Música

Os Rolling Stones sabem do que você precisa: um título de aposentadoria

Patrocinador da banda britânica vende títulos à terceira idade

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Stones são patrocinados por empresa que vende títulos de aposentadoria - T. M. Detwiler/The New York Times
Jeff Sommer

Foi a isso que chegamos: cirurgias, títulos de aposentadoria e rock’n’roll. Os Rolling Stones, bad boys do rock nas décadas de 1960 e 1970, estão mostrando a idade. 

Em abril, a banda adiou o início de sua turnê pela América do Norte para que Mick Jagger pudesse passar por uma cirurgia, supostamente para substituir uma válvula cardíaca defeituosa. Jagger já voltou a saltitar pelo palco, e a turnê de três meses da banda começou com muita intensidade.

Eu gostaria de acreditar que os Rolling Stones, como Peter Pan, não têm idade. Mas a verdade é que a banda escolheu como único patrocinador de sua nova turnê a Alliance for Lifetime Income, uma associação setorial que promove a venda de títulos de aposentadoria. Mas todo mundo sabe que preparar a aposentadoria não é exatamente o tema de “Satisfaction”.

Talvez nada disso devesse surpreender. Os Stones começaram a se apresentar no verão de 1962, e os quatro membros atuais da banda têm mais de 70 anos. Eles não são realmente imortais. Eu tampouco (ou assim me dizem). E no entanto, como fã da banda desde a década de 1960, jamais imaginei uma letra que dissesse “você pode conseguir o que precisa, se tiver um título de aposentadoria”. Mesmo?

Melhor deixar claro que Keith Richards e Mick Jagger não mudaram a letra de seu clássico sucesso “You Can’t Always Get What You Want”. Foi o patrocinador. A organização mexeu na letra em seu site, que tem por objetivo educar as pessoas sobre a importância de “reduzir os riscos” em suas vidas, algo que os Stones sobreviventes já devem estar fazendo, para sobreviver pelo tempo que sobreviveram.

Uma década atrás, eu teria esperado comerciais de cigarros, bebidas, carros esporte, associados à marca dos Stones. Perdão: duas décadas atrás. Ou talvez três, quatro, até cinco décadas.Mas  não em 2019. O público da banda envelheceu, e isso tem consequências comerciais.

“E se os fãs acompanham os músicos, não há motivo para que a publicidade não acompanhe os dois”, disse John Covach, estudioso dos Rolling Stones e professor de teoria musical que preside o Instituto de Música Popular da Universidade de Rochester.

A audiência dos Stones é o público ideal da Alliance for Lifetime Income, disse Jean Statler, diretora executiva da organização sem fins lucrativos que tem 24 companhias de serviços financeiros entre seus integrantes, entre as quais AIG, Allianz, Axa, Goldman Sachs, Prudential, State Street e TIAA.

Ela disse que o público que vai aos shows da banda é “a nossa faixa etária alvo, dos 45 aos 72 anos, com ativos para investimento da ordem de entre US$ 75 mil e US$ 2 milhões”. Essas pessoas “não são investidores imensos, com muito dinheiro. São a classe média”, disse Statler.

“São pessoas que trabalharam com afinco e acumularam algum dinheiro, e podem ter o benefício de viver por mais tempo do que imaginavam originalmente, e talvez percebam que não pouparam o suficiente para bancar suas despesas."

Os milhões de pessoas que fazem parte desse grupo –sou uma delas– podem jamais ter imaginado, quando adolescentes, que alguém um dia conectaria os Rolling Stones a títulos de aposentadoria. Sei que eu não imaginei. Nem sabia o que é um título de aposentadoria. Você talvez não saiba até hoje.

Sem problema. É um instrumento financeiro que oferece uma renda regular em troca de seu investimento. Ou, como a organização expressa, um título de aposentadoria “pode lhe dar uma renda protegida com a qual você poderá contar pelo resto da vida”.

A Previdência Social é a principal fonte de benefícios de aposentadoria nos Estados Unidos, e os contribuintes contam com ela desde que realizou os primeiros pagamentos de aposentadoria, em 1940. Mas o programa está enfrentando um déficit de arrecadação, e os benefícios que ele paga podem ter de ser reduzidos, dentro de 15 anos. Como apontei em uma coluna recente, exigir que seus representantes eleitos resolvam esse problema pode ser a melhor atitude que você pode tomar para garantir seu futuro.

A Alliance for Lifetime Income fala sobre suplementos privados aos pagamentos da Previdência Social, adquiridos com ajuda de um consultor de investimentos, talvez de uma empresa integrante da aliança. Comprar um título de aposentadoria pode ser uma escolha razoável, se ele for barato. 

Ainda assim, a Previdência Social oferece aposentadoria a preço mais baixo do que qualquer coisa disponível no mercado, no caso das pessoas que puderem trabalhar por mais tempo que sua data mínima para aposentadoria integral (isso se presumirmos que a Previdência vá continuar a oferecer benefícios integrais).

Eu gostaria mais se a Alliance for Lifetime Income se dedicasse a restaurar a força financeira da Previdência Social. Bem, você nem sempre pode ter o que quer. Mas, porque sou fã dos Stones e estou bem no centro desse alvo demográfico, sou ativo no Twitter e tenho interesse por títulos de aposentadoria (nem que apenas por motivos jornalísticos), comecei a receber uma série de mensagens promocionais sobre os Stones e a Alliance for Lifetime Income, online.

São divertidas, mas um pouco inesperadas, justapondo a banda e seu lascivo logotipo de lábios e língua a mensagens sérias de planejamento financeiro. Comecei a sentir que tinha caído em uma terra estranha -uma versão 2019 do entretenimento e publicidade dirigidos ao público geriátrico, como o velho programa de TV do acordeonista Lawrence Welk. Os patrocinadores de Welk incluíam o Geritol, um preparado de vitaminas que protegia energizar as pessoas com “falta de ferro no sangue”. 

Ele costumava tocar músicas muito queridas no passado –que eu achava cafonas–, mas era o músico favorito da minha avó, da mesma forma que os Stones são os meus, Covach, que leciona um curso sobre os Rolling Stones no site de aprendizado Coursera, entende o paralelo.

“Acho que você tentando enquadrar o fato de que uma banda que entendíamos como associada à juventude e rebelião -assim como sexo, drogas e todas essas coisas- tenha se tornado essencialmente uma turma de velhinhos que recomendam planos de aposentadoria. E o que isso pode querer dizer sobre o fim da vida de todos nós, daquela geração”.

Ele estremeceu. “Imagine a próxima turnê. Os Stones podem ser patrocinados por uma funerária, ou uma empresa que vende terrenos em cemitérios. É nessa direção que estamos caminhando?” Ainda não chegamos a esse ponto. Os Stones continuam rolando, mas o tempo não está do nosso lado.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci.

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