Estilo
Descrição de chapéu The New York Times

'Penteado TikTok': Cabelo popular entre jovens tem origem na antiguidade

Usado por Alexandre Magno, penteado volta com força entre Geração Z

Joshua Rich mostra "penteado TikTok", popular entre a Geração Z Daniel Dorsa/The New York Times

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Danya Issawi
The New York Times

Em Los Angeles, a namorada de Darrell Jones, 21, muitas vezes o ajuda a cachear os cabelos. Usando uma chapinha quente em áreas que receberam um spray de proteção contra o calor, ela cria pequenos cachos e os prende com grampos rente à cabeça para que se assentem. Por um breve momento, a impressão é a de que Jones está se preparando para ser o maior galã da década de 1930. Mas depois que os cachos esfriam, Jones os fixa com laquê e depois usa os dedos para rearranjar as madeixas.

Do outro lado do país, em Wilmington, Carolina do Norte, Tristan Harrell, 17, cria um look parecido usando um método um pouco diferente. Ele começa com o cabelo molhado e usa spray de sal marinho em vez do spray de proteção contra calor (embora a mãe dele, dona de um salão de beleza, sempre peça para ele usar protetor). A depender do dia, ele cria cachos invertidos, com uma escova e um secador, ou usa uma chapinha miniatura. Ele também recorre ao laquê para finalizar o look. A rotina toda demora de 10 a 15 minutos.

Joshua Rich 7º, de Easton, Pensilvânia, usa o mesmo estilo de cabelo, mas tem menos trabalho de manutenção. Ele enxuga o cabelo com uma toalha e deixa o resto do trabalho por conta da evaporação, às vezes acrescentando um pouquinho de spray de sal marinho para conseguir sustentação adicional. "Não dá muito trabalho fazer", ele disse. "Meu cabelo é bagunçado naturalmente, especialmente se eu só secar com uma toalha e não mexer mais".

Os três jovens em questão usam um estilo de cabelo que se tornou moda entre os membros da Geração Z: ondas fofas e macias de cachos que se estendem até quase as sobrancelhas, penteados para a frente na direção do rosto e com volume no topo –ou seja, ao mesmo tempo um primo do topete e sua antítese.

Cada um deles criou um tutorial no TikTok sobre como produzir o look, e os três vídeos se tornaram sucesso viral. (O penteado é grande sucesso entre os usuários mais jovens do TikTok.) Jones, com 12 milhões de views, é o maior sucesso entre eles.

"Vi no TikTok que diversos caras vêm à minha página ‘For You’ usando o mesmo penteado", disse Harrell em entrevista, se referindo à página de recomendações de vídeo do TikTok. Quando "eu comecei a mudar meu penteado, isso me deu uma injeção de confiança, porque me senti bem sobre a maneira pela qual meu cabelo estava funcionando", ele disse.

Não surpreende que o estilo, que muita gente chama de "penteado TikTok" ou "cabelo masculino TikTok", seja tão popular. Alguns dos maiores astros do app, como Bryce Hall, Noah Beck e Josh Richards, têm dezenas de milhões de seguidores, e usam esse corte revolto e texturizado. (Hall agora usa um "mullet", que também é popular.)

E embora o estilo possa parecer novidade, já passamos por isso, de muitas maneiras. Eras recentes nas quais homem algum estava livre da pressão para experimentar um penteado específico incluem o começo dos anos 2000, que trouxe um retorno do topete, um estilo que parecia ser o penteado preferido de todos os vocalistas de bandas indie.

Tivemos também o emblemático corte de Justin Bieber (uma espécie de corte tigela estilizado), que serviu como padrão para todos os adolescentes entre 2009 e 2011. Por fim, e talvez não por coincidência, os cabelos de Bieber encurtaram e a distância entre seu cabelo e suas sobrancelhas se alargou, e por volta de 2015 surgiu um novo estilo, o coque masculino –um penteado que muita gente curtia mas pouca gente conseguiu adotar com sucesso.

Mas os padrões de tratamento e de estética dos cortes masculinos de cabelo recuam ainda mais na história, e são milenares. Na verdade, o estilo de cabelo hoje conhecido como penteado TikTok já foi reciclado numerosas vezes na história, renascendo nas cinzas em intervalos de alguns séculos, como uma fênix de ousadia capilar.

De acordo com Katherine Schwab, professora de história da arte e cultura visual no departamento de artes visuais e cênicas da Universidade Fairfield, gregos e romanos usavam penteados muito semelhantes a esse, na antiguidade. A tendência atual, ela disse, segue duas regras cardinais dos cortes de cabelo masculinos adotados na antiguidade. Primeiro, que o cabelo seja penteado para a frente, do topo em direção à fronte (seguindo a direção em que o cabelo cresce naturalmente) e, segundo, e talvez mais importante, que as madeixas sejam visivelmente texturizadas.

"Alexandre Magno tinha um cabelo espesso, cacheado, e penteado do topo para a frente", disse Schwab, que foi curadora de uma exposição intitulada "Cabelo no Mundo Clássico", em 2015. Ela acrescentou que "em minha opinião, a atenção que os homens demonstram ao cabelo agora –que eu poderia classificar como extrema– tinha paralelos na antiguidade. Não é novidade alguma".

REJEITANDO OS IDEAIS DA GERAÇÃO ANTERIOR

De certa forma, Alexandre Magno foi o primeiro influenciador. Marice Rose, que dividiu a curadoria da exposição sobre cabelos da antiguidade com Schwab e é professora associada de história da arte e cultura visual na Universidade Fairfield, disse que o penteado viral do TikTok lembra os retratos de Augusto, o primeiro imperador romano, que se inspirou em Alexandre Magno para o seu look; esse penteado foi depois adotado por outros imperadores, para criar uma associação ente eles e seus predecessores.

