Tony Goes

Abertura das Olimpíadas foi a cerimônia possível em tempos de pandemia

Estádio vazio e tom solene destoaram de edições anteriores

Abertura dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020 - Pilar Olivares/REUTERS
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São Paulo

Os Jogos Olímpicos da era moderna existem desde 1896, mas suas cerimônias de abertura e encerramento só ganharam importância a partir de 1980, nas Olimpíadas de Moscou. Disposta a impressionar o mundo, a extinta União Soviética preparou shows elaboradíssimos.

E conseguiu torná-los memoráveis: até hoje, os painéis que formavam o ursinho Misha, mascote do evento, vertendo uma lágrima, são citados com carinho. De lá para cá, estas cerimônias foram se tornando cada vez mais espetaculares. A China encenou sua história milenar na abertura dos Jogos de Beijing, em 2008.

Em 2012, em Londres, uma dublê da rainha Elizabeth 2ª saltou de paraquedas sobre o estádio de Wembley. E o Brasil juntou favelas, a floresta amazônica e Gisele Bündchen na épica abertura da Rio-2016. Tóquio tinha tudo para ultrapassar o impacto de suas antecessoras, inclusive a tecnologia mais avançada do mundo.

Mas a pandemia da Covid-19 quase fez com que as Olimpíadas de 2020 fossem canceladas definitivamente. Aos trancos e barrancos, e cercada de críticas por todos os lados, a Tóquio-2020 finalmente deslanchou nesta sexta-feira (23), com um ano de atraso e de maneira muito diferente da que sonhavam seus organizadores.

A última semana de ensaios da cerimônia de abertura foi conturbada, com duas perdas de peso na equipe criativa. Na segunda-feira (19), o compositor Keigo Oyamada, conhecido na música pop sob o pseudônimo Cornelius, renunciou ao cargo de diretor musical depois que ressurgiu uma entrevista da década de 1990 em que ele admite ter feito bullying em colegas de classe portadores de deficiências.

Na quarta (21), o diretor criativo Kentaro Kobayashi foi demitido por causa de uma piada sobre o Holocausto que ele proferiu em 1998, durante um programa humorístico. Claro que esses desfalques de última hora não afetaram a cerimônia em si, que já estava praticamente pronta. Mas serviram para deixar ainda mais pesado o clima dessas Olimpíadas tão controversas.

Com a variante delta se espalhando pelo mundo e mais de 90 casos de Covid-19 já detectados entre as delegações presentes no Japão, a abertura desses Jogos não tinha mesmo como ser esfuziante. O que se viu no Estádio Olímpico de Tóquio na noite desta sexta (23), manhã aqui no Brasil, não foi propriamente uma festa, mas um espetáculo sóbrio, contido, com momentos de tristeza e até de luto.

O contraste com o carnaval fora de época que foi o início das Olimpíadas do Rio não poderia ser maior. A cerimônia começou com atores e bailarinos espalhados pelo campo, iluminados por efeitos de última geração, diante de uma plateia de menos de mil pessoas —caberiam 68 mil. Entre os presentes, o imperador Naruhito, o presidente francês Emmanuel Macron e a primeira-dama americana Jill Biden.

O tom foi solene, do hasteamento da bandeira japonesa à homenagem aos mortos da pandemia. Houve poucas referências ao passado e à cultura japonesa: a que mais se destacou lembrava a incrível capacidade do país de se reconstruir, uma mensagem adequada aos tempos que correm.

Foi tudo bem mais curto do que nas edições anteriores, ou pelo menos pareceu assim. Logo começou o desfile das delegações, o que fez com que a animação subisse alguns graus. Cada país decidiu o tamanho de sua representação. Algumas entraram de máscara, praticando o distanciamento social; outras se aglomeraram, os rostos nus e sorridentes. Tomara que ninguém tenha se contaminado.

A Grécia foi a primeira a desfilar, como manda a tradição, seguida pela delegação de atletas refugiados, uma novidade surgida em 2016. Como sempre, o país anfitrião foi o último. Dessa vez, o Japão foi precedido pela França e pelos Estados Unidos, que receberão, respectivamente, os Jogos de 2024 e 2028.

A ordem das delegações seguiu o alfabeto japonês usado para nomes estrangeiros, com as vogais primeiro (na sequência A-I-U-E-O, distinta da nossa) e as consoantes depois.

O Brasil entrou tímido, com só quatro pessoas. Segurando a bandeira, a judoca Ketleyn Quadros e o jogador de vôlei Bruninho. Uma delegação tão pequena que as câmeras de TV não se demoraram muito sobre ela. Mas perfeitamente afinada com o desastre sanitário e político que vivemos por aqui.

O momento mais sensacional veio quase no final. Depois de um desenxabido esquete humorístico, drones sobre o estádio formaram o globo terrestre em três dimensões, com os continentes nitidamente desenhados. De tirar o fôlego.

Ainda teve revoada de origamis, pictogramas humanos, teatro kabuki e a única canção do Queen com refrão em japonês, “Teo Torriate”, que foi hit apenas em plagas nipônicas. A tocha olímpica finalmente adentrou o estádio com quase uma hora de atraso.

Foi, em resumo, uma abertura estranha, meio desconjuntada e não muito empolgante. Mas não podia ser de outra maneira. Ainda não temos motivos para uma grande celebração. O que se pode fazer é ir em frente, com todo o cuidado e muitas dúvidas. A alternativa era cancelar os Jogos de vez, e em breve saberemos se esta não teria sido a decisão correta.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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