Tony Goes
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Minissérie 'Um Rapaz Adequado' é uma novelinha das seis ambientada na Índia

Adaptado de romance de 1.500 páginas, programa tem trama demais para poucos episódios

Cena da minissérie

Cena da minissérie "Um Rapaz Adequado" BBC/Lookout Point

Lançado em 1993, o livro "Um Rapaz Adequado" causou sensação nos países de língua inglesa. Ao longo de cerca de 1.500 páginas (o número varia de uma edição para outra), o autor Vikram Seth traça um painel abrangente da sociedade indiana na metade do século 20. Uma tradução brasileira foi publicada em 2014, pela editora Record.

A ação de "Um Rapaz Adequado" se concentra na fictícia cidade de Brahmpur, no norte da Índia, e se passa entre os anos de 1951 e 1952. Fazia pouco tempo que o país havia deixado de ser uma colônia britânica, e as cicatrizes de sua traumática separação do Paquistão ainda não estavam fechadas (a rigor, não estão até hoje).

É sobre esse pano de fundo que Vikram Seth conta as peripécias de quatro famílias da elite, unidas por laços de casamento e amizade. Uma dezena de tramas se entremeiam, mas uma se destaca: a da jovem Lata, uma universitária de 19 anos que quer escolher seu próprio marido, e não deixar para sua mãe dominadora a tarefa de encontrar o "rapaz adequado" do título.

Quase 30 anos depois de publicada, a aclamada obra de Vikram Seth finalmente ganha uma versão para a tela. Trata-se da minissérie "Um Rapaz Adequado", produzida pela BBC Studios e já disponível na Netflix.
As credenciais do programa são impecáveis. A direção é de Mira Nair, cineasta indiana que emplacou uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro logo com seu primeiro longa, "Salam Bombay" (1988), desenvolvendo uma sólida carreira desde então.

O roteiro ficou a cargo de Andrew Davis, experiente na adaptação de obras literárias para o cinema e para a TV. E o elenco, formado quase todo por atores indianos, tem a lendária Tabu –uma das mais importantes estrelas de Bollywood– em um dos papéis principais: a belíssima cortesã Saeeda Bai, uma espécie de prostituta de luxo, que se envolve com um rapaz muito mais jovem.

Mira Nair descreveu a minissérie como "‘The Crown’ in brown" –uma variante indiana da série sobre a rainha Elizabeth 2ª, também da Netflix, com atores de pele mais escura ("brown" quer dizer marrom). Mas "Um Rapaz Adequado" não chega a tanto. É, no máximo, uma versão de "Downton Abbey" na Índia, com personagens para quem o dinheiro não é problema e cujos maiores conflitos são quase todos de ordem amorosa.

Na verdade, "Um Rapaz Adequado" lembra uma novela da Globo da faixa das 18 horas. Vários clichês do gênero estão lá: amores impossíveis, filhos bastardos, crônica de costumes e uma dose de comédia. Também há um pouco de intriga política e um voo rasante na mais séria fissura da sociedade indiana: o atrito entre hindus e muçulmanos, que divide o país até hoje. Mas o tratamento dado a todos esses temas é leve feito um pão naan, aquela iguaria indiana deliciosa de massa aerada e nenhum recheio.

Há um excesso de subtramas para tão poucos episódios (apenas seis ao todo, cada um com cerca de uma hora duração). Algumas, como o da esposa adúltera, nem são resolvidas. E toda vez em que parece que o caldo vai engrossar, a carga dramática é rapidamente aliviada. Até "Caminho das Índias", a novela de Glória Perez exibida pela Globo em 2009, trazia histórias mais pesadas.

Isto não quer dizer que "Um Rapaz Inadequado" não mereça ser vista. Com cenários e figurinos deslumbrantes, a minissérie certamente pinta uma Índia para turista ver. Mas não há nada de errado em fazer um pouco de turismo de poltrona nesses tempos em que mal podemos sair de casa. Uma novelinha com perfume indiano cai muito bem agora.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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