Música
Descrição de chapéu The New York Times

DMX queria um recomeço, mas coube ao produtor finalizar o novo álbum

Rapper, que lutou contra o vício em drogas por anos, morreu aos 50

O rapper DMX em uma apresentação durante a quinta semana do festival BIG3 Streeter Lecka - 23.jul.2017/AFP

Joe Coscarelli
The New York Times

Perto dos 50 anos e ao fim de uma sentença de um ano de prisão por sonegação de impostos, o rapper DMX tinha assinado um contrato novo com sua velha gravadora, a Def Jam, e estava produzindo o primeiro disco em quase uma década.

No estúdio, seu rugido continuava a ser feroz. Mas DMX, que enfrentou problemas com as drogas por muito tempo, também sabia que tinha ganhado peso, e isso o incomodava. No começo, “a sensação dele era de que seu look não estava bom”, diz Swizz Beatz, velho amigo, e produtor de DMX. Mas à medida que as gravações avançavam, o rapper começou a se sentir melhor, e parou de se preocupar.

“Ele queria que as pessoas postassem vídeos que o mostravam dançando”, diz o produtor. “Tinha recuperado a confiança, e era só isso que faltava para concluir o álbum." A fase seguinte do plano seriam dois meses de condicionamento rigoroso com um personal trainer.

Mas o retorno pleno de DMX jamais aconteceu. Em 9 de abril, uma semana depois de sofrer um ataque cardíaco, o artista (cujo nome de batismo era Earl Simmons) morreu em um hospital de White Plains, Nova York, chocando o mundo do hip-hop.

Em meio às expressões de pesar e de apreciação pelo trabalho dele, a Def Jam anunciou que “Exodus”, o oitavo álbum de DMX, e o primeiro para a gravadora desde 2003, seria lançado, sob o comando de Swizz Beats, o produtor executivo do disco.

As 13 faixas de “Exodus”, lançado em maio passado, exibem o rosnado e a psique ferina de DMX, acompanhadas por participações especiais de Jay-Z, Nas, Bono, Lil Wayne, Snoop Dogg e Alicia Keys. E embora o disco comece com o lado nova-iorquino bruto de DMX, em faixas como “That’s My Dog”, “Bath Salts” e “Hood Blues”, a última faixa tem DMX cantando sobre violinos melancólicos, em “Letter to My Son”. E em seguida ele reza.

Swizz Beats falou sobre o processo de gravação de “Exodus” e a responsabilidade que sente por conduzir a carreira de DMX, na vida e na morte. A seguir, trechos editados da conversa.

Para você, ouvir a música dele agora é dor ou alegria?
É alegria. Estou sofrendo? Sim. Mas escondo o sofrimento na criatividade, e me mantenho firme para levar esse projeto até a linha de chegada e entregar às pessoas aquilo que ele queria lhes dar. Havia todo um plano. Era a reconstrução dele —física, espiritual e mental. Ele estava se dedicando. Chegava todo o dia no estúdio ao meio-dia. E trabalhávamos até as 16h.

Vocês gravavam de dia?
Precisávamos dele durante o dia. À noite era... havia muita coisa nos pensamentos dele, naquela hora. Muita gente reunida em torno dele. Eu preferia trabalhar com ele antes disso. Era como um emprego. Não fazíamos nada desse tipo há 13 anos, esse companheirismo no estúdio a cada dia.

Como foi convencer DMX a fazer “Verzuz”, com Snoop, em 2020? Foi onde tudo isso começou?
Tive certamente que ser paciente com ele em “Verzuz”, porque ele é um verdadeiro rapper de batalha. “Estou sempre tentando arrancar a cabeça de alguém”, ele dizia. Mas eu lhe dei algum tempo para entender o conceito, e quando ele entendeu que era uma celebração, com duas pessoas que se respeitam, e não duas pessoas querendo arrancar a cabeça uma da outra, ele se encaixou bem.
Depois de “Verzuz”, ele estava bem entusiasmado —sentiu o amor das pessoas, dos fãs, dos colegas. Isso o deixou em um clima bem festivo. Ficamos no estúdio de Snoop e terminamos o álbum. É como se tivéssemos apanhado aquela energia e a engarrafado, e guardado no armário. E íamos ao estúdio e abríamos aquela garrafa um pouquinho, a cada dia. Snoop cozinhava para nós. X estava se sentindo confortável.

