Saiu no NP

Ladrões tarados e doenças infestam cemitérios

Os cemitérios, locais tranquilos e reservados ao descanso eterno, eram, nas páginas do "Notícias Populares", palco de muita agitação e alvo de criminosos que não temiam os mortos. Nossa morada final foi tema de diversas reportagens que retratavam a violação de túmulos, o descaso do poder público e até o alto preço cobrado para garantir um pedaço de chão para os entes queridos.

Em 17 de março de 1985, o jornal denunciou casos de necrofilia na capital paulista ("Ladrões vampiros violentam os cadáveres dentro do cemitério"). Em um cemitério da periferia, não especificado, os coveiros estavam assustados com casos recorrentes de arrombamento de túmulos e mausoléus por criminosos que violentavam os corpos.

O primeiro caso havia sido o do corpo de uma jovem que fora enterrada pela manhã e, no dia seguinte, estava ao ar livre com as roupas retalhadas. "Antes, esses ladrões visavam apenas ouro e objetos de bronze ou prata. Agora, porém, a situação é outra. Essa quadrilha deve ter parte com o demônio", disse o policial que investigava as ocorrências, que já somavam oito quando a reportagem foi publicada.

Crédito: Folhapress
Em 19 de junho de 1987, o "Notícias Populares" revela que a capela do cemitério de Vila Nova Cachoeirinha estava sendo usada como motel por casais sem dinheiro

Sexo em cemitérios era assunto recorrente no "NP", e não apenas entre vivos e mortos. O texto "Vão para o cemitério fazer sexo na capela ecumênica", de 19 de junho de 1987, reportava a indignação dos habitantes de Vila Nova Cachoeirinha (zona norte) com os "casais hereges" que transformaram a capela do cemitério em um motel. Segundo os moradores, o templo também tinha o teto crivado de balas dos bandidos que se escondiam ali e faziam a festa durante a noite.

Além de bordéis, os cemitérios também podiam ser local de negócios. Em julho de 1992, um repórter do jornal contatou anonimamente um coveiro do cemitério Vila Formosa para sondar os preços dos cadáveres. A desculpa usada fora a de que um pai de santo exigia o corpo de um menino de pouco mais de dois anos, mas o coveiro só pôde oferecer recém-nascidos e sugeriu que o comprador procurasse também no cemitério de Perus. Para levar o cadáver, era só deixar o contato e aguardar.

Enquanto necrófilos e compradores de cadáveres pareciam não ter medo dos espíritos, outros preferiam não atiçar os fantasmas. O cemitério de Vila Formosa (zona leste) correu o risco de ser fechado para dar lugar a um conjunto habitacional planejado pela Prefeitura de São Paulo. Em 7 de julho de 1986, o "NP" trouxe a profecia do pai de santo Robério de Ogum: "Fantasmas tomarão conta do cemitério da Vila Formosa".

Se o projeto se realizasse, dizia Ogum, os habitantes dos edifícios sofreriam com perturbações produzidas por espíritos obsessores, "aqueles que, apegados aos bens materiais, ainda não aceitaram sua passagem para a outra dimensão e, por conseguinte, estão carregados de fluidos negativos". Se encostar em alguém, um espírito assim pode transmitir doenças de difícil diagnóstico. Por sorte (ou por medo), o plano foi descartado, e o cemitério continuou a existir.

Crédito: Folhapress
O pai de santo Robério de Ogum prevê, em 7 de julho de 1986, que os mortos do cemitério de Vila Formosa irão se vingar caso sejam desalojados pela Prefeitura

O medo de fantasmas ganhou força quando a equipe do "NP" descobriu, em novembro de 1990, que nos arredores da Igreja Santa Cruz, ou Igreja dos Enforcados, na Liberdade (região central), foram enterrados corpos de escravos por volta de 1770. O atual Largo da Liberdade era antes conhecido como Largo dos Enforcados, pois ali se realizavam as execuções a céu aberto. Segundo reportagem de 5 de novembro ("Defuntos atacam por baixo"), os moradores do bairro ficaram apavorados ao saber que caminhavam sobre restos mortais - ainda que eles datassem de dois séculos atrás.

A reportagem evocou a série de filmes de terror "Poltergeist", sucesso nos anos 1980, para apavorar os leitores com teorias sobre espíritos de escravos que ainda rondavam as imediações da rua dos Estudantes. Fantasmas irritados também se tornariam uma ameaça na cidade de São Paulo caso os habitantes não renovassem a situação de seus parentes e amigos nos ossários dos cemitérios: em 22 deles, os ossos poderiam ser despejados, escondidos sob sepulturas ou cremados.

Tudo isso devido à falta de vagas nos cemitérios da capital paulista. O Serviço Funerário da Prefeitura, segundo informava o "NP" em 18 de junho de 1990 ("Ossadas saem pelo ladrão"), queria desalojar 100 mil cadáveres para abrir novas vagas, mas dava uma chance aos interessados em renovar a licença dos ossários em troca de uma taxa.

Mas, quando a tarefa é assombrar a população, nenhum fantasma bate o poder público. O problema era que, apesar da pressão sobre os parentes, a Prefeitura de São Paulo nem sempre se desfazia dos cadáveres e caixões de forma adequada, e os despejados passavam a ameaçar a saúde dos visitantes e funcionários dos cemitérios. Naquele mesmo ano o jornal constatou que vários coveiros da capital tinham adquirido doenças de pele ao remover cadáveres sem a devida proteção.

As doenças, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, poderiam ser transmissíveis. Além disso, os caixões removidos das covas eram acumulados num canto dos cemitérios e só iam para os lixões uma vez por semana. "Dessa forma, qualquer um que passar perto dos caixões podres pode ficar doente", dizia a reportagem de 30 de agosto de 1990 ("Cadáveres espalham a peste").


O descaso não ocorria apenas com os mortos e a manutenção dos túmulos. Abandonar animais em cemitérios, onde eles acabavam sendo alimentados por coveiros e visitantes, era uma prática comum. No cemitério da Vila Mariana (zona sul), os gatos já eram quase mais numerosos do que os frequentadores: cerca de 50 habitavam o espaço em 1988. O texto de 10 de agosto ("Gatos substituem gatunos no cemitério de Vila Mariana") trazia o depoimento da ex-funcionária municipal Esterina Guglielmo, que ia quase diariamente visitar o túmulo da família e aproveitava para dar de comer aos bichanos.

Apesar das placas que ela mesma colocou nos portões - nas quais se lia "É proibido jogar gatos"-, as pessoas chegavam a largar ali ninhadas inteiras. Cinco dezenas de animais não castrados, alguns ariscos e outros doentes, representavam um problema para o cemitério. Pelo menos, dizia a reportagem, afugentavam os ladrões de túmulos.

Se alguns abandonam seus bichos em qualquer canto, outros pagam pequenas fortunas para dar ao melhor amigo uma última morada adequada. Foi o caso da enfermeira Zelina Freire, que desembolsou R$ 550 para enterrar seu gato Guil, um diabético morto aos 17 anos, em um cemitério de animais em Itapevi (oeste da Grande São Paulo).

Em novembro de 1995, o local cobrava R$ 450 pela cerimônia mais simples -na comparação feita pela reportagem ("Cemitério de animais custa caro pra cachorro!"), um enterro barato em alguns cemitérios de São Paulo custava, à época, R$ 250. Para quem crê em vida após a morte, o gasto é essencial -para gente ou para bicho.

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