sangue que escorria —ela ficou mais de 10 dias internada na UTI do Hospital das Clínicas.

Crédito: Folhapress Storyboard publicado pelo jornal "Notícias Populares" em 20 de abril de 90, sobre o Maníaco do Estilete
Storyboard publicado pelo "Notícias Populares" em 20 de abril de 90, sobre o Maníaco do Estilete, a partir dos relatos das vítimas

No mesmo dia 6, o Maníaco do Estilete feriu a secretária Maria Liliana Nunes Bernardo Ferreira, que foi atacada na rua Oscar Freire, esquina com a Artur de Azevedo.

Cinco dias depois, no dia 11 de abril, a vítima foi a empregada doméstica Creusa de Fátima Prado, 26, quando ela passava pela rua Alcides Pertiga com a rua Lisboa. O ataque repetiu os anteriores, com a moça apenas sentindo a lâmina afiada contra a região abdominal.

Com a informação dos ataques, o "Notícias Populares" publicou uma descrição de quem seria o maníaco a partir dos relatos feitos à polícia: "Homem alto, forte, de 20 a 25 anos, bem vestido. Apenas uma das mulheres atacadas o descreve como mulato". A essa altura, a polícia já admitia, como no caso do Maníaco do Ácido, a hipótese de existir mais de um maníaco ligado ao caso envolvendo ataques com estilete.

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No dia 21 de abril de 1990, em "Maníaco do Estilete Tem Cara" o jornal publicou o primeiro retrato falado do criminoso

Até então, a polícia só tinha a certeza mesmo quanto ao perfil das vítimas escolhidas pelo criminoso, que atacava mulheres morenas, de baixa estatura, com no máximo 1,60 m, sempre após as 20h. De acordo com o investigador Francisco Mellone Neto, o maníaco, em todos os ataques que tinha feito, estava com uma sacola de viagem.

Entre moradores da vizinhança onde ocorreram os crimes e até no meio policial, falava-se que o responsável pelas estiletadas tinha sido contaminado pelo vírus da Aids depois de ter se deitado com uma mulher e por isso buscava vingança.

Em 21 de abril de 1990, o "Notícias Populares" relatou dois novos ataques. E, desta vez, as vítimas tiveram melhor sorte. Na quinta-feira (19), Cilene Vieira de Souza foi salva por um amigo quando o bandido tentou atacá-la dentro de um cinema de Pinheiros. No dia seguinte, outra moça, Patrícia Erika Lajus, salvou-se protegendo a barriga, mas teve a mão perfurada.

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O primeiro retrato falado do Maníaco do Estilete divulgado pela polícia em abril de 1990

A investigação, agora, parecia ganhar fôlego, uma vez que Cilene reconheceu uma foto do prontuário da polícia como sendo o criminoso. José Leonor da Ponte, que cumprira pena em 1988 e estava novamente sendo procurado pelo polícia, foi apontado como o autor dos ataques.

O delegado Gildo Datri, encarregado do caso, porém, dizia esperar a identificação de mais testemunhas para confirmar a autoria dos crimes. De acordo com ele, uma das vítimas, que preferiu não aparecer após ter sobrevivido a um ataque, deu as descrições para que fosse feito um retrato falado do maníaco.
Enquanto a identidade do criminoso continuava um mistério, a polícia reforçou o patrulhamento no perímetro dos ataques (ruas Cardeal Arcoverde, Lisboa, Capote Valente, Oscar Freire e Artur de Azevedo).

A essa altura, com a dimensão do caso, o Maníaco do Estilete passou a ser descrito como o "inimigo número 1 das mulheres".

No dia 24 de abril de 1990, o "Notícias Populares" publicou que, além das mulheres, que estavam apavoradas, rapazes loiros passaram a sofrer com o caso. Nas ruas, moças mudavam de calçada quando notavam um loiro por perto. Nos bares e casas noturnos, loiros passaram a amargar a seca, já que nenhuma mulher se aproximava. A.F., um executivo ouvido pelo jornal que preferiu não ter o nome divulgado, afirmou à época que a associação com o maníaco chegou ao ponto absurdo de mulheres, quando o viam, fechavam os vidros dos carros e até taxistas o evitam. "Eu parecia um Lázaro", disse.

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O segundo retrato falado do Maníaco do Estilete divulgado pela polícia em abril de 1990

BATE CABEÇA
Ao mesmo tempo em que a agonia aumentava, a polícia se perdia ainda mais. Já eram três os retratos falados que os policiais tinham em mãos e que apresentavam quase a mesma feição: homem loiro, alto e bem vestido. Porém Sônia, a primeira vítima, que foi atingida no fígado e finalmente deixara o hospital, reafirmava que o criminoso era moreno.

A indefinição motivou o "Notícias Populares" a publicar "Estileteiro faz a polícia de boba", destacando o fato de, mesmo após 20 dias de atuação do Maníaco do Estilete, nem a DHPP (Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa) nem a Delegacia da Mulher tinham sido acionadas ou se movido para resolver o caso. Assim tudo se mantinha concentrado no distrito policial de Pinheiros.

O temor também começou a afetar comércios, e até academias já registravam queda de frequência das clientes.

A reportagem sobre a ação policial foi a gota d'água para o 14º DP, que liberou então o último dos 20 suspeitos que tinham sido submetidos em vão a reconhecimento das vítimas. O caso passou a ser investigado pelo Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa. Além disso, como destacou o "Notícias Populares" em 27 de abril, a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) estava à caça do maníaco.

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No 20º dia após o primeiro ataque, a falta de direção da polícia vira tema de reportagem do "Notícias Populares"

Outra tática policial foi o uso de agentes mulheres disfarçadas no bairro. No dia 27 de abril, um efetivo de cerca de 150 policiais atuaram na região de Pinheiros em busca do maníaco.

Todas essas ações, porém, não impediram novo ataque. Ao mesmo tempo que outro delegado era designado para o caso, Elizabeth Daniel, 25, disse ter sido atacada no bairro de Santana por um homem alto, branco, de 25 anos aproximadamente, olhos azuis, cabelos lisos e penteados, que "tirou do bolso um estilete".

Como passou a receber inúmeras chamadas com denúncias sobre o Maníaco do Estilete, o "Notícias Populares" passou a ajudar na caçada ao bandido, a ponto de duas vítimas terem dito que uma foto que a reportagem tinha feito de um rapaz loiro na região de Vila Ida era o maníaco. Mas, apesar de o suspeito se apresentar à polícia, não foi considerado o autor dos ataques.

O caso seguiu indefinido. Por 15 dias, relatos de ataques ou ameaças na zona leste, na zona sul e na zona norte se espalharam pela cidade.

SUSPEITO PRESO
Só no dia 14 de maio, um suspeito foi preso, no Rio: José Geomar da Ponte. Ele foi denunciado por Marco Aurélio Fontoura Costa, que relatou que Ponte tinha tentado abusar de seu filho de oito anos.

Ponte estava casado com a ex-mulher de Costa. E foi ela quem tentou explicar que José Geomar da Ponte não era o maníaco, alegando que ele estava com ela no Rio nos dias em que ocorreram os ataques em São Paulo.

O acusado admitiu estar com Aids, mas negou ser o maníaco e atribuiu a acusação "à vingança de alguma ex-namorada". Defendeu-se também dizendo que tinha tomado conhecimento da doença havia pouco tempo e que, mesmo assim, não "iria sair por aí atacando mulheres só porque estava com Aids".

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Em 18 de maio de 1990, o "Notícias Populares" informa que 13 mulheres fariam o reconhecimento de um rapaz detido

Um dia após ser preso, José Geomar da Ponte passou mal e foi internado no Hospital Penitenciário do Rio de Janeiro. Ele, que no Rio teria que responder a inquéritos sobre furtos, estelionatos, falsificação de documentos e formação de quadrilhas, sofreu uma crise em razão da Aids.

A prisão de Ponte, porém, não elucidou o caso, já que, no dia 16 de maio, após ser consolidada sua transferência para São Paulo, vítimas e testemunhas não o reconheceram como o maníaco, como informou o "Notícias Populares" na edição de 19 de maio de 1990.

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No dia 19 de maio de 1990, o "Notícias Populares" informa que as vítimas não reconheceram o suspeito detido

Em 4 de junho, outra novidade no caso. O vendedor Antônio Edilson de Santana apresentou-se como sendo o maníaco tão procurado. Apresentou-se às 4h20 no 3º Distrito Policial (na Rua Aurora, no centro). "Resolvi me entregar pois estava com peso na consciência." Ele chegou à Rádio Globo às 4h e pediu que o redator Reinaldo Gomes o acompanhasse até a delegacia, pois temia ser torturado.

As vítimas, porém, não reconheceram o vendedor como o autor dos crimes. E a polícia concluiu também que as informações passadas por Santana não batiam com os ataques.

Uma última menção ao caso ocorreu em julho de 1990, quando, em Araraquara, José Luis de Marco assassinou Eliane Conti Lucas, então com 17 anos, com 14 facadas. Com o sangue da vítima, Marco, que acabou preso, escreveu na parede "Vingança do maníaco do estilete".

Assim como ocorreu com o Maníaco do Ácido, o caso do Maníaco do Estilete perdeu força e ficou sem solução. E saiu de cena quando outro criminoso ganhou o noticiário, também em 1990: o Maníaco da Liberdade. Mas essa é história para outro dia.

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