Não há muitos rappers lançando álbuns aos 50 anos. Que objetivos vocês discutiram para esse retorno?
Eu queria levá-lo ao nível em que ele merecia estar, mas sem as dificuldades e problemas que ele vinha enfrentando desde os 14 anos. Ele ainda tinha gasolina no tanque. E a sensação era a de que a gente ainda tinha como competir naquela corrida. É por isso que os convidados são todos gente grande, de Bono e Alicia Keys a Lil Wayne, Jay-Z e Nas. Cercá-lo de um elenco de apoio com esse nível de grandeza.

Caras, como você, 50, Dre, Jay, Nas vocês conseguiram fazer a transição para a arte, tecnologia, moda, negócios. X nunca teve essa chance. Isso era algo sobre o que vocês conversavam?
Ele estava claramente com a cabeça nos negócios, desta vez; X é uma pessoa muito simples, nada materialista —ele só queria alimentar sua família, brincar com carrinhos de controle remoto, andar de quadriciclo. Mas ele era um grande escritor, e estava fazendo roteiros para programas de TV.

Você sentia alguma responsabilidade por ou culpa com relação a ele, por ter tido tanto sucesso nas fases subsequentes de sua carreira?
Mil por cento. Eu não conseguia dormir, sabendo que ele não estava realizando plenamente o seu potencial. Porque X vinha lutando contra o vício desde que ele tinha 14 anos, e assim, quando o mundo o ouviu pela primeira vez, ele já estava nessa batalha. Não é como se fosse algo que apareceu mais tarde. Todo mundo vive ocupado, mas eu não queria estar ocupado demais para ajudá-lo. Parei todos os meus projetos. Pensei comigo mesmo que tinha de consertar aquilo. Era um propulsor para mim, porque X criou muitas oportunidades para muita gente, o que me inclui.

Nos últimos meses, perdemos X, Shock G e Black Rob. Tantas lendas do hip-hop não conseguem passar dos 40 ou 50 anos. Você acha que a indústria e os colegas fazem o bastante para cuidar dos artistas negros quando eles envelhecem?
Não acho que a coisa seja estruturada assim. Temos de assumir a responsabilidade individualmente. Não dá para esperar a indústria mudar. Temos de assumir a responsabilidade e dar aos artistas que respeitamos suas flores, e ver se está tudo bem com eles, e tentar criar alguma espécie de plano. Os fundadores do hip-hop deveriam estar voando em jatinhos todos os dias.
Precisamos criar alguma coisa para pagar o que devemos aos fundadores. Como vamos ser donos da cultura se não fizermos o que temos a obrigação de fazer? Não deveríamos depender de outras pessoas ou de qualquer tipo de grande empresa para nos salvar. Temos gente suficiente, se nos unirmos. Todo mundo fala sobre milhões, centenas de milhões, bilhões —e os fundadores do hip-hop não são tantos assim. Deveriam receber pelo menos US$ 1 milhão por ano, vindo de todos nós. Por respeito.

O que conviver com DMX lhe ensinou sobre o vício?
Embora X tivesse um vício, jamais olhei para seu vício. Eu o olhava como um ser humano, e conhecia tantos lados dele que, para mim, eclipsavam o vício. A sensação era de que isso era algo que acontecia quando ele se entediava. Sei que ele era um gigante gentil, e eu o conhecia por sua grandeza e jamais o julguei por seu vício. Sempre falei com ele, mas nunca lhe disse o que fazer. Nunca lhe disse que ele precisava de tratamento.

É algo que você gostaria de ter feito?
Ele sabia o que precisava fazer. Minha conversa com ele era outra, para levá-lo a uma posição na qual ele pudesse fazer as coisas que realmente queria, para ele e seus filhos. A minha maneira de lidar com X era muito gentil. Era como eu conseguia me comunicar com ele. Falava com ele como ser humano —não como rapper, não como viciado, mas como um bom ser humano.

Ele estava limpo enquanto vocês trabalhavam, até onde você sabe?
Sim, e é por isso que ganhou tanto peso. Eu zoava com ele, mas estava feliz, ao mesmo tempo.

