Música

Negra Li, aos 40, celebra a vida com música de protesto: 'Muita verdade precisa ser dita'

Videoclipe de 'Onde as Flores Não Nascem' foi gravado na Brasilândia

Negra Li
Negra Li - Marcos Leoni/Folhapress
São Paulo

​Com uma batida pesada e envolvente Negra Li canta: “Se você não aguenta e não para em pé, então não desce pro play...Assim que é, permaneça em pé!”. Esse é trecho da música “Onde as Flores Não Nascem”, que o F5 teve acesso com exclusividade e que faz o anúncio de uma nova fase da artista. 

Perto dos 40 anos, que serão completados em 17 de setembro, e com mais de 20 anos de carreira, a cantora e rapper paulistana afirma que é tempo de reaquecer as vozes da juventude, e ela faz isso com músicas novas. Após lançar o álbum “Raízes”, em novembro do ano passado, ela prepara um videoclipe desta nova canção que foi gravado na rua que ela nasceu, no bairro da Brasilândia.

“Essa música representa tudo o que eu queria falar sobre o momento que a gente está vivendo, de muito ‘fake’. Muita verdade precisa ser dita e estou muito feliz em ter essa autoridade [dado seus 20 anos de carreira]”, diz a artista. 

Li conta que começou a sentir falta do clima que o rap tinha nos anos 1990. “A periferia começou a ter liberdade para falar sobre tudo o que se passava. Mas as oportunidades foram surgindo pra essa galera, a periferia começou a falar sobre outros assuntos, porque vivia outras coisas. Mas já que estamos regredindo em várias situações, está na hora de reviver esse clima também”, afirma Negra Li, dando como referência a Tropicália, nos anos 1960, o rock dos anos 1980 e o rap dos anos 1990. 

Como veterana, a rapper espera criar uma faísca criativa nos mais jovens. “Esse é o momento de a gente colocar pra fora tudo o que a gente acha que é injusto. É preciso fazer os jovens questionarem de novo, participarem mais da política”, afirma. 

Prestes a lançar esse novo videoclipe, Negra Li diz que ainda vem muito mais canções na sequência. “Já me adaptei ao novo mercado, agora a gente tem que lançar coisas novas sempre”, disse aos risos. 

MULHERES NA MÚSICA

Negra Li começou adolescente cantando rap com o grupo RZO, nos anos 1990, até alçar sua carreira solo. Até hoje, ela é referência para mulheres na música já que ela se tornou uma das primeiras cantoras de seu gênero predominantemente masculino. Hoje, a lista de rappers brasileiras é grande, entre elas, Karol Conka, Tássia Reis, Flora Matos e Cinthia Luz. 

“O rap foi um movimento muito machista, em que era mais comum ver mais homens, mas as mulheres tomaram o seu próprio espaço justamente não desistindo dele”, afirma Negra Li. Ela disse que frequentemente era desestimulada ou ouvia coisas como “deixa que alguém faz isso para você”. “Estamos vivendo uma revolução em que até os homens estão se desconstruindo, revendo suas atitudes”, lembra a cantora. 

Li bateu um papo com as cantoras que foram convidadas para integrar o projeto Escuta as Minas do Spotify, que incentiva cantoras, produtoras e técnicas de som, em início da carreira, a mostrarem o seu trabalho. “Contei a elas sobre a minha trajetória e espero inspirá-las”, afirmou Li.

A artista lembra bem diversos momentos em que se sentiu preterida por ser mulher. “É marcante para mim, até hoje. Uma vez em um programa de TV, eu estava em um grupo de homens e pedi para cantar ao vivo uma música que tínhamos o instrumental, mas o DJ decidiu que fariam playback com uma canção pronta dos meninos, ao invés de me deixar cantar. Essa foi uma situação que me fez pensar sobre como eu não tinha espaço”. 

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