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Tony Goes

Polêmica em torno de 'Amor Sem Medida' ajuda a perceber a existência do capacitismo

Filme com Leandro Hassum foi alvo de críticas de atores com nanismo

Juliana Paes e Leandro Hassum em cena de 'Amor Sem Medida' - Netflix/Divulgação
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"Amor Sem Medida", remake brasileiro da comédia argentina "Coração de Leão", foi anunciado em 2017. Era a quinta versão do filme original, uma das maiores bilheterias de todos os tempos em seu país. Àquela altura, Colômbia, Peru, França e México já haviam lançado suas releituras. A Itália é a próxima da fila.

Em todos esses países, um grande astro local assumiu o papel principal: um homem portador de nanismo, muito bem-sucedido profissionalmente, que se envolve com uma mulher de estatura mediana. Na Argentina, o personagem coube a Guillermo Francella, um ícone da comédia. Na França, a Jean Dujardin, vencedor do Oscar de melhor ator por "O Artista". No Brasil, o escolhido foi Leandro Hassum.

Esses astros também têm outra coisa em comum: nenhum deles é portador de nanismo. Na tela, todos tiveram suas alturas diminuídas por computação gráfica, um processo lento e caríssimo. Que, no entanto, valeu a pena financeiramente, pois todos esses filmes foram sucessos de público. No Brasil, "Amor Sem Medida" foi lançado diretamente na Netflix, e se tornou um dos longas mais vistos da plataforma.



A versão nacional também vem enfrentando uma polêmica que poupou suas similares. O clima político e social mudou desde 2013, quando "Coração de Leão" chegou aos cinemas, e 2017, quando Hassum foi escalado para o remake brasileiro. "Amor Sem Medida" vem sendo acusado de capacitismo, o preconceito contra portadores de deficiência, por não ter uma pessoa com nanismo no papel principal.

Atores com nanismo como Juliana Caldas e Giovanni Venturini foram às redes sociais manifestar seu descontentamento. Usaram um termo que eu desconhecia, "crip face" ("crip" é um termo pejorativo para deficientes), que se refere à prática de usar atores sem deficiência para interpretar personagens deficientes.

Eles têm razão. Não faltam bons atores com nanismo por aí. Relegados durante séculos a papéis humilhantes, de bala de canhão a anão da Branca de Neve, alguns vêm se destacando no cinema e no teatro. O exemplo mais fulgurante é Peter Dinklage, o Tyrion Lannister da série "Game of Thrones", que agora está cotado ao Oscar pelo papel-título do musical "Cyrano".

Por outro lado... Não faltam bons atores, mas ainda não temos estrelas portadoras de nanismo. Uma produção como "Amor Sem Medida", que pretende ter grande apelo popular, não pode prescindir delas. Mas como transformar um ator com nanismo numa estrela, se não lhe dão oportunidades?

Se a produção de "Amor Sem Medida" começasse hoje, é possível que um ator com nanismo fosse convidado para o papel principal. Talvez a presença de um nome consagrado como Juliana Paes já servisse como chamariz de público. E nenhum produtor quer ver seu filme metido em controvérsias que podem prejudicar o desempenho e a imagem da obra.

O irônico é que a franquia "Coração de Leão" se propõe a quebrar preconceitos, mostrando um homem com nanismo rico, realizado e respeitado, longe dos estereótipos cruéis. Só que o simples fato do protagonista ser interpretado por atores sem deficiência vai contra esse objetivo.

O próprio Leandro Hassum pediu desculpas públicas pelo sofrimento que pode ter causado. O fato é que estamos abrindo os olhos para muitas coisas horríveis, que sempre estiveram por aí e passavam despercebidas pelos grupos dominantes. Depois do racismo, do machismo e da homofobia, chegou a vez do capacitismo ser encarado de frente. E combatido.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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