Quando vocês se viram pela última vez?
Completamos o disco cerca de dois meses antes de ele nos deixar. Ele me ligou um dia, eu estava embarcando para uma viagem à Arábia Saudita, e ele me disse que sentia necessidade de estar comigo, que queria estar próximo da minha energia. E eu pensei comigo mesmo que aquilo era algo que X nunca dizia. Eu o convidei para ir comigo na viagem, e disse que partiria dentro de dois dias. Ele disse, “OK, quanto tempo dura o voo?” Eu respondi que durava 17 horas, e ele rebateu: “Hmmm, não sei se quero tanto assim ficar perto de você”. [Risos.]
E depois disso não nos falamos mais. Quando cheguei lá, recebi uma mensagem em que ele dizia que queria agradecer tudo que fiz por ele —do nada. E eu respondi que também apreciava o que ele tinha feito por mim, e que o amaria pelo resto da vida. E enviei a playlist de hip-hop velha guarda “Rap Attack”, de Mr. Magic, que encontrei online. Foi nosso último contato.

Você estava na Arábia Saudita quando soube?
Eu nunca tinha visto chover na Arábia Saudita —choveu o dia todo. Eu não conseguia sair da cama. Fiquei com o corpo coberto de urticárias.

Você acha que ele estava estressado com a ideia de um retorno?
Não, acho que estava empolgado com isso. Mas sei que vir a Nova York nem sempre é um bom encaixe para ele. É onde os demônios todos estão.

Discos póstumos podem ser complicados. “Exodus” não tinha data de lançamento antes da morte de X. Você acha que teria sido mais difícil receber apoio da gravadora para o disco, se DMX ainda estivesse vivo?
A Def Jam nos apoiou completamente. Não ouvi “não” a qualquer dos pedidos que fizemos, e isso é muito raro, especialmente se você está falando de um artista mais velho.

Como evitar a impressão de que a morte de alguém está sendo explorada?
Eu sei a verdade. O respeito está presente. Eles até ajudaram no funeral. A Def Jam ajudou. E não falaram a respeito, o que acho que foi uma prova de classe.

O que aconteceu com a colaboração de Pop Smoke que as pessoas esperavam neste álbum?
Tivemos de retirá-la do disco. Foi usada em outra coisa, o que não me incomoda. Coloquei Moneybagg Yo na faixa. Mas o disco foi feito todinho enquanto DMX ainda estava vivo. São canções que ele aprovou. A única mudança foi Pop Smoke.

Quando você perde alguém, velhas lembranças muitas vezes ressurgem, coisas sobre as quais você não pensava há anos. Isso está acontecendo, no caso de X?
Eu ajo como se fosse forte, e escondo as coisas na música, mas estou sofrendo. Só agora consigo ouvir “Stop, Drop”. Logo que ele morreu, não conseguia. Agora tocar a faixa dói menos. E dói menos porque ele me apareceu em um sonho, estava assistindo a “South Park”. Era seu programa favorito.
Nós sempre pregávamos peças um no outro, e no sonho eu chego correndo por trás dele, e o sacudo, para tentar assustá-lo. E ele começa a rir, e se volta para mim. Nós começamos a brigar, de brincadeira, como costumávamos fazer —um tentando imobilizar o outro.
Ele se ergue, segura meus dois braços, me olha bem nos olhos, meneia a cabeça e diz “estou bem, não se preocupe comigo”. A impressão era a de que ele estava para começar a chorar. E ele se vira, entra em uma sala e a porta se fecha. Em seguida eu acordei.

Alguma outra história sobre X veio à memória, recentemente?
Uma história engraçada —eu conversei sobre isso com Jadakiss. Ele alugava um carro —imagine ir à Avis ou uma dessas companhias e alugar uma picape Cadillac, e aí levar a picape à oficina para trocar as calotas, embelezar um pouco o carro. Só para o final de semana. X era assim, espontâneo. “É meu carro neste final de semana, e quero que tenha a aparência que gosto”.

E depois ele devolvia o carro na Avis?
Com as calotas e tudo mais. O pessoal da locadora perguntava “mas o que é isso?” E ele respondia, “sei lá, deem um jeito”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci.

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