Tony Goes

Zezé Di Camargo presta um desserviço com vídeo a favor do voto impresso

Sertanejo usa argumento equivocado em defesa de pauta bolsonarista

Zezé Di Camargo - Folhapress
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“Vocês têm ouvido falar muito aí sobre essa coisa de ter voto auditável. Uns é (sic) contra, outros a favor. Eu queria fazer uma pergunta para aqueles que são contra. Por que que vocês são contra?”

São com essas palavras que o cantor e compositor Zezé Di Camargo abre um vídeo de quase quatro minutos de duração, postado pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) em seu perfil no Twitter na noite de segunda-feira (26).

“Você sabe o que é voto auditável?”, prossegue o sertanejo. “Voto auditável quer dizer que você tem a chance de conferir se a pessoa em quem você votou realmente vai ser computado no nome daquela pessoa o seu voto”.

Aham, não, voto auditável não quer dizer isso. Não cabe ao eleitor “auditar” o resultado das eleições. Aqui no Brasil, essa tarefa compete ao Tribunal Superior Eleitoral, e o voto eletrônico, em uso há 25 anos, é perfeitamente auditável.

Zezé Di Camargo, então, faz uma comparação totalmente descabida: “É como se você comprasse, pagasse uma conta no cartão de crédito e eles negassem pra você aquele papelzinho que comprova, sabe aquele recibozinho que eles tiram da máquina? Que comprova que você pagou, que foi paga a sua conta”.

Não é de posse de um papelzinho que o eleitor poderá se assegurar que seu voto foi, de fato, computado entre as centenas, milhares de outros de sua seção eleitoral –sem falar nos milhões do Brasil inteiro. Esse “recibozinho” só vai servir para quem impõe o voto de cabresto conferir se o eleitor votou mesmo no candidato imposto. Como os milicianos do Rio de Janeiro, por exemplo –com quem, aliás, a família do presidente da República tem ligações para lá de suspeitas.

O vídeo faz parte da campanha que convoca a população para ir às ruas no próximo domingo, 1º de agosto, em favor do voto impresso. É possível que esses atos não tenham grande adesão: esta pauta não tem grande apelo, está muito em cima da hora, e ainda há uma onda de frio polar atravessando a metade sul do país.

Mesmo assim, Zezé Di Camargo pode fazer um estrago considerável. Simpático, com a voz tranquila e a falsa segurança de quem acha que sabe o que diz, ele pode fazer a cabeça de muita gente. E é exatamente isto o que o bolsonarismo quer: confundir as pessoas, e gerar desconfiança quanto às urnas eletrônicas.

Nunca houve um caso de fraude eleitoral comprovada no Brasil desde que essas urnas começaram a ser usadas. Declarações de “hackers do bem”, que alegam ter violado alguma delas, ou mensagens assinadas por supostos especialistas enviadas por WhatsApp, não provam absolutamente nada.

Zezé pergunta, “por que vocês são contra?”. Vale inverter a questão: por que vocês são a favor? A resposta é dura e simples: porque, pelo que dizem as pesquisas, o bolsonarismo caminha para uma derrota fragorosa em 2022.

Donald Trump recorreu ao mesmo estratagema. Meses antes da eleição americana, o agora ex-presidente começou a colocar em dúvida o sistema de votação. Que, veja bem, não é unificado nos Estados Unidos. Lá não existe um órgão federal como o TSE, que padroniza as urnas de todo o país. Cada estado tem autonomia para adotar o que quiser: voto impresso, voto eletrônico, fichas perfuráveis, voto pelo correio. Este último foi o alvo preferencial de Trump.

Resultado: muitos americanos questionam até hoje se Joe Biden venceu mesmo em novembro passado. E ainda houve em janeiro a trágica invasão do Capitólio por militantes trumpistas, que buscavam reverter à força a vitória do partido Democrata.

Temos sólidas razões para suspeitar que Jair Bolsonaro tentará coisa parecida no ano que vem, se de fato perder no voto popular. Ele repete há meses que não aceitará uma derrota se o voto impresso não for implantado, e ameaça até mesmo cancelar a eleição, um poder que não tem.

Só que, na verdade, o presidente não está interessado no voto impresso –que, aliás, não tem chance de passar no Congresso. O que ele quer é tumultuar, espalhar dúvidas e criar um clima propício para contestar os resultados, talvez na marra.

Não questiono as boas intenções de Zezé Di Camargo. Como cidadão, ele tem todo o direito de apoiar o político que quiser, e seu tom no vídeo divulgado esta semana demonstra sinceridade e entusiasmo.

No entanto, como figura pública, ele deveria tomar mais cuidado com o que diz. Seus argumentos pelo voto impresso são risíveis e facilmente derrubados. Acontece que, por ser um grande astro, ele também é um grande influenciador. Se houver contestação violenta à provável derrota de Bolsonaro e as ruas se tingirem de sangue, parte dessa responsabilidade recairá sobre Zezé Di Camargo.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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