Tony Goes

Diferente das premiações habituais, entrega dos 'Pandemmys' foi sóbria e emocionante

Nem tudo funcionou direito, mas o saldo final da cerimônia é positivo

O apresentador Jimmy Kimmel e a atriz Tracee Ellis Ross no Staples Center durante a 72ª cerimônia do Emmy Awards realizada virtualmente neste domingo (20)
O apresentador Jimmy Kimmel e a atriz Tracee Ellis Ross no Staples Center durante a 72ª cerimônia do Emmy Awards realizada virtualmente neste domingo (20) - Image Group LA / American Broadcasting Companies, Inc. / ABC / AFP

A 72ª cerimônia de entrega dos Emmy, a mais importante premiação da TV americana, começou de maneira surpreendente. Contrariando tudo o que havia sido anunciado antes, o apresentador Jimmy Kimmel falava a um auditório lotado de celebridades, que riam de cada piada e aplaudiam com entusiasmo. Todas aglomeradas, todas sem máscara.

Kimmel chegou a mencionar que o produtor Norman Lear, aos 98 anos de idade, havia se tornado o mais velho ganhador de um Emmy de todos os tempos. E a câmara cortou para Lear na plateia, feliz como se não fizesse parte de nenhum grupo de risco.

Então Kimmel mudou de tom, e revelou que o gigantesco Staples Center, em Los Angeles, estava praticamente vazio. Tudo o que vimos antes era uma montagem muito bem-feita, que aproveitava imagens de edições anteriores para enganar o espectador.

Bem-vindo aos “Pandemmys”, como definiu a revista Entertainment Weekly. Em tempos excepcionais, uma das noites mais importantes do calendário do showbiz também precisou ser excepcional. Por um lado, foi triste, sem glamour nem escapismo. Em momento algum pudemos esquecer que a Covid-19 ainda mata milhares de pessoas todos os dias.

Por outro, foi emocionante. A ideia de chamar gente que está na linha de frente do combate ao coronavírus e do esforço pelo abastecimento durante o lockdown –médicos, fazendeiros, motoristas de caminhão– serviu para homenageá-los, sem resvalar na pieguice.

Mas, acima de tudo, esta festa do Emmy (se é que podemos chamá-la assim) foi uma lufada de ar fresco num formato que há anos vem exibindo sinais de desgaste. São tantas entregas de Oscars, Grammys, Tonys e Globos de Ouro, que essas cerimônias acabam se tornado algo previsíveis e aborrecidas. Não é de se admirar que a audiência venha caindo.

Nem tudo funcionou bem. O ator Randall Park entrou em cena com uma alpaca, na piada mais sem graça da noite. Outra tentativa de fazer rir quase acabou em desastre. Jimmy Kimmel tacou fogo num envelope para “esterilizá-lo”, e Jennifer Aniston foi apagar o pequeno incêndio com um extintor. As chamas dobraram de tamanho e a atriz só conseguiu eliminá-las na segunda tentativa.

Bem que os produtores avisaram que muita coisa iria dar errado. Ainda mais com uma centena de câmeras espalhadas por 10 países, para captar o maior número de indicados e suas reações. Mas as falhas técnicas foram ínfimas: só variações na qualidade do vídeo e do áudio, sem imagens travadas ou quedas de sinal.

Houve um único número musical, e de produção espartana. Sentada ao piano, a cantora H.E.R. entoou uma versão pungente de “Nothing Compares 2 U”, composição de Prince imortalizada por Sinéad O’Connor 30 anos atrás, durante o tributo aos grandes nomes que morreram recentemente.

A sobriedade acabou dando a tônica da noite. Mas a alegria também deu as caras, principalmente entre a equipe e o elenco da sitcom “Schitt’s Creek” –que levou todos os sete troféus a que concorria neste domingo (20), uma façanha inédita na categoria de série cômica.

Tristes mesmo devem ter ficado os executivos da Netflix. A gigante do streaming só faturou dois dos prêmios principais; Melhor Direção de Minissérie para Maria Schrader de “Nada Ortodoxa” e Melhor Atriz Coadjuvante em Série Dramática para Julia Garner de “Ozark” –enquanto a rival HBO conquistou dez.

Talvez seja hora de rever a estratégia de marketing. Um detalhe me agradou bastante: os vencedores puderam agradecer sem serem interrompidos. Não havia orquestra para subir a música quando algum deles se estendesse, só um DJ que teve participação discreta. Que alívio.

Jimmy Kimmel lembrou diversas vezes que a televisão desempenha um papel crucial nesta pandemia, trazendo informações em tempo real e entretenimento para quem não pode sair de casa. Imagine de que jeito estaríamos sem ela.

Infelizmente, mesmo se aprovarem logo uma vacina, a cerimônia do ano que vem também deve ser excepcional. Se em 2020 não houve plateia, em 2021 pode não haver o que premiar. Muitos sets estão parados, muitas produções foram interrompidas. Será que vem aí a categoria de “melhor reprise”?

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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