Música

Jesuton lança primeiro álbum autoral e diz que conheceu MPB em favela carioca

Cinco anos após ter virado sucesso nas ruas do Rio, a cantora britânica Jesuton, 32, lançou "Home", seu primeiro álbum autoral. A inglesa, que, já fez interpretações com brasileiros, como Marcelo D2 e a banda AfroJazz, explora agora seu potencial nas próprias músicas, que vieram de inspiração com a perda do irmão mais novo.

Em entrevista ao "F5", a cantora conta que, mesmo escrevendo as letras do álbum há algum tempo, não se sentia segura para torná-las públicas. "Não estava preparada para o sucesso que tive com a música no Brasil. E, para ser uma profissional fora de casa, é preciso conhecer bem o ambiente antes de propor qualquer coisa", diz.

Uma temporada na favela ajudou Jesuton a resolver essa questão e se ambientar com o cenário musical brasileiro. Logo que chegou ao país, a cantora foi morar em um albergue no Chapéu Mangueira, comunidade no Leme, na zona sul do Rio.

"Ao me apresentar como cantora, alguns moradores da comunidade me chamaram para mostrar o DVD da Ana Carolina, que tem participação especial de outros cantores. Eles foram me explicando quem era quem", recorda.

MEDO DO PÚBLICO

Embora gostasse de cantar desde jovem, o lado artístico foi explorado somente em 2007, em Cusco, no Peru. "Quando eu morava em Londres, eu sentia que aquele não era o ambiente para ser cantora. Havia um clima de competição muito forte, e isso me deixava com medo e ansiosa", explica Jesuton.

A viagem ao Peru ocorreu após a graduação em ciências humanas pela universidade de Oxford. O objetivo da experiência no país era fazer trabalhos voluntários e desenvolver o projeto de pesquisa de seu mestrado.

Entre os estudos e as atividades em uma comunidade indígena, Jesuton conheceu, por meio de uma amiga, uma banda de reggae. Foram os integrantes deste grupo que a introduziram no mundo musical. Sabendo do talento da inglesa, que cantarolava em casa com a amiga, eles aproveitaram da sua descontração, resultante de alguns "mojitos" (bebida que mistura ,rum, hortelã, limão, açúcar e água com gás) e a convenceram a soltar a voz em um bar, durante uma apresentação.

A experiência a agradou a tal ponto que, no dia seguinte, quando o guitarrista da banda foi até sua casa para convidá-la para ser cantora oficial da banda, ela não apresentou nenhuma resistência.

"Já naquele mesmo dia, nós escolhemos todo o repertório, com Bob Marley, Sting e Joss Stone", conta. Na semana seguinte, após ensaios, Jesuton já estava pronta para cantar com a banda. "A partir daí nós começamos a fazer muitos shows por Cusco, e o medo que eu tinha passou a diminuir", afirma.

'SONG FOR EASY'

Paralelo ao trabalho na ONG e a experiência musical, Jesuton continuou submetendo seu projeto de pesquisa às universidades. E seu sucesso se estendeu à carreira acadêmica: a inglesa conseguiu uma bolsa pelo concorrido programa Fullbright e foi estudar em Washington, nos Estados Unidos.

Lá, levando a sério o que seu pai nigeriano ensinou sobre a valorização do estudo, a britânica optou por focar em sua pesquisa e deixar a música de lado. "Em certo sentido foi um teste também para ver o quanto a música era importante pra mim", afirma a inglesa.

De fato, cantar lhe fez falta: depois de quase dois anos nos EUA sem espantar seus males, ela resolveu voltar a Cusco para reencontrar o grupo de reggae. Quando chegou no Peru, contudo, não havia mais banda.

"Todo mundo tinha ido embora. Já estavam cantando com outras pessoas. Eu fiquei chateada porque vi que tinha passado o momento. Então resolvi voltar para Londres", conta a inglesa.

De volta à Inglaterra, a vida voltou a surpreender a cantora. Desta vez, uma surpresa triste: poucos meses após chegar em Londres, morreu seu irmão de 17 anos. "Essa experiência mudou a minha trajetória. Meu irmão foi uma pessoa muito leve, que tinha certeza do que queria para vida."

A partir deste acontecimento, a britânica diz ter refletido mais sobre seu caminho. Naquela época, tinha planos para viajar, mas desistiu para ficar com a família.

"Nesse momento, eu comecei a pensar sobre minha vida, minhas escolhas e escrevi muitas coisas sobre isso."

Foi nessa profusão de sentimentos que surgiu a primeira composição do álbum autoral de Jesuton, a canção "Song for Easy". "Um amigo de Londres e eu escrevemos a primeira música, na qual eu falo para o meu irmão o que aprendi com ele, sobre como a vida pode ser fácil, mas, ao mesmo tempo, sobre como a vida, sem ele, não é fácil", comenta.

A perda do irmão acabou trazendo a cantora ao Brasil e também virou o fio condutor das outras composições do primeiro álbum autoral da britânica. "Se isso não tivesse acontecido, acredito que eu não estaria onde estou agora, nem teria vindo ao Brasil. Neste disco, eu falo sobre isso, sobre onde eu devo estar e sobre quem ser depois de perder uma pessoa tão importante."

Depois encantar o país e virar queridinha do Luciano Huck com suas interpretações, a britânica apresenta agora seu novo álbum com 12 faixas. "Home" traz músicas alegres, como "Radio" e "Vultures", e sons mais melancólicos, como "If  I  Could". O disco conta com a participação dos brasileiros Seu Jorge e Dani Black. Por enquanto, o foco da cantora é divulgar o disco pelo Brasil. Em março de 2018, ela se apresenta no Lollapalooza.

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