"Existem muitos estudos históricos, sociológicos e antropológicos que mostram que os penteados e o arranjo dos cabelos foram –e continuam a ser– usados para comunicar informações sobre a identidade social e individual de uma pessoa ao longo da história", afirmou Rose em um email.

"Não acho que o pessoal do TikTok tenha os mesmos objetivos de propaganda dos imperadores romanos", ela esclareceu. Mas "nossa cultura ganhou uma orientação visual cada vez mais forte; os smartphones colocaram nos bolsos de todos câmeras e maneiras de ver imagens, e as pessoas hoje gravam e registram cada uma de suas experiências para consumo visual alheio. Agora não são só os ricos e poderosos que podem criar retratos.

Os gregos e romanos da antiguidade tentavam transmitir um senso de poder com seus cachos escovados para a frente e cabelos ondulados (que, segundo Rose, eram criadas pelos predecessores do TikTok na antiguidade com lâminas de metal aquecidas, azeite de oliva, gordura animal e até manteiga.) Em 2021, pode haver considerações diferentes em ação.

Rachael Gibson, historiadora dos penteados, acredita que que seja uma questão de visibilidade e um senso de rebelião. Ela compara a tendência a estilos masculinos que foram populares no século 18.

Naquela era, havia o corte Bedford, um estilo de cabelo curto e encaracolado que surgiu devido a uma escassez de farinha e em protesto contra os altos impostos cobrados pelos pós branqueadores de perucas. Também havia o estilo Brutus, mais longo, inspirado pelo mundo antigo. Esse estilo era um dos preferidos de Beau Brummel, um figurão da alta sociedade da época, e de seus seguidores.

E, por fim, os homens da era da regência na Inglaterra (final do século 18 e começo do 19) também usavam um estilo conhecido como "coruja assustada", talvez o mais revolto dos três, uma pluma de cachos obtida por meio de lavagens pouco frequentes e uso abundante de cera para cabelos (é o cabelo de Colin Firth no papel de Mr. Darcy em "Orgulho e Preconceito".)

Esses penteados pretendiam ser românticos e poéticos, o inverso de seu propósito na antiga Roma e Grécia. O mais importante, porém, é que todos eles eram feitos para serem vistos.

"Creio que toda a moda masculina da era da regência fosse bem rebuscada", disse Gibson. "As pessoas se vestiam bem, dedicavam muito tempo e cuidado à sua aparência. E era uma época em que era OK e normal os homens se comportarem como pavões, exibindo looks extravagantes".

Gibson diz que vê um retorno a essa mentalidade, no sentido de que talvez exista um senso de aceitação em dedicar tempo a cuidar da aparência, entre os meninos e homens atuais.

Os estilos também tinham o objetivo de servir como sinais, acrescentou Gibson, de que o homem que os exibia rejeitava os ideais da geração anterior – "o exagero e excesso das perucas polvilhadas, e também aquilo que elas representavam: ideias e políticas antiquadas. Era uma demonstração, visual e imediata, de que o sujeito queria ser diferente".

Você já viu algo parecido?

O SIMPLES DESEJO DE SER VISTO

À medida que a Geração Z navega o mudo pós-pandemia, ter uma pilha de cachos deslizando testa abaixo é certamente uma maneira de se destacar, ou talvez de sinalizar às gerações passadas que as opiniões e ideais daqueles que estão surgindo são diferentes dos de seus predecessores.

"Com o mundo lentamente retornando a um senso de realidade, ainda que alterado, e as pessoas saindo atordoadas do isolamento da pandemia", disse Gibson, "o que a maioria das pessoas quer é simplesmente ser vista".

Mas também é importante reconhecer que esse é só um penteado, e um penteado dominante entre os homens brancos na cultura atual. Sim, ele é popular, mas a atenção desproporcional que recebe no TikTok é parte de um padrão já visto.

"Homens de todas as origens e formações dedicam muito tempo e esforço aos penteados. Muitos homens negros têm rotinas complicadas de cuidado capilar, e sempre tiveram", disse Gibson. "E os caras brancos agora dizem que eles também usam produtos para o cabelo". Não é uma ideia "que você tenha inventado; você só a descobriu", disse Gibson.

Talvez não seja tão diferente dos penteados dos jovens que recusavam o serviço militar na década de 1960, imortalizados no musical "Hair", ou do moicano e outros estilos punk que sinalizavam não conformismo e rebelião, na década de 1970. Todos se tornaram mais conhecidos pelo seu uso entre os homens brancos.

Mas cabelos, ou sua ausência, há muito servem como veículo de expressão e resistência em comunidades historicamente marginalizadas. Do movimento "Black is Beautiful" da década de 1960 –que apelava aos homens e mulheres negros que adotassem estilos de penteado mais naturais– às tranças, "cornrows", "Bantu knots" e outros estilos que continuam a ser policiados em espaços públicos ainda hoje, às mulheres que continuam a usar seus "hijabs" embora o mais alto tribunal da União Europeia tenha determinado que eles são motivo de demissão por justa causa, aquilo que a pessoa traz na cabeça pode servir como exibição pública do que ela é e, talvez mais importante, do que ela defende. "É uma forma de expressar o que você aspira a ser", disse Schwab.

Mas às vezes, um penteado é só um penteado. Como disse Rich sobre o seu cabelo, algumas pessoas gostam, outras não. "Já me disseram que pareço um sheepdog eletrocutado", ele afirmou. Mas à medida que a popularidade do estilo avança, "isso é algo que ouço cada vez menos".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem