Saiu no NP

Entre a ciência e a fantasia: a lenda do homem-mãe

Um fato antinatural agitou o pequeno povoado de Lajes, em Alagoas, em 21 de agosto de 1966: um rapaz de 19 anos dera à luz uma menina, em parto normal. Até então considerado um garoto como outro qualquer, o agricultor José João viu seu universo virar do avesso nos dias subsequentes ao parto, acompanhados de perto pelo jornal "Notícias Populares".

A primeira notícia do estranho caso do homem-mãe apareceu em 24 de agosto e contava que o rapaz, havia pouco mais de três meses, percebera um inchaço incomum na barriga e nos seios. Um médico de Palmeira dos Índios, município próximo ao povoado, levantou a hipótese de hermafroditismo, mas o "NP" se perguntava se José João não era, na verdade, uma mulher que sempre fora criada como homem.

Crédito: Reprodução
Em 27 de agosto de 1966, o 'Notícias Populares' publicou foto do agricultor José João segurando a filha recém-nascida

Qualquer que fosse a resposta correta, o problema era que o homem-mãe não queria se assumir como mulher e muito menos se casar com o pai da criança, Neuto Jiló, 17. Não era para menos: José João era famoso por ser grande bebedor de pinga, bom no baralho e exímio violeiro, além de trabalhador forte e requisitado pelos fazendeiros da região. Um homem perfeito para o interior alagoano.

Mas, enquanto afluíam curiosos em massa a Lajes, o rapaz foi cedendo. Em 27 de agosto, o "NP" já noticiava que conseguira extrair dele a verdade: José disse que foi sua mãe, morta quando ele (a) tinha apenas cinco anos, quem lhe vestiu com calças e exigiu que se portasse como homem para o resto da vida. A farsa começou a ruir quando, aos 17, vieram seus primeiros ciclos menstruais; ainda assim, tinha vergonha de assumir seu sexo.

Ninguém no povoado desconfiou de nada durante esses 19 anos, e José continuou a usar sua peixeira e a amansar burros mesmo depois que seus seios começaram a se desenvolver. À reportagem o rapaz (ou garota) contou que usava duas camisas bem apertadas para amassar seus atributos, e até as meninas acreditavam que se tratava de um garoto.

Joana da Conceição --esse era seu novo nome-- ainda não acreditava que era mulher quando se apaixonou por Neuto. "Sabia só que me sentia bem ao lado dele", disse. Quando sua barriga começou a crescer, todos no povoado pensaram que era só mais um caso de verme, comum na região. Recomendaram-lhe purgantes, que José/Joana tomou no dia em que as frequentes dores de barriga ficaram mais fortes que o normal. Foi para o mato aliviar-se, e foi lá que a menininha nasceu.

O que Joana temia era ter de abrir mão de sua liberdade adquirida de ir a bailes, beber pinga, andar a cavalo, tocar viola, e todas essas coisas que os homens podiam fazer à vontade em qualquer canto de Alagoas. Já as mulheres... tinham que casar, e a população de trezentos e poucos habitantes de Lajes passou a pressionar pela união de Joana e Neuto. Este, no entanto, se achava muito novo para o casório.

O caso ficou em aberto, pois o jornal esgotou sua criatividade na cobertura e abandonou o homem-mãe. Ou, pelo menos, até o ressurgimento do personagem quase três décadas depois, em 28 de maio de 1992, agora encarnado em um filipino de 32 anos chamado Carlo. O grávido era enfermeiro em Malaybalay, a cerca de 800 km de Manila, e, ao contrário de José João, sempre se considerou mulher apesar de seu físico masculino.


Dessa vez, porém, tudo indicava que se tratava de um caso de hermafroditismo, e o próprio Carlo contou ter se submetido a uma cirurgia alguns anos antes para retirar o atrofiado órgão masculino e alargar o canal vaginal. O problema da escolha do sexo estava resolvido, mas só no psicológico: os documentos de Carlo atestavam que ele era do sexo masculino, e a Igreja das Filipinas negou-se a casá-lo com outro homem --no caso, o militar de 21 anos Ruel Enriques.

Mas Carlo --ou Diane, como gostava de ser chamada-- não desanimou e continuou a dar entrevistas a todos os jornais e especialmente para a repórter Cynthia de León, do "Daily Inquirer", fonte do "Notícias Populares" nas Filipinas. Mas o futuro marido e a família de Carlo temiam que o assédio prejudicasse sua saúde e, em 1º de junho, o jornal anunciava que o grávido fora sequestrado pela própria parentela.

A fonte do "NP", no entanto, tinha acesso exclusivo à companhia do homem-mãe e relatou alguns dias depois que ele tivera mais uma prova de sua feminilidade: "Espirra leite dos dois peitinhos do homem-mãe" era a manchete de 3 de junho. Estava tudo pronto para o parto, e o jornal já estimulava as apostas dos leitores no sexo do bebê. O prêmio: um walkman.

Crédito: Folhapress
O filipino Carlo, então com 32 anos, exibe sinais "de gravidez"

A previsão era que Carlo daria à luz em 17 de agosto. Até lá, o "NP" continuaria a divertir os leitores com desenhos explicativos sobre a genitália do homem-mãe e com entrevistas a celebridades - foi assim que os paulistanos aprenderam que Sócrates era contra uma lei que permitisse a troca de sexo, e que Clodovil defendia o direito de Carlo de casar-se, dentro ou fora da Igreja.

A festa acabou em 10 de junho, quando se anunciava que o homem-mãe negava a gravidez. Carlo teria inventado tudo para convencer o parceiro a casar-se, e todas as pessoas que disseram ter visto a barriga do rapaz e presenciado sua condição hermafrodita agora tiravam o corpo fora. Ou desmentiam tudo, como fizera uma enfermeira de Malaybalay: "Seu pênis é tão grosso como os meus dois polegares juntos. A vagina que a cirurgia havia criado para permitir a fecundação é tão imaginária quanto a gravidez."

A médica que dissera ter ouvido o coração do nenê batendo confessava: "Carlo se recusou a fazer um exame mais sério. Não vi sequer seus órgãos sexuais." O walkman seria agora sorteado entre todos os leitores do "NP" que ligaram para fazer suas apostas. O jornal fazia sua mea culpa citando outros veículos que também noticiaram o caso, como o inglês "The Sun". Enquanto isso, Ruel e Carlo trataram de desaparecer do mapa, sob ameaça de linchamento. Os moradores de Malaybalay e os leitores do mundo todo estavam decepcionados: parir crianças continuaria a ser, afinal, um privilégio só das mulheres